Wagner Carmo/CBAt
Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo, em Bragança Paulista Wagner Carmo/CBAt

Em crise, atletismo busca uma luz no fim do túnel

Modalidade tenta sobreviver às dificuldades financeiras em um ano importante com a disputa do Pan e do Mundial

Gonçalo Junior e Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 04h32

Modalidade mais nobre do programa olímpico, o atletismo vive uma crise no Brasil. Equipes de corrida tradicionais, como a do Cruzeiro, estão sendo extintas e projetos vitoriosos foram encerrados ou não sabem como vão sobreviver nesta temporada. Para piorar, a CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo) passa por crise financeira e política, pois o antigo presidente, José Antônio Martins Fernandes, renunciou após ser acusado de fraude.

Nesse cenário de incertezas, a entidade busca forças para fazer com que os atletas de elite tenham um bom papel nos Jogos Pan-Americanos, que serão disputados em Lima, no Peru, e no Mundial da modalidade, em Doha, no Catar. Mesmo com todas as dificuldades, muitos brasileiros conseguiram ter um bom desempenho no ano passado.

“A crise mostrou que nossos atletas, treinadores, membros da assembleia geral e da comunidade atlética são guerreiros. Eles conseguiram atravessar a crise política e financeira alcançando grandes resultados em 2018. Para este ano já temos outra perspectiva”, comenta otimista Warlindo Carneiro da Silva Filho, presidente da CBAt.

No ano passado, a B3, maior clube de atletismo do País, decidiu parar de investir na modalidade e retirou seu patrocínio do esporte. Com isso muitos atletas migraram para a Orcampi, de Campinas, e a melhor pista indoor de atletismo do Brasil começou a ser desativada. Outros competidores ficaram sem clube e alguns deles estão treinando no NAR (Núcleo de Alto Rendimento Esportivo), em São Paulo.

“Fiz de tudo para que isso não acontecesse, mas não deu. Nós temos uma pista indoor de aquecimento em Bragança, mas logicamente que não é da mesma categoria”, explica Warlindo, citando o Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo (CNDA), que fica no interior paulista. Inclusive, a CBAt mudou sua sede para lá, a fim de economizar, além de ter promovido corte de funcionários.

Se a saída da B3 do atletismo caiu como uma bomba no ano passado, desta vez é a Orcampi que tem futuro incerto. O motivo é a falta de investimentos. “Nós não temos recursos diretos para 2019”, revela Ricardo D’Ângelo, coordenador da equipe. Nesse cenário, a primeira medida é a redução do número de atletas em 2019. Serão mantidos entre 30% e 40% dos 250 atletas que treinam hoje, em Campinas, sede do clube. Desse total, cem são atletas de alto rendimento e o restante pertence à base.

Atualmente, a equipe recebe investimentos de três empresas em projetos aprovados na Lei de Incentivo ao Esporte (LIE). Apesar de os recursos garantirem a sobrevivência da instituição, há regras que limitam a utilização, principalmente para o alto rendimento. Um deles é o teto salarial de R$ 2,4 mil. Com isso, o foco será o treinamento da base. O destino dos atletas de alto rendimento está indefinido. “Vivemos um momento ruim, acredito que nunca tivemos uma situação pior que essa”, opina o coordenador.

A Orcampi possui atuação de destaque. O time perdeu por pouco o título do Troféu Brasil de Atletismo do ano passado para o Esporte Clube Pinheiros. Na edição, foram 102 atletas inscritos. Em 2018, o orçamento foi de R$ 3,7 milhões. Desse total, mais da metade foi repassado pela extinta B3.

Na opinião do coordenador, a saída é atrair investimentos privados. “O esporte não pode depender do investimento público. Precisamos convencer as entidades privadas a investir nessa ferramenta de educação”, define.

Em 2012, quando ainda se chamava Clube de Atletismo BM&F Bovespa (só depois virou B3), a empresa investiu R$ 20 milhões no Centro de Treinamento em São Caetano do Sul. Era nele que Fabiana Murer, do salto com vara, treinava. Agora, o local está em reforma e vai virar um centro de lutas. Os equipamentos de atletismo foram retirados e enviados para a Orcampi.

