Ele deu o pontapé inicial

Reinaldo Conrad, ao lado de Burkhard Cordes, foi o 1.º brasileiro a ganhar medalha na vela, o esporte mais vitorioso do País

O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2008 | 00h00

O nome Reinaldo Conrad talvez não seja familiar para boa parte dos brasileiros. Mas, para a vela, representa muito. Foi o 1.º do Brasil a conquistar medalha na modalidade mais vitoriosa do País em Jogos - 6 ouros, 2 pratas e 6 bronzes. Em depoimento a Heleni Felippe, Conrad lembra de sua história em Olimpíadas"Para mim a Olimpíada de Roma, em 1960, quando velejei na classe Finn, foi a mais especial. Fiquei em quinto, mas ganhei uma regata. Acho que fui o velejador mais jovem do Planeta a ganhar uma regata (aos 17 anos). Mas a medalha veio em Acapulco (sede da vela nos Jogos do México/1968).Numa conversa com o dinamarquês Paul Elvström, que tem quatro medalhas de ouro (na classe Finn, entre 1948 e 1960), perguntei o que fazia com a bússola, algo novo. Ele disse: ?Também não sei, a minha joguei na água.? Na época, a bússola complicava. Hoje, sem ela, ninguém consegue velejar.Era momento de inovações, de procurar novas maneiras de velejar, organizar o barco e a estrutura. Foi a primeira vez que surgiu uma equipe com barcos de apoio: a Inglaterra. Os ingleses tinham até avião para sobrevoar o mar e verificar correntes (em 1972, o recurso foi proibido). Foi o início das equipes de apoio da vela, que hoje todos os países têm.Eram sete regatas, valendo seis. Mas eram regatas longas, com pelo menos o dobro do tamanho das atuais. As regatas foram diminuídas por causa da TV, para serem exibidas.Os ingleses eram superiores (Rodney Pattison e Iain Macdonald-Smith) e venceram todas as regatas, menos a última, que nós ganhamos. O segundo foi o barco alemão (com Ulrich Libor e Peter Naumann), também competitivo. Para que ganhássemos medalha, na última regata dependíamos de uma combinação de resultados: ganhar a regata, torcer para os ingleses serem segundo e o barco australiano, concorrente direto, ficar em terceiro ou mais para trás. Na noite anterior, preguei o resultado ideal na porta do quarto. Acertei até o sexto lugar.No pódio de 1968 eu estava profundamente emocionado e contente por ter obtido o resultado escrito na porta. Se houvesse apostas, seria 100 a 1. Em 1976, foi diferente. Tínhamos chance de ganhar prata, ficando em segundo na última regata. Fomos terceiro. No México, fizemos o melhor possível. Em Montreal, não arriscamos o suficiente.O Flying Dutchman é mais ou menos do tamanho do Star, mas não tem quilha. É muito leve - era posto num caixote para transporte, no convés do navio. Não havia contêiner na época. Disputei cinco Olimpíadas, a primeira de Finn e as outras de Flying Dutchman. Em 1972, eu e Bukhard Cordes ficamos em quinto; em 1976, eu e Peter Ficker levamos o bronze; em 1980, com Manfred Kalfman, não ganhei nenhuma regata.Em Moscou (1980) a performance brasileira foi melhor do que se poderia prever, com os ouros de Alex Welter e Lars Björskstrom (Tornado) e Marcos Soares e Eduardo Penido (470). A preparação também foi mais intensa. Me lembro que o Alex começou a velejar em regatas internacionais um ano antes, na Austrália, Europa, e foi ajustando o barco. Marcos Soares e nós também.Velejar todos sabem. No Brasil, existe um domínio da técnica de velejar bem importante. É questão de treinar, ter sangue frio na Olimpíada - não desmoronar psicologicamente, porque isso ocorre com mais freqüência do que se imagina - e ter horas de regata. Acho que é preciso ter pelo menos 300 horas de regata em ano olímpico para estar competitivo no momento principal. Se eu imaginava que a vela poderia ser a maior campeã olímpica do Brasil? Achava que o Brasil poderia ganhar mais medalhas. Em Munique (1972), tivemos três quartos lugares (Finn, Star e Flying Dutchman), o que significava estar próximo da área de medalha.Existe uma história que faz um pano de fundo das vitórias que o Brasil tem no iatismo, escrita por famílias estrangeiras que trouxeram de seus países o gosto pela água, a vela e a natureza. Um desses centros foi Niterói, no Estado do Rio de Janeiro, de onde saíram os Grael (Torben e Lars). São Paulo, especialmente o Yatch Clube de Santo Amaro, e Porto Alegre são outros centros importantes. A vela tem mais iatistas do que no passado, o que leva a uma continuação de bons resultados. Mas o Brasil ainda tem poucos velejadores.Quem é ele Nome: Reinaldo Conrad, 65 anos, nascido em São Paulo Início: Yatch Clube de Santo Amaro, aos 10 anos Resultados: 2 bronzes em Olimpíadas (Cidade do México/68 e Montreal/76); 3 ouros em Pans (Chicago/59, São Paulo/63 e Cidade do México/65) e 1 prata (Winnipeg/67)

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