Eficiência e talento

O Santos provou no clássico com o São Paulo que sabe ser cauteloso e ganhar sem jogar bonito. Para alegria dos pragmáticos, que ficaram horrorizados com os cinco gols tomados pelo atual campeão paulista em duas partidas consecutivas, nas quais em compensação anotou sete. No duelo de ontem, na Arena Barueri, o líder foi menos agressivo do que nas quatro apresentações iniciais, comportou-se de forma mais convencional, teve poucos lances de efeito e ainda assim saiu de campo com vitória por 2 a 0 e na ponta do torneio.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2011 | 00h00

Adilson Baptista pelo jeito não passou batido pelas restrições feitas ao estilo de jogo de sua equipe, muito atrevido para os padrões atuais, em que a solidez do sistema defensivo tem importância maior do que o poder de ataque. O Santos que mandou a campo, em seu principal teste no Paulista, no papel era basicamente o mesmo do empate por 3 a 3 com o São Caetano, no meio da semana, e que rendeu tanta discussão. No comportamento, porém, foi diferente. Saiu o espetáculo, entrou a eficiência.

A opção santista pelo resultado a todo custo tornou-se evidente a partir dos 10 minutos, tão logo Elano fez seu quinto gol na competição doméstica. O time recuou, fechou-se no meio, atraiu o São Paulo e largou Maikon Leite e Keirrison lá na frente, abandonados, tão isolados que quase se puseram a conversar com os zagueiros rivais, Xandão e Miranda, para terem o que fazer e passar o tempo.

A estratégia de Adilson e seus rapazes deu espaço para o São Paulo aparecer e aparentemente pressionar. Domínio ilusório. Na estatística, a equipe de Carpeggiani teve mais domínio de bola, o que deixa sempre exultantes os cultores da precisão dos sistemas táticos.

Na prática, isso não significou riqueza de situações de gol. Claro que elas surgiram - como a bola na trave em chute de Jean, no segundo tempo -, mas não foram em número muito maior do que aquelas criadas pelo Santos versão mais contida que se viu na calorenta tarde de domingo. Pressão sem qualidade não resolve. Faltam ao São Paulo um regente no meio-campo (será Rivaldo?) e um artilheiro. Falta-lhe vocação para o gol.

Vocação que o Santos tem, mesmo quando atua com o pé no freio. E tem porque conta com jogadores ágeis, criativos, leves só na aparência, pois aguentam o tranco nas divididas. E porque tem também Elano, que parece não ter jamais saído da Vila Belmiro. Ele retomou seu lugar na equipe, como velho de casa, foi decisivo na construção do segundo gol, ao arrematar forte, de fora da área, e provocar a rebatida de Rogério que Maikon Leite aproveitou, aos 28 da etapa final. Se tivesse mais pontaria, Leo teria feito o terceiro, pouco depois.

O Santos não foi um horror, longe disso. De qualquer forma, prefiro vê-lo levar dois, três gols, e fazer três, quatro, do que seguir a cartilha do medo. Pode sofrer sustos, sem dúvida, só que será sempre mais animado. E, salvo engano, futebol para mim é divertimento.

Moita verde. O Palmeiras é franco-atirador no Paulista, pelo elenco mais limitado e pelo histórico recente de frustrações. Mas sem alarde se ajeita e encorpa, com quatro vitórias enfileiradas em cinco jogos. A de ontem, sobre a Lusa (2 a 0), teve a marca de Cicinho, autor de um belo gol e de uma singela declaração de amor ao clube. Dias atrás, após a estreia, admitiu que ficou sem dormir, quando recentemente soube que havia sido contratado. Haveria ainda espíritos puros no futebol? Tomara.

Cretinice 2. Na sexta-feira, com o intertítulo "Cretinice", citei reportagem do jornal Sport, de Barcelona, que considerei preconceituosa por chamar o Brasil de "cemitério de elefantes", ao acolher veteranos como os Ronaldos, Belletti, Deco, Rivaldo, dentre outros que passaram pela Espanha. Recebi ontem o texto integral do artigo, que, ao contrário do resumo que eu havia lido no meio da semana, não denota preconceito. Fora a manchete um tanto forçada, não há desprezo para os brasileiros que fizeram o caminho de volta. Gastei minha ira santa de forma exagerada.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.