Emerson

O homem se chama Emerson Augusto de Carvalho. É auxiliar de arbitragem: corre pelas laterais do campo com a bandeira na mão. Erra, mas poderia não errar mais. Era só ser demitido e em seu lugar no campo ficar alguém da federação seguindo o jogo por um monitor. Todos os lances duvidosos seriam imediatamente esclarecidos. Poderíamos ver claramente que o nariz do atacante estava à frente do topete do defensor e, portanto, o lance seria irregular. É só trazer a máquina.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h03

Em outros esportes - penso na NBA, entidade do basquete americano -, é comum ver os árbitros reunidos, consultando a gravação da jogada antes de decidir. No futebol, não. Nós preferimos o Emerson. Por quê?

Alguns poucos porque acreditam na beleza do erro. O erro, como o destino, não tem lógica e é frequentemente injusto. Mas faz parte da vida e muitas vezes decide sobre ela. Portanto, conservando a possibilidade do erro, o futebol se aproxima da vida da qual deriva. Mas a maioria, menos poética, prefere o Emerson por outros motivos. Esses precisam de um culpado, precisam de alguém sobre o qual descarregar sua ira santa, execrando-o publicamente e, é evidente, diminuindo, ou mesmo eliminando, sua própria parcela de culpa nas derrotas.

No famoso jogo Santos x Corinthians, o Emerson foi direta e indiretamente acusado por todos, principalmente pelo Tite, de ter sido o causador da derrota do Corinthians. Ocorre que quando ele errou a partida estava longe de terminar. Tite foi de dedo em riste em direção do auxiliar ao término do jogo, numa atitude pouco comum num homem tão educado. Duvido muito que tenha ido de dedo em riste em direção de sua defesa, que permitiu ao zagueiro do Santos, uma cabeçada, essa sim que decidiu a partida, tão livre que o jogador fez até pose; tão sozinho estava que fez um gol elegante ,plástico, que só se permite em treinos.

Esse foi o gol da vitória, o lance que definiu a partida. Mas sobrou para o Emerson, perseguido pelas maquininhas que a televisão aciona imediatamente para estabelecer o que chamam de justiça do lance. Ele não foi o culpado da derrota do Corinthians e Tite, um homem inegavelmente inteligente, sabe perfeitamente disso. Tite estava apenas exercitando seu novo status de técnico de elite. Agora que finalmente entrou para o pequeno clube dos poderosos, parece que não vai mais aceitar derrotas. Já começo a sentir saudades do antigo Tite, equilibrado, sensato, cordial. Mas não o estou atacando, as coisas são assim, e ele age conforme as coisas.

Para o Emerson sobrou uma pequena alegria. Escalado com antecedência para o jogo decisivo entre Coritiba e Grêmio, a CBF não pôde se livrar dele, apesar da confusão de domingo. E ele mostrou que não é tão ruim assim e que tem coragem. No ultimo minuto, validou corretamente um gol do Grêmio. Saiu de campo digno, altivo, cabeça erguida. E escoltado por vários guardas.

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