“Vamos dar atendimento a mais de 1.200 pessoas por dia, nas modalidades boxe, taekwondo, caratê, judô e jiu-jítsu, incluindo os munícipes do PEC (Programa Esportivo Comunitário). Nos próximos meses vamos iniciar obras de adequação do local, para receber os atletas. No momento, corre licitação para as obras de adaptação a serem realizadas”, diz a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude da Prefeitura Municipal de São Caetano do Sul.

 

 

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ENTREVISTA - Warlindo Carneiro, presidente da CBAt

Presidente da Confederação Brasileira de Atletismo se mostra otimista com o desempenho da modalidade nas próximas competições

Entrevista com

Warlindo Carneiro da Silva Filho

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 04h31

Warlindo Carneiro da Silva Filho, presidente da Confederação Brasileira de Atletismo, conversou com a reportagem do Estadão sobre a realidade da modalidade no País e sobre as perspectivas para este ano e o próximo, quando serão realizados os Jogos Olímpicos de Tóquio. O dirigente se mostra confiante com o sucesso dos atletas nacionais e revela novidades para a entidade, como a criação de uma nova marca.

 

Como está a situação da CBAt, que teve renúncia de dirigente e vive um momento delicado financeiramente?

Com a ajuda dos membros da assembleia e dos funcionários, treinadores e atletas, superamos bem esse emomento de 2018 e a nuvem está indo embora. Estamos superando, passamos pela crise política, conseguimos blindar os atletas e tivemos um ano super positivo. Os projetos estão sendo encaminhados e com a crise financeira resolvida vamos dar continuidade a eles. Estamos mudando a cara da entidade com trabalho e transparência. Conseguimos a certificação do Ministério do Esporte e repassamos aos órgãos competentes. Já estamos regularizados e nada nos impede de receber as verbas.

Este ano tem Mundial e outros eventos importantes. Qual a pretensão da confederação nessas disputas?

Vamos atender todos os eventos internacionais. Realizaremos os nacionais, temos um calendário já, vamos abrir o challenger da Iaaf, dia 28 de abril, e isso é muito bom para gente. Será um GP muito importante. Eu acredito que o Pan em Lima será fundamental, pois será um termômetro para a gente ver nossa força para o Mundial, em outubro, em Doha. Sou considerado muito otimista e acho que teremos grande participação no Pan e Mundial.

Como a entidade pode ajudar a melhorar o panorama da modalidade?

Os anos de 2019 e 2020 são decisivos. Temos em mente alguns projetos para termos o Centro Nacional de Desenvolvimento do Atletismo em eterna efervescência, fazendo camps com principais atletas, levando os jovens e promovendo clínicas itinerantes para outras regiões. Os treinadores, professores, consultores ficariam realmente sendo remunerados pela CBAt. Temos muitas ideias e estamos reformando o orçamento e vamos partir disso. Vamos lançar uma nova marca, que já está pronta e até fim do mês vamos apresentar.

Na questão de patrocínio, existe uma apreensão? Como a CBAt vai trabalhar com poucos recursos?

Temos contrato com a Caixa e vai até 31 de dezembro de 2020. É nossa grande parceira e graças a ela o atletismo conseguiu evoluir nos últimos anos. Vamos lançar um slogan que será "todo brasileiro pratica atletismo" e a Caixa é o perfil do povo brasileiro. Nós temos uma afinidade muito grande com nossos patrocinadores e correspondemos às exigências contratuais deles.

Como a CBAt vê a crise em diversas equipes, que acabaram ou estão diminuindo o número de atletas?

Aquilo que atinge o atleta, vai atingir diretamente a CBAt. O Cruzeiro, que tem anunciado que iria encerrar as atividades, já deu uma esperança diferente. Na última entrevista que vi, já mudou um pouco o tom. É uma forma de dizer que teria de cortar alguns atletas.

O que a CBAt espera sobre a participação do País em 2020?

Os Jogos de Tóquio já são a nossa realidade e o Mundial de atletismo neste ano vai nos mostrar o caminho. Nossa meta é ir tão bem nos Jogos Olímpicos. Acho que o desempenho de 2018 nos deu esperança de sairmos muito bem.

