Oawell Kopczynski/AP
Oawell Kopczynski/AP

Em livro, jornalista acusa Rio de ter comprado Jogos Olímpicos de 2016

Britânico Andrew Jennings levanta suspeita de que cidade pagou para receber votos de membros do COI

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

16 de abril de 2014 | 11h43

GENEBRA - Um novo livro do jornalista britânico Andrew Jennings levanta suspeitas de que o Rio de Janeiro teria comprado votos no COI para ser sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A sugestão de que houve uma propina faz parte do livro "Omerta", que o britânico acaba de lançar nesta semana, contando detalhes dos bastidores da cartolagem internacional. A base da acusação é a constatação de que um dia antes da votação em 2009 para saber que cidade ficaria com a sede dos Jogos, o polêmico Jean Marie Weber foi visto na festa de gala do COI, em Copenhague.

Weber havia sido apontado pela Justiça suíça por ser a pessoa que fazia feito pagamentos de propina a cartolas de todo o mundo e que fechava acordos secretos em sintonia com João Havelange, nos anos em que o brasileiro era presidente da Fifa. Weber também foi o homem que o então chefe da Adidas nos anos 70, Horst Dassler, estabeleceu para intermediar os negócios e até ajudar a eleger Havelange em 1974 como presidente da entidade máxima do futebol.

Em 2009, no evento do COI, tanto Weber quanto Havelange estavam uma vez mais no mesmo local. "João convenceria um número suficiente de membros do COI e Jean Marie Weber distribuiria o dinheiro", indica o autor. Jennings, porém, não traz provas de que o dinheiro teria sido pago nem quem teria recebido. "Havelange sabia o preço de todos os membros do COI", aponta o livro, citando o fato de que o dirigente esteve envolvido no esporte por 46 anos e que havia "atuado por décadas" ao lado de Weber.

Ainda dee acordo com o livro e com as apurações do jornalista, Weber, mesmo apontado pela Justiça suíça como tendo feito parte do esquema de corrupção dentro da Fifa, ganhou uma credencial do COI com direito a permanecer dentro do hotel Marriott, onde estavam os membros do Comitê que votariam para escolher a sede de 2016, o Rio de Janeiro. Já os jornalistas ficaram do lado de fora do hotel.

"Ele (Weber) conhecia a todos, especialmente os membros mais antigos que faziam parte da entidade. E isso era uma entrada a propinas para as cidades candidatas", escreveu. "Isso nunca acabou. A única mudança é que os negócios eram feitos de forma mais discreta."

OURO

O livro não se resume aos problemas no COI e traz diversos detalhes ainda sobre a gestão de Havelange no comando da Fifa. O autor, por exemplo, conta como o brasileiro desembarcava no Brasil durante o período em que foi presidente da Fifa com uma mala repleta de barras de ouro e usava o fato de ter um passaporte diplomático para não ser revistado. As acusações são pesadas contra Havelange.

Segundo o jornalista, o brasileiro fazia a viagem com as barras de ouro em média cinco vezes por ano. Numa mala de alumínio eram colocados sempre um valor de cerca de US$ 30 mil (R$ 90 mil) em ouro. Jennings cita um ex-funcionário da Fifa como fonte de sua informação e aponta que, na volta, Havelange a utilizava para trazer café em pó e distribuir aos funcionários da entidade em Zurique.

CASTOR DE ANDRADE

No livro, Jennings ainda traz uma carta que Havelange teria dado ao bicheiro Castor de Andrade, do Rio, como uma espécie de apresentação para quem o ousasse atacar. Escrita em 2 de outubro de 1987, a carta insiste nos benefícios que Castor de Andrade trazia à sociedade e elogiava sua "lealdade". "Castor de Andrade é respeitado e admirado por seus amigos, por sua educação e seus feitos", diz.

"Eu autorizo Castor de Andrade a usar essa declaração em sua conveniência", diz a carta. "Sou o presidente da Fifa e Castor é uma personalidade reconhecida do esporte no Rio. Aqueles que o atacam talvez ignoram esse lado positivo de sua personalidade."

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