Luke MacGregor/Reuters
Luke MacGregor/Reuters

AO VIVO

Confira tudo sobre a Copa do Mundo da Rússia 24 horas por dia

Eduardo Paes: 'A cidade não precisa de mais equipamentos esportivos'

Prefeito do Rio defende Olimpíada antidelírio, sem exageros, e vai investir em obras temporárias

Leonardo Maia e Tiago Rogero - O Estado de S.Paulo,

13 Agosto 2012 | 03h08

RIO - Londres passou o bastão para o Rio. A contagem regressiva para os Jogos de 2016 começou ontem. Para não repetir o fiasco do Pan-americano de 2007 - marcado por denúncias de corrupção e a promessa de um legado que nunca veio -, o prefeito Eduardo Paes disse que prefere gastar milhões em um equipamento que será desmontado a ter um permanente subutilizado, de custo maior, depois da Olimpíada. "Temos de estabelecer bem o limite dos delírios olímpicos, que existem", afirmou.

Em entrevista ao Estado, o prefeito do Rio de Janeiro - que tenta a reeleição - afirmou que a cidade não precisa de outros equipamentos esportivos.

O que muda a partir de agora?

Não muda muita coisa, porque já estamos atentos há muito tempo. É evidente que a cobrança aumenta e o cumprimento de prazos deve começar a ser mais rigoroso. Temos uma super oportunidade na Olimpíada de fazer uma entrega diferente. O Brasil e o Rio devem mostrar que têm capacidade de organizar e fazer um grande evento, pensar no legado.

Durante a última visita ao Rio, o Comitê Olímpico Internacional demonstrou preocupação com duas obras: Parque Olímpico e Complexo Esportivo de Deodoro.

Estamos no prazo, mas é óbvio que existem pontos de atenção. Boa parte dos desafios mais complexos já está endereçada. Não há nenhuma obra que dure mais de três anos que já não tenha sido iniciada. O parque de Deodoro não é tão complexo quanto o Parque Olímpico. Em alguns prazos, estamos no limite. A Vila dos Atletas está a pleno vapor. O que fica de legado, como o Porto Maravilha, vila de mídia, BRTs, metrô, tudo isso está avançando.

Pelo que se viu em Londres, o que pode ser aproveitado no Rio e o que não será adotado aqui?

Londres tem duas lições para dar: uma de legado, com a transformação de uma área da cidade, e a outra sob o ponto de vista de transparência do processo. Eles foram para a pior área da cidade, talvez a única muito degradada. Temos mais áreas degradadas que eles. Além disso, Londres conseguiu comunicar muito bem as Olimpíadas; isso não é algo trivial. Esse legado intangível da capacidade de organizar os Jogos é muito relevante e é nosso maior desafio.

Em Londres, houve desde o início do ano uma campanha para que os londrinos tirassem férias, trabalhassem de casa. O carioca pode ser aconselhado a deixar sua casa durante os Jogos?

Provavelmente, vamos ter de tomar medidas. Não para tirar os cariocas da cidade, porque o Rio sem cariocas não é a mesma coisa. Mas vamos ter de criar mecanismos que facilitem a vida dos Jogos e das pessoas. As férias escolares, por exemplo, ao invés de termos em julho, fazer em agosto. Nenhuma cidade recebe um evento daquele tamanho e não é afetada. São transtornos de uma Olimpíada que a população tem de compreender.

O Pan-americano de 2007 ainda é alvo de muitas críticas por não ter deixado legado para a cidade. Quais as garantias de que o mesmo não vai acontecer depois de 2016?

Ganhamos os Jogos pelas transformações que iriam acontecer na cidade. Isso não é mais um temor (o legado). O desafio, acho, está nos equipamentos esportivos. E vou jogar muito duro nessa história. A cidade não precisa de novos equipamentos permanentes, temos de fazer temporários. E estabelecer bem o limite dos delírios olímpicos que existem. A única coisa que teremos de novo, que fica, é o Centro Olímpico de Treinamento (COT).

E o custo das instalações?

No Parque Olímpico, de permanente, haverá o COT. As pessoas falam: 'Você vai gastar R$ 200 milhões em um parque aquático que vai cair no dia seguinte, que não é permanente?' É verdade, mas vale a pena. É mais caro fazer algo permanente e manter isso, tendo o Maria Lenk. O parque aquático que exigem para a Olimpíada é um delírio completo, só serve para uma Olimpíada mesmo. Não precisamos disso.

Estima-se que a reforma do velódromo custaria em torno de R$ 100 milhões; a construção de um novo sairia por R$ 110 milhões. O velódromo pode ser desmontado e levado para outra cidade do País?

