Eliane espera pelo fim do pesadelo

Vencer ou perder são palavras do vocabulário de qualquer atleta. Mas perder para o exame antidoping é implacável. E a punição, o afastamento do esporte, é a maior derrota. Esse é o pesadelo que assombra dias e noites de Eliane Luanda Cardoso Pereira depois que devolveu a medalha de ouro pelos 1.500 metros nos VII Jogos Sul-Americanos, realizados em Belém, em agosto. O exame de urina confirmou a presença de estanozolol, substância proibida pela Confederação Brasileira de Atletismo e Federação Internacional. A contrapova positiva levou ao desespero a juvenil, de 19 anos, que quer dar a volta por cima e retornar o mais breve às competições. A medalha ficou para a chilena Eliana Vasquez. Afastada da equipe, a BM&F Atletismo Funilense, desde a divulgação do primeiro resultado do doping, Eliana Luanda, retornou aos treinos nas pistas do XV de Piracicaba. Dois quilos mais magra, ela quer recuperar a auto-estima e realizar o sonho de vencer no atletismo. "A minha família é tudo", fala com um nó na garganta a ex-empregada doméstica que descobriu o esporte na sua cidade natal, Chapadão do Sul, MS, após conquistar os 1.800 metros. Recebeu troféu e premiação em dinheiro, cerca de R$ 250. Nunca mais parou. A família se mudou para Piracicaba, interior de São Paulo. Vivem em casa alugada no bairro Industrial, periferia da cidade. Os irmãos também estão no atletismo. Otaviano, fundista e meio-fundo, teve breve passagem pela Funilense. E Flaviano, nos saltos em distância e triplo, está na equipe. O pai, Aldebrando Fontes Pereira, 38 anos, trabalha como mecânico e a mãe, Elizete de Souza Cardoso Pereira, a dona Branca, 48 anos, é empregada doméstica. "Queremos voltar a sorrir", diz dona Branca. A menina começou a treinar nas pistas do XV. Foi descoberta pela Funilense e integrou a equipe em 2001. "O primeiro tênis ganhei da Funilense; antes, os meus pés eram lavados em sangue", conta. Mas foi desligada da equipe após o resultado do doping em agosto. Deixou de receber a bolsa de R$ 350 e material para os treinos. "O sonho maior é a Olimpíada." Antes, porém, quer o Troféu Brasil, o Pan-Americano e estudar Educação Física e Fisioterapia. Cursa o 2.º ano do colegial em escola pública. Eliane afirma que não teve intenção no episódio do doping e é inocente. Em fevereiro deste ano procurou uma farmácia para comprar suplementos. Como o farmacêutico queria receituário assinado por um médico, Eliane e o pai Aldebrando chegaram até o Dr. Júlio César Alves. A atleta então ganhou o patrocínio do médico e da farmácia. O médico prescreveu Creatina (5g/dia), BCAA (5g/dia), L-Glutamina (3g/dia), Complete Works (40g/dia) e Nor-andro-stack (2 cápsulas/dia). Em documento encaminhado a Comissão Médica da CBAt, ele admitiu: "De acordo com o produto final, o pré-hormônio Androstene pode ser convertido em Estanozolol." O representante da atleta, o advogado Mário Lázaro dos Santos Filho, aguarda a definição da CBAt. Ele espera cópia do contrato de Eliane com a BM&F e questiona a forma do afastamento. O médico Júlio César Alves encaminhou ao CBAt documentos contestando três pontos do exame antidoping de Eliane, feito pelo Ladetec, no Rio. Ele foi ouvido pela Confederação durante a sindicância. O parecer final deve sair nos próximos dias. Segundo Alves, no exame de urina deveria aparecer a substância anandrolona ao invés da estanozolol: ambas proibidas pelo COI. Outra questão é a não alteração do pH do material. E o não aparecimento de fenoterol, componente presente no medicamento Berotec que a atleta tomnou para gripe. "Houve negligência do Funilense", afirma ele, acrescentando que o clube sabia que a atleta havia tomado tais medicamentos. "A Eliane deveria suspender as aplicações dez dias antes de qualquer competição e isso foi avisado ao técnico."

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