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Antero Greco
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Em nome de fé e amor

Abomino justiceiros, tenho horror àqueles que usam redes sociais ou meios de comunicação para pregarem sentenças sumárias para qualquer delito. Gente assim é oportunista ou ignorante; ou ambas as coisas. Confio nas leis e sobretudo na lisura e nos bons propósitos dos responsáveis por aplicá-las. Acredito na Justiça.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2014 | 02h04

Por isso, me espantei ao saber da liberação de três rapazes detidos por invadir o Centro de Treinamentos do Corinthians um mês e meio atrás. Foi com sobressalto que li trecho do arrazoado do juiz ao qual coube o caso. Dentre outras observações, escreveu que tudo não passou de um ato de revolta. "Fiéis que são - o próprio clube se orgulha disso - eles pediram que os jogadores honrassem o salário que ganham..." Dessa forma, ficou referendado o gesto da horda que espalhou pânico naquele fatídico sábado de começo de fevereiro.

Não duvido da boa fé, da índole sensível do magistrado que emitiu a sentença; seria leviano pensar de outra maneira. Talvez tenha considerado ônus desnecessário para o Estado manter trancafiados homens que cometeram um pecadilho, um ato de desatino por causa do amor à agremiação. Não implicam, enfim, risco para a sociedade, a ponto de serem privados da liberdade. Ilações passíveis de serem feitas.

Porém, fiquei a matutar: o juiz ponderou o valor simbólico da decisão? Sopesou o impacto que pode causar na sociedade e, especificamente, nas trupes organizadas? Tanto uma quanto outras há muito farejam no ar os ventos da impunidade, com reflexos distintos. Eles representam impotência para os pacíficos e sopram como prepotência para os que se valem da linguagem da violência, da coerção, da ameaça para impor a vontade a todo custo.

Ao receberem outro afago, os destemperados podem ver reforçada a noção estrábica de que tudo lhes é permitido, desde que seja em nome da paixão, da fé que emana do manto alvinegro e outras crendices do gênero. Que cobranças cabem aos que se entregam cegamente a suas convicções? Invadiram, depredaram, ameaçaram, não negaram. Mas, doutor, foi tudo por amor!

O leigo aqui, a favor de diálogo e compreensão, pergunta: não poderia o magistrado observar em qual contexto se encaixou a invasão? Certamente, se trata de alguém atento ao que ocorre no nosso cotidiano, atualizado com o que vai no esporte. E são tantas, e cabeludas, as notícias que têm as uniformizadas como protagonistas, que se torna impossível passar indiferentes. Mortes são frequentes, brigas, emboscadas, vendettas agendadas por internet. Até flagrantes de posse de grande quantidade de drogas houve recentemente.

Ok, diante de fatos escabrosos, vociferar contra atletas, mesmo que com invasão do local de trabalho deles, seria delito de pequena monta. Mandá-los para penitenciárias revelar-se-ia castigo desproporcional à infração cometida. Jamais vou alinhar-me aos que pedem pelourinho, cadeira elétrica, prisão perpétua a torto e a direito, como se assim resolvêssemos problemas como a criminalidade.

Mas não haveria alternativa para a simples liberação? Quem sabe, multa salgada, obrigatoriedade de prestação de serviços para a comunidade, afastamento dos estádios? Sem que fossem tomados como bodes expiatórios de tantos outros episódios de extremismo, é fora de lógica, uma ingenuidade, imaginar pena pedagógica? Não ganhariam todos?

Ou tudo é possível, mesmo descalabros, sob a alegação de amor e fé?

Chumbo trocado. Personagens conhecidos se desentenderam por páginas de jornais, sites e redes. Eurico Miranda, ressuscitado em entrevista ao Estado, disse que Andrés Sanchez não está no futebol "de graça". O ex-presidente corintiano contra-atacou com o argumento de que faz tudo por dedicação ao clube.

Ronaldo se aborreceu com críticas de Romário e outra vez alegou que apenas topou ajudar na organização da Copa. Romário não arreda.

Ora, eles que se desentendam...

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