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Ugo Giorgetti
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Elegância

O tédio absoluto, e o desânimo, me obrigam a não falar em estádios, liberação de verbas, consórcios, etc. Admiro extremamente pessoas na imprensa que, com coragem e empenho infinito, denunciam ano após ano o estado das coisas neste país, no plano dos esportes. Infelizmente, não consigo.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2013 | 02h11

Por isso vou falar de outra coisa que, apesar de tudo, acaba se relacionando com a situação do nosso futebol. Outro dia vi na ESPN uma longa entrevista com Paulo Roberto Falcão. Vi duas vezes, na primeira vez e na reprise. As duas pela mesma razão: foi um craque. Jogou muito, me proporcionou momentos de grande prazer, inclusive com aquela inesquecível equipe de 1982, última representante da essência do futebol brasileiro. Uma equipe que perdeu a Copa, mas venceu o tempo.

Falcão se apresentou com a elegância habitual dos trajes e das maneiras. Não que trajes importem muito, são, aliás, o menos importante na elegância. Outros personagens no futebol brasileiro tentam a todo custo parecer elegantes e acabam gastando dinheiro inutilmente, parecem vestir roupas de outra pessoa.

Falcão era elegante com a camisa do Inter, da seleção ou do Roma. Sua entrevista valeu pelas recordações de um momento privilegiado, os tempos de Sócrates, Zico, Junior, Telê Santana, mas valeu principalmente quando se deteve nas razões do insucesso do craque, até agora, como treinador de futebol. Insucesso que, de resto, não se deve aos números, à estatística de vitórias e derrotas, mas do seu modo de se relacionar com dirigentes e jogadores.

No fundo o que Falcão pretende parece pouco. Quer dirigir um time altivamente, onde treinador e jogadores não sejam uma irmandade, uma confraria de amigos, mas pessoas honestas com funções perfeitamente demarcadas e que se respeitem. Não pretende fingir que é amigo dos jogadores, porque em suas próprias palavras "teria de ser amigo de 25 ou 26 jogadores" o que é, mantendo um mínimo de honestidade, impossível.

À amizade prefere a justiça, o tratamento igual para todos. Não aceita nem compreende interferências de dirigentes em seu trabalho, que não sejam justificadas claramente, como foi obrigado a fazer na sua breve passagem como treinador da seleção brasileira. Falta-lhe a qualidade tão nossa, da patota, da turma, do brother.

E falo qualidade sem ironia. Num meio como o do futebol, o treinador tem de saber jogar o jogo subterrâneo das amizades, das preferências e dos favores trocados. É uma qualidade para sobreviver e uma qualidade para ter o elenco ao seu lado.

Falcão não se preocupa com essas coisas. Ama o futebol, que jogou como ninguém. Ao ser perguntado se se considerava, apesar de tudo, realmente um treinador de futebol respondeu sem hesitar: "sou um treinador de futebol." Na pergunta não havia nenhuma alusão oculta a seus eventuais defeitos. Ao contrário, foi feita por causa de suas qualidades.

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