Ele já pensou no que pensamos

Há uma voz corrente na imprensa esportiva dando conta de que as competições de clubes perdem grande parte do charme em anos de Copa do Mundo, quando todos estão mais preocupados com o universo das seleções do que com os torneios regionais e nacionais. Sob essa ótica, os campeonatos estaduais chegam a ser desprezíveis, uma vez que os grandes jogadores brasileiros, os que brilharão para valer no Mundial, atuam no exterior. Isso pode ter sido verdade em outros anos de Copa, mas não nesta temporada.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Alguns craques que estarão em campo neste fim de semana subverteram essa crença. O Brasil, claro, quer saber se Kaká chegará à África do Sul livre da pubalgia e se a base da nossa defesa, que atua pela Inter de Milão, será capaz de parar o imparável Messi. Mas, neste momento, acima de tudo, nossa torcida está com os olhos voltados para as decisões estaduais, sobretudo a do Campeonato Paulista. E esse interesse todo tem uma explicação. Ora, se é verdade que a lista final de Dunga, a ser divulgada no mês que vem, estará cheia nomes manjados de atletas que jogam lá fora, a única chance de alguma novidade passa pelos craques que vêm gastando a bola por aqui. São esses nomes - e não os dos estrangeiros - que ocupam todo o espaço nas mesas dos bares e cafeterias das empresas, ambientes consagrados para a arte de jogar conversa fora com o futebol nosso de cada dia.

Estou falando, eu e todo o Brasil, dos nomes de Neymar, Ganso, Hernanes e Dagoberto. Nomes que não constaram da lista de Dunga para o último amistoso antes da Copa do Mundo. Nomes que, se confrontados com outros que estão na lista, deveriam no mínimo tirar o sono do treinador. Respeito a opinião de Dunga, que defende o histórico dos últimos anos de trabalho como o principal fator para um atleta garantir presença na lista. Mas, como também respeito a inteligência do gaúcho, tenho certeza de que ele cogita, sim, fazer ajustes em sua lista. Esses ajustes podem ser compulsórios, em função de contusões, bem como podem ser técnicos. Insisto: não seria razoável imaginar que Dunga, uma pessoa que vive do futebol e conhece a máxima que diz que "futebol é momento", possa estar ignorando as atuações espetaculares dos quatro jogadores que citei.

Numa seleção que atualmente tem Gilberto deslocado pela lateral, os tarimbados Kléberson e Gilberto Silva em fase de pouco brilho, Nilmar entusiasmando tão pouco quanto o Villarreal, além da incógnita Adriano, não é absurdo imaginar que Neymar, Ganso, Dagoberto e Hernanes possam figurar na lista final de 23 nomes. Vou mais longe: acho praticamente impossível que um desses nomes não figure na lista. E, nesse aspecto, a aposta mais óbvia é por um dos santistas. Ou os dois.

Os meninos da Vila estão voando baixo. O jogo pode estar 7 x 1 ou 9 x 0 para o Santos, já nos minutos finais. Não importa: lá vão os jovens craques, marcando forte, partindo em alta velocidade, tabelando e finalizando como se o jogo estivesse apenas começando. O time do Santos joga os 90 minutos pensando em marcar mais um gol. Ou melhor, joga os 90 minutos pensando em marcar mais três gols! E grande parte dessa volúpia desenfreada, dessa eficiência desconcertante, tem a ver com o trio Ganso - Neymar - Robinho. Futebol é fase, isso eu já disse. Mas futebol também é entrosamento. Com o trio santista na seleção, ainda que nem todos como titulares, Dunga teria uma incomparável carta na manga.

Imaginem um daqueles jogos - e toda Copa tem um assim - nos quais nada funciona. Uma partida contra um adversário retrancado, diante do qual Ramires está rendendo pouco, ou Kaká está sofrendo com a dura marcação, ou os atacantes não conseguem armar tabelas. Agora imagine se, num momento desses, Dunga tivesse a chance de mandar a campo o endiabrado trio do Peixe. O amigo leitor já pensou nisso? Pois pode ter certeza de que Dunga também.

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