Empate doloroso

Algum tempo atrás, no meio de uma entrevista, Muricy Ramalho me disse que há resultados inesquecíveis - por trazerem só lembranças traumatizantes. Em geral, estão associados a tropeços e a pontos esparramados pelo meio do caminho, que ao final de uma competição fazem falta para a conquista do título. A observação do treinador me veio em mente ao término do jogo do Fluminense com o Goiás. O empate de 1 a 1 pode representar, daqui a três rodadas, o momento em que o tricolor viu escapulir a chance de faturar uma taça que persegue desde 1984. Trata-se de pecado mortal derrapar em casa, na arrancada derradeira, contra rival com a corda no pescoço. Em geral, paga-se ágio altíssimo por tamanha gafe. O Corinthians, comovido, agradece a ajuda alviverde e agora depende apenas de si para concluir feliz o ano do centenário.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

O Flu levou a bordoada com contornos letais pelo primeiro tempo insosso, em que se mostrou incapaz de incomodar o Goiás. Nem parecia o time que até anteontem comandava a classificação e tinha o controle aparente da competição. Tenso, desconjuntado, monótono na repetição de armações inúteis, e com erros de passe acima do comum, dava nos nervos da torcida que lotou o Engenhão - fato raro mais de 36 mil pessoas no estádio erguido para o Pan. Nem tão raras, no entanto, atuações desbotadas.

O Goiás teve a rigor uma ocasião apenas, e bagunçou o coreto carioca, na descida rápida de Jones, no centro perfeito e no cabeceio certeiro de Rafael Moura, aos 19 minutos. Esse momento talvez fique gravado na memória tricolor, porque cavou buraco no caminho de quem pretende ser campeão brasileiro pela segunda vez. O Flu mostrou insegurança que não combina com os líderes e não se safou da marcação até o fim do primeiro tempo. A torcida notou logo que o domingo não terminaria em festa e forçou a entrada de Diguinho, brioso e lutador.

Muricy não se fez de surdo para o apelo das arquibancadas e colocou Diguinho no lugar de Tartá. Aproveitou a oportunidade e mandou Washington a campo em substituição a Deco, hoje nem sombra do meia que ganhou fama em Portugal e na Inglaterra.

O Fluminense reagiu bem às mudanças e ao chacoalhão, agiu como dono da casa, empurrou o Goiás para sua metade de campo e pressionou. Na verdade, foi mais entusiasmo do que qualidade. Isso ajuda, pois anima e dá esperança aos fãs, mas nem sempre resolve. As jogadas mais elaboradas, só para não variar, saíam dos pés de Conca. O argentino é a alma do Flu e único a buscar espaços com inteligência, mesmo com vigilância estreita o tempo todo.

Mariano e Carlinhos erravam passes, Washington e Fred compensavam falhas com movimentação constante. Rodriguinho entrou para evitar o vexame maior: numa dividida com Ernando, caiu e Carlos Eugênio Simon marcou pênalti. Pronto, se o Flu estava ressabiado com a benevolência de Sandro Meira Ricci, que enxergou penalidade em