Emergência!

Em 15 dias, 722 atletas passaram pelos centros médicos da Vila - alguns, por puro descuido

Mônica Manir, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Atleta de ponta sabe que tem alguns dias de veraneio e outros tantos de estaleiro. Se não de estaleiro, pelo menos de enfermaria para um esparadrapo de emergência. Neste Pan, de 3 a 18 de julho, 722 deles passaram pela Policlínica montada na Vila ou pelos postos médicos - sendo que 14 foram removidos para o Barra D''''Or ou para o Quinta D''''Or, hospitais credenciados pela Golden Cross, responsável pelos serviços médicos do evento.Número alto para quem está de fora, mas normal para quem acompanha estatísticas de competições desse porte. O anestesista Sidney Goldenzon, coordenador do atendimento, lembra que esse total engloba incômodos vários, de dor de ouvido a torção no tornozelo. Ao avaliar as modalidades mais queixosas, também não se surpreende: por enquanto, elas batem com a escala de risco médico esportivo que ele desenvolveu tendo o Pan-Rio como base.A escala avalia 50 modalidades sob 12 aspectos: competitividade, distância do atleta em relação ao solo, contato físico (entre os atletas ou entre o atleta e o cavalo), velocidade, agressividade, impacto (entre atletas, equipamento ou solo), exposição (ausência de proteção no corpo), amadorismo, idade, despreparo físico, dureza do piso e temperatura ambiente. Cada um desses fatores implicou nota de 0 a 3 por esporte. Exemplo: no quesito ''''agressividade'''', o judô ganhou 3, a máxima. A soma dos pontos determinou a classificação dos esportes como modalidade de potencial de lesão pequeno (entre 7 e 10 pontos), médio (entre 11 e 15) e grande (a partir de 16).''''Com os resultados em mãos podemos avaliar, por exemplo, a real necessidade de manter, em outros eventos, postos de atendimento equipados com desfibriladores, oxímetros, respiradores e eletrocardiógrafos em todas as arenas'''', afirma Goldenzon. Os extremos da lista ainda não debutaram oficialmente no Pan. Apesar da dureza do piso e da reclamação de alguns atletas quanto a inflamações no nervo ciático, o boliche causaria menos danos ao atleta. Por abarcar cinco esportes diferentes (tiro, esgrima, natação, hipismo e corrida), o pentatlo causaria mais.Um dos esportes que mais freqüentaram o posto médico da Vila, nestes 15 dias, foi o hóquei sobre grama. O piso sintético escorregadio e, especialmente, o amadorismo de muitos atletas durante a competição contaram pontos pró-trauma. Handebol, jogo de alta competitividade e agressividade, levou algumas jogadoras do Brasil ao posto depois do jogo contra as cubanas. ''''Tomei um soco no olho e dois na boca'''', disse a pivô Juceli.O impacto com o chão e a grande exposição durante as apresentações talvez ajudem a explicar baixas na ginástica artística. Daiane dos Santos coleciona contusões, duas cirurgias no joelho e uma torção no tornozelo, que apareceu durante treino no dia 6 de julho. Tentou se recuperar, em vão. ''''A carga enorme de treinamento, que não permite respiro nem descanso muscular, aumenta a propensão à lesão'''', lembra Goldenzon.Jogado em solo esburacado em muito canto do País, o futebol costuma mandar para o banco uma trempa de craques. O zagueiro Átila, do Corinthians, foi cortado da seleção após o rompimento do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo enquanto treinava em um clube na Barra da Tijuca. Seu pé ficou preso na grama ruim enquanto girava o corpo.Impressionou a careta de dor da venezuelana Fabíola Godoy depois de ter o nariz quebrado na partida de pólo aquático de anteontem contra o Canadá. Medalha de ouro em fadiga e prata em grau de dificuldade, o pólo aquático é famoso por cortes no rosto, tendinites no ombro e no músculo adutor, além de hematomas nos seios das jogadoras, que ficam se digladiando por baixo d''''água.Sidney Goldenzon sabe que sua escala não está livre de exceções. Mesmo não classificada como esporte de alto risco, a esgrima ficou comentadíssima depois que a espada de Athos Schwantes perfurou o irmão dele, Ivan, em treino. ''''O problema foi a negligência com o equipamento'''', afirmou Ronaldo Schwantes, pai dos atletas. Ivan não usava o colete de proteção embaixo do braço direito. O pai lembra que perigoso, sim, foi o vôo de paraglider que Ivan fez há alguns anos, que lhe custou uma queda de 30 metros de altura e alguns pinos no braço.AZARÕESO fator sorte, ou a falta dele, não consta do estudo, mas foi determinante em pelo menos três casos até agora. A halterofilista Aline Campeiro foi traída pela emoção na disputa da categoria até 48 quilos. Depois de içar 70 quilos, saiu dando pulos de alegria e rompeu os ligamentos do joelho esquerdo. Não pôde disputar medalha de prata.Já o cavaleiro Jorge Ferreira da Rocha, atleta mais velho da delegação, com 61 anos, foi traído pelo estômago. Na véspera da prova de adestramento por equipe, foi eliminado por uma grave gastroenterite e a volta antecipada para São Paulo. ''''Não esperava por essa'''', disse o cavaleiro que, às vésperas do Pan de Winnipeg, em 1999, teve quatro costelas quebradas e duas paradas cardíacas depois que seu cavalo o arremessou sobre a platéia durante uma prova.Outra vítima do azar foi a peruana Suelen Baylón. Ela complicou uma lesão no tornozelo em plena abertura dos Jogos, ao pisar em falso num degrau do Maracanã. No Barra D''''Or recebeu uma tornozeleira, que a manteve no campeonato. Provavelmente no limite, como bem sabe todo atleta de ponta.

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