Não vamos demolir o velódromo. É um simbolismo muito ruim começarmos nossa Olimpíada demolindo uma coisa que teve investimento público. Se a conta for essa, deixaríamos de desperdiçar o dinheiro que já se gastou (R$ 14 milhões, em 2007) e ainda economizaríamos R$ 10 milhões, que não é trocado. Dá para fazer umas quatro escolas aqui na cidade.

E se a outra prefeitura arcasse com a diferença para receber o velódromo, o senhor estaria aberto a isso?

Não, tem um simbolismo nesse caso. Estamos tentando inaugurar aqui o sistema da arquitetura nômade. Estou exigindo da Aecom (empresa britânica que está fazendo o projeto do Parque) projetos de equipamentos temporários que tenham uma destinação posterior. Por que um equipamento desses não pode virar uma escola, uma biblioteca, um ginásio? Ou então por que eu não posso mandar, já que o Rio não precisa, para São Paulo, Recife, Salvador? O Rio não precisa mais de equipamentos esportivos, São Paulo precisa. O UFC não aconteceu lá porque não havia um ginásio adequado para isso.

Para a Copa de 2014, perdemos a chance de passar a imagem de país organizado. Mas ainda não temos uma previsão total de gastos para os Jogos do Rio. Isso não é desorganização?

Não, porque poderíamos fazer o jogo de Londres: jogaram para cima para dizer que reduziu. Isso não é o melhor. Tem projeto executivo pronto? Orçamento? Comunica (o valor total). Tenho ideia de quanto vai custar o parque aquático, mas não vou dizer porque amanhã, se o projeto custar mais, vai parecer que aumentou o preço.

E quando vamos ter essa previsão?

No prazo máximo de um ano. Em seis meses, teremos vários projetos do Parque Olímpico, principalmente dos equipamentos temporários. Temos de parar de dar chute.

O Galeão dificilmente estará pronto, como espera o COI, até 2016.

Torço muito para que o governo federal faça a concessão. É meu desejo e minha torcida. O problema do aeroporto é muito mais de operação que de qualquer outra coisa. Acredito na concessão até 2016.

O Rio receberá um enorme volume de investimento e eventos até 2016. O que esperar da cidade após isso?

Podemos fazer igual Atenas, que teve muito investimento e não mudou nada, ou podemos aproveitar essa oportunidade de ouro e transformar a cidade com mais mobilidade, mais integrada, espaços menos degradados.

De quem é a palavra final na preparação para os Jogos: do Comitê Rio 2016 ou da prefeitura do Rio?

Acho que de todo mundo. É um processo de construção coletiva, ninguém vai dar de autoritário. Sob o ponto de vista objetivo e formal, o prefeito pode falar: "Não faz" e acabou, não autorizo.

Já aconteceu isso?

Não, e nem pode acontecer.

O Vasco tem até 31 de outubro para apresentar o projeto de reforma de São Januário para receber o rúgbi, mas o Comitê Rio 2016 afirmou que já possui um plano B. A prefeitura vai oferecer apoio ao Vasco?

Vamos ajudar. Estamos estudando esse modelo e trabalhando juntos. O que não pode é ter delírio, temos de controlar os ímpetos mais delirantes. São Januário é um estádio lindo, histórico, dá para torná-lo mais confortável com pequenas ou boas intervenções. Tem de ser a Olimpíada antidelírio, antigigantismo, antialucinação.

O senhor admite um plano B?

Não, sou vascaíno, pô.

A Federação Internacional de Hóquei Sobre Grama já manifestou publicamente descontentamento com a realização das competições no complexo esportivo de Deodoro, e não no Parque Olímpico. Há alguma possibilidade da modalidade vir a ser disputado no Parque?

Não. A vida é dura, muito dura. Esperamos que o COI convença a federação. Eu também tenho um monte de vontades na minha vida. Tenho certeza de que eles vão ceder. E vamos fazer um equipamento de muita qualidade para a disputa.

Caso vença a eleição deste ano, abriria mão de ser o prefeito anfitrião dos Jogos de 2016 para concorrer ao governo do Estado, em 2014?

Não há hipótese. Primeiro porque eu adoro ser prefeito do Rio, é melhor que qualquer outra coisa. Tenho certeza que todos os governadores e prefeitos do Brasil, inclusive a presidente da República, morrem de inveja do meu cargo. Adoro ser prefeito dessa cidade e é um momento muito fantástico, mágico, da história do Rio. Eu planejei tudo, me dediquei muito, quero entregar essa cidade transformada.

E se não vencer, pretende trabalhar na preparação para os Jogos?

Aí eu pulo da janela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.