 

 

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Em dificuldade, atletas perdem patrocinadores e parte dos salários

O velocista Anderson Henriques perdeu dois patrocinadores em 2016 e 22% do salário em 2017

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2019 | 04h30

Em nove anos como profissional, o velocista Anderson Henriques passou por muitas crises. No final de 2016, perdeu o patrocínio pessoal de duas marcas esportivas. No ano seguinte, seu salário como atleta foi reduzido em 22%. A diminuição no holerite atrapalhou obviamente a vida pessoal. Ele teve de reduzir a ajuda que dava em casa. Filho único, sua mãe é cuidadora de idosos e o pai trabalha como montador de móveis no Rio Grande do Sul. 

Para suportar a crise atual, que novamente transforma sua vida em uma prova de 400m com barreiras, ele se segura no salário como atleta da Sociedade de Ginástica de Porto Alegre (Sogipa) e também na remuneração como 3.º sargento técnico temporário – ele integra o Exército desde 2014. 

A crise financeira acaba esbarrando no desempenho profissional. No ano passado, o técnico Leonardo Ribas, com quem trabalhava havia nove anos, acabou demitido. Isso não é pouca coisa. A projeção para os dois próximos ciclos olímpicos foi comprometida. 

Todas essas intempéries deixaram o atleta de 26 anos desesperançoso. “O esporte brasileiro será como sempre foi. Resultados isolados, de atletas que são muito dedicados e continuam buscando seus objetivos. Não vejo muitas perspectivas de melhora, tendo em vista que não somos um país de cultura esportiva”, critica o atleta. 

Finalista dos Jogos Olímpicos Rio-2016 no revezamento 4x400m, o velocista Pedro Burmann também sofre os efeitos da crise. Hoje, ele não tem patrocinadores e também atua como atleta da Sogipa. Ele conta que os problemas da modalidade afetam seu desempenho de forma indireta. "Em alguns momentos, temos atraso na chegada de materiais de treinamentos, como tênis e roupas esportivas, por causa dos fornecedores. Com isso, temos de usar outros materiais, que comprometem o desempenho", diz Burmann. 

Natural do Mato Grosso, Burmann foi finalista do Mundial de 2013 e tem como melhor marca nos 400m o tempo de 45s52. Ele também era atleta militar, mas deixou o Exército. 

Anderson aprendeu a conviver com as mudanças de humor do mercado brasileiro de patrocínio esportivo. E virou um poupador. “Sou consciente da insegurança que é ser um atleta de alto rendimento. Uma temporada você pode ganhar R$ 20 mil e na outra nada. Mantenho um padrão de vida sem muitos gastos e com investimento”, conta. 

Ele é o dono da segunda melhor marca da história do atletismo brasileiro nos 400m rasos com 44s95 e medalha de ouro nos Jogos Mundiais Universitários, a Universíade, em 2014. Finalista dos 400m e do revezamento 4 x 400m no Mundial de 2013, quando tinha apenas 21 anos, Anderson ficou fora dos Jogos do Rio por causa de seguidas lesões em 2015 e 2016. A mais séria foi uma fascite plantar.  

 O velocista aponta o PAAR (Programa de Atletas de Alto Rendimento) do Ministério da Defesa como um porto seguro. “O programa proporciona estrutura, benefícios, salário, divulgação das Forças Armadas e representação em competições internacionais”, diz. “É uma das melhores formas de apoio e incentivo aos atletas de alto rendimento no Brasil”, elogia. 

Apesar das dificuldades, ele se mantém otimista com as principais competições do ano, como Mundial de Atletismo, o Mundial das Forças Armadas e o Pan-Americano de Lima. “Meu objetivo é estar classificado para todas, tendo o melhor desempenho possível e melhorando minha marca pessoal”, diz. 

O técnico de atletismo da Sogipa, José Haroldo Loureiro Gomes, o Arataca, diz que ele está em ascensão. “Todo atleta que sofre uma lesão grave passa por uma reinvenção. Ele pode repetir suas melhores marcas e se aproximar de uma das vagas nos 400m para os Jogos de Tóquio”. 

 

 

 

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