Werther Santana / Estadão
Werther Santana / Estadão

Em Poá, ONG fundada por skatista leva esporte e cultura a 150 crianças

Sandro 'Testinha' e a esposa, a pedagoga Leila Vieira, tentam melhorar região onde moram com o projeto

Luis Filipe Santos, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2019 | 04h30

Calmon Viana, Poá, extremo leste da região metropolitana de São Paulo. No final de uma rua estreita, na qual circulam galinhas e carroças puxadas por cavalos, à beira do trecho leste do Rodoanel, fica uma quadra – tempos atrás, o local era ocupado por traficantes. Hoje, por lá funciona a ONG Social Skate, projeto que leva esporte e cultura a 150 crianças e adolescentes da região.

A ONG foi fundada por Sandro Soares, o ‘Testinha’, ex-atleta profissional de skate, e Leila Vieira, sua esposa, que é pedagoga e também pratica o esporte. Entre 2000 e 2010, os dois conduziram um projeto dentro da Fundação Casa, até que o governo estadual decidiu encerrá-lo. “Então, a Leila ficou me falando para fazermos algo aqui mesmo onde moramos, que não dependesse de governo. Eu coloquei uma rampa na rua, na frente de casa, e começamos a ensinar”, conta Sandro sobre o começo do projeto.

Porém, duas obras mudaram a situação: a rua, que antes era asfaltada, teve seu piso trocado para calçamento pela prefeitura de Poá, enquanto o Rodoanel foi concluído. Assim, na impossibilidade de colocar a rampa na rua, Sandro e Leila pensaram em utilizar a quadra, que estava sendo usada por traficantes para vender drogas. Aos poucos, conseguiram deixar o espaço exclusivo para a prática do skate.

Com recursos esparsos, mas contando com doações através da lei de incentivo ao esporte e de eventuais ajudas de skatistas famosos e marcas, conhecidos de Sandro da época que ele foi profissional, a ONG têm conseguido se manter há oito anos, oferecendo os skates, materiais de proteção e um lanche diário para as 150 crianças, que vão ao local no contraturno escolar – quem estuda de manhã vai à tarde e vice-versa. 

Não somente isso, como também conseguiu expandir as atividades: além do skate, hoje também são realizadas aulas de teatro, circo, balé, futebol, basquete e outros esportes. “Procuramos manter as crianças interessadas com mais coisas, para que elas venham todos os dias”, justifica Leila. A ONG também faz um acompanhamento pedagógico das crianças.

“Os alunos das escolas aqui da região trazem a declaração escolar e o boletim de cada semestre para nós. Não para tirá-los se houver uma nota vermelha, mas para oferecer um reforço escolar, tentar entender onde está a dificuldade para que ele possa se desenvolver. Se falta muito nas aulas, vemos se tem algum problema com a família, se tem dificuldade no aprendizado, buscamos parcerias com psicólogos ou psicopedagogos, e também fazemos isso se a criança sofre bullying”, afirma Leila sobre o acompanhamento.

Outro aspecto importante que é trabalhado é a cooperação entre as próprias crianças – as que já são um pouco maiores, de dez anos para cima, ajudam as menores a se manterem em cima do skate e pegar confiança, antes de ensinarem as manobras. Sandro e Leila também gostam de chamar os alunos antigos para serem instrutores.

O que pode melhorar

Apesar de já terem alcançado um bom número de crianças, a Social Skate considera que ainda pode melhorar. “A quadra não tem uma infraestrutura adequada. O ideal, quando se faz esporte, é que você tenha ao menos um ponto de hidratação, e não tem água disponível aqui, trazemos de fora. O banheiro está em situação precária, às vezes não tem água nem energia. Dia de chuva a quadra molha tudo aqui, não podemos seguir com as atividades. A gente gostaria que melhorasse, mas depender do poder público é complicado”, relata Mauro Sartorelli, instrutor voluntário da ONG, apesar de não ser ex-aluno, e que também trabalha como professor de matemática.

Revelações para o esporte? Sandro pensa nisso, mas não é a primeira preocupação. “Eu estaria mentindo se dissesse que meu primeiro objetivo é revelar atletas para o skate. Primeiro, queremos nos manter, para continuar ajudando a região, dando uma alternativa de esporte e cultura para essas crianças. Mas, lógico, se aparecer alguém que vemos ter talento, vamos tentar encaminhar. Notamos isso em um menino e uma menina até agora”, conta Sandro.

“A gente pensa que nem criança, criança tem sonho grande. Pensamos sim em ampliar, de oferecer mais atividades que atendam melhor aos alunos, um espaço melhor. Mas, como as coisas estão hoje, a gente pode transformar uma criança, um adolescente, um adulto, na maneira que a gente trata ele, com carinho, com respeito, e oferecendo caminhos para ele se desenvolver”, finaliza Leila.

Sandro concorda com a esposa. E conta histórias de alunos da Social Skate que conseguiram se formar na faculdade, trabalham em bons empregos e formaram famílias - e, além disso, se tornaram boas pessoas, concluindo o ideal da ONG. Alguns até levam os filhos para o projeto, dando início a uma nova geração de skatistas.

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