Marco Antonio Teixeira/ MPIX/ CPB
Marco Antonio Teixeira/ MPIX/ CPB

Em seu 6º Mundial Paralímpico, Edênia Garcia dá conselhos a estreante no México

Consagrada atleta paralímpica afirma que o passo fundamental para trilhar uma carreira de sucesso é a disciplina

Rafael Franco, enviado especial à Cidade do México, Estadao Conteudo

03 de dezembro de 2017 | 10h42

O segundo dia de disputas do Mundial Paralímpico de Natação, na Cidade do México, terá a participação de dois atletas brasileiros que viverão experiências distintas. Edênia Garcia, de 30 anos de idade, vai disputar pela sexta vez a grande competição, na qual estreou com apenas 15 anos, em Mar del Plata, na Argentina, enquanto Gabriel Souza, de 22, estreará em uma edição do evento em uma das provas programadas para a noite deste domingo.

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Em meio a este misto de larga experiência e ineditismo, a reportagem do Estado intermediou uma conversa entre os dois durante a fase final de preparação para o Mundial em solo mexicano. Cadeirante, Edênia nasceu com polineuropatia sensitiva motora, doença progressiva que prejudica os movimentos de braços e pernas, mas superou as adversidades físicas para se tornar uma consagrada atleta paralímpica, acumulando, entre muitas outras medalhas, o tricampeonato mundial nos 50m costas de sua classe de deficiência com os ouros obtidos em 2002, 2006 e 2010.

Estar nos Jogos foi uma vitória de quem, com nove anos de idade, caiu de um trem em movimento e perdeu o braço esquerdo por inteiro. Edênia ainda conquistou duas medalha de pratas paralímpicas, nos Jogos de Atenas-2004 e Londres-2012, além de um bronze nos Jogos de Pequim-2008. E ela é vista como grande exemplo para o jovem Gabriel, que esteve presente na Paralimpíada do Rio, no ano passado, quando disputou o evento mais importante de sua carreira até então.

No bate-papo entre os dois representantes da delegação brasileira, que conta com 17 nadadores em solo mexicano, Edênia disse a Gabriel que um passo fundamental para que possa começar a trilhar uma carreira de sucesso é a disciplina. "Um campeonato de grande porte requer uma rotina, e a rotina faz com que você tenha mais segurança na competição. A rotina é saber em que horário que eu tenho de aquecer, de colocar o traje da competição, onde está minha mochila, que suplemento tomar, e assim ter uma rotina bem segura e tomar isso como um hábito daqui pra frente", destacou a cearense nascida na cidade de Crato, aconselhando o jovem a respeitar as exigências que um nadador precisa cumprir quando for brigar por medalhas.

Após receber o conselho, Gabriel perguntou para Edênia: "E como você consegue lidar com a pressão em uma competição deste porte e importante como é o Mundial no México?". E a nadadora respondeu: "Pressão sempre vai ter, e eu acho que agora isso vai ser o de menos para você, pois geralmente não tem tanta pressão para quem está indo pela primeira vez a um Mundial. Mas é importante você saber que a pressão vai existir em todo o tempo e que, se você tiver bons resultados e alcançar o sucesso, a pressão vai ficar pior, vai aumentar".

Em seguida, porém, a nadadora tentou não assustar o jovem ao enfatizar que a exigência psicológica que as competições impõem pode ser usada de forma inteligente pelo atleta. "Você tem de entender que a pressão pode ser encarada de forma positiva. Tem de encarar como uma responsabilidade que você pode assumir, se empoderar dessa pressão e saber que tem de fazer o melhor, mas isso não significa que você tem a obrigação de sair com a medalha em todos os campeonatos. O melhor é fazer uma boa execução de prova, ter uma boa postura durante o campeonato, e a pressão serve para te colocar uma situação de responsabilidade em todos os campeonatos e treinos também", disse Edênia a Gabriel.

O nadador de 22 anos, nascido no Guarujá (SP), começou a praticar o surfe adaptado enquanto era ainda criança e, quando tinha 16 anos, um professor desta modalidade o levou para a natação, na qual se encantou com a atmosfera vivida em uma etapa regional do Circuito Loterias Caixa e isso o motivou a se tornar um atleta paralímpico. Nesta condição, faturou em 2013 as medalhas de prata nos 50m livre e nos 100m peito, além de um bronze nos 100m livre em provas de sua classe de deficiência no Parapan de Jovens realizado na Argentina, em 2013.

Embora ainda não tenha alcançado um pódio de relevância internacional entre os adultos, o atleta paulista foi bastante elogiado por Edênia nesta conversa com o seu compatriota, para quem ela destacou: "Gabriel, você tem uma técnica muito boa. Poucos atletas que tem uma amputação de braço tem uma técnica e uma frequência de braçada boa como você. Sem colocar pressão em você, Gabriel, mas acredito que você vai voltar do México com um bom resultado e terá um futuro muito bom pela frente, pela sua qualidade técnica e por ser um atleta muito novo ainda". Logo após ouvir essa previsão, ele retribuiu: "O elogio que você me fez agora é algo maravilhoso de ouvir de uma atleta como você, que já ganhou tudo que tinha para ganhar e ainda vem mantendo o seu nível alto. E vou para o México para nadar bem, me divertir e, se Deus quiser, conquistar uma medalhinha".

Neste domingo do Mundial do México, Edênia estará presente na prova dos 50 metros costas categoria S3, enquanto Gabriel competirá nos 100m livre na classe S8. As duas disputas valerão medalhas em finais diretas, cujo balizamento dos atletas foi determinado sem a necessidade da realização de uma eliminatória. Já na segunda-feira, o nadador cairá na piscina pela manhã para tentar classificação à final dos 50m livre de sua classe, marcada para acontecer horas mais tarde, quando Edênia também voltará à luta por uma medalha na decisão dos 100m livre S3. Os dois ainda estão listados para disputar outras duas provas na quarta-feira, quando fecharão suas respectivas participações na competição.

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