Em ponto de fervura

Amigos, sempre que posso enalteço a rivalidade futebolística. O que seria do futebol sem aquele sentimento pérfido do corintiano quando derrota um palmeirense, como aconteceu, aliás, neste domingo? O que seria do Grêmio sem o Internacional? Ou do Cruzeiro sem o Atlético? Do Milan sem a Internazionale, ou do Real Madrid sem a sua asa negra, o Atlético de Madrid? Pense no futebol e você pensará no prazer sádico de derrotar seu rival mais próximo, de preferência aquele da mesma cidade. Ganhar de um time distante nunca tem o mesmo gosto do que vencer o seu vizinho. É o que dá sabor ao jogo, é seu condimento.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 02h01

No entanto, rivalidade é como pimenta. Na dose certa, realça o sabor do prato. Em exagero, põe tudo a perder. E pode ter consequências drásticas sobre o organismo. É o que tem acontecido, faz alguns anos, e não apenas no Brasil. Tem algum sentido todo o tumulto ocorrido em torno do clássico entre Palmeiras e Corinthians quando o medo de briga entre torcidas fez o Ministério Público aconselhar que apenas os palmeirenses acompanhassem o jogo em seu novo estádio? O agora ex-presidente do Corinthians, Mario Gobbi, chiou e cerca de mil e quinhentos corintianos puderam acompanhar a partida no Allianz Parque. Houve tumulto de torcedores do Palmeiras com a Polícia Militar, corintianos brigaram entre si na arquibancada e, no sábado, já havia acontecido briga entre são-paulinos e corintianos no metrô, sem que seus times jogassem entre si.

O que está havendo? Parece uma guerra de todos contra todos. Dessa forma, já existe a possibilidade que o clássico de amanhã, entre Santos e São Paulo, seja jogado na Vila Belmiro com torcida única. A ideia é evitar de toda forma o contato entre torcedores rivais. Claro, prevenir o pior é dever de todos. Mas será esse o caminho?

Se a solução para a briga de torcidas for fechar o estádio aos adversários e jogar com torcida única, então se deve reconhecer que o futebol brasileiro foi de vez para o buraco e precisa fechar para balanço também neste quesito. Seria mais ou menos como as autoridades policiais recomendarem à população que não saia à rua para não se expor à violência urbana. Seria admitir que tudo está fora de controle e as pessoas precisam se virar por conta própria, trancando-se em casa depois do pôr do sol. Quer dizer, o Estado faliu e mostra-se incapaz de garantir segurança aos cidadãos. Não quero fazer aqui sociologia, mas todo mundo sabe que o cidadão abdica de parte de sua liberdade e parte de sua renda para em troca obter segurança de andar pelas ruas. Quando o Estado não lhe dá isso em troca, perde sua função.

Seria fácil dizer que essa turbulência entre torcidas nada mais faz senão expressar a cultura da violência em que vivemos. Acho que é isso mesmo. É possível que os sentimentos tribais nunca tenham estado tão em alta como agora, nessa época de indefinições e identificações problemáticas. Tudo que é sólido desmancha no ar, e as pessoas precisam apegar-se a alguma coisa. No caso, ao time de coração. E, apegar-se dessa forma radical, significa excluir todo aquele que não faz parte da sua tribo. Desse modo, não se tem adversários, mas inimigos. Esse é o caldo de cultura contemporâneo, e mais ou menos disseminado mundo afora. Não é inevitável em seus efeitos. Se os ingleses acabaram com o problema dos hooligans, poderíamos resolver por aqui os malfeitos da violência associada ao futebol.

Mas entra aqui um ingrediente nacional, brasileiro como a jabuticaba, que é o hábito de empurrar problemas com a barriga e fazer de conta que os resolve. A falta de coragem em mexer na legislação, a conivência entre clubes e torcedores, a acomodação, a conciliação e outras coisinhas mais, fazem com que nada se mexa. Enquanto isso, buscam-se paliativos como a proposta de torcida única em clássicos. Uma forma a mais de esconder a causa e fazer de conta que se ataca o problema.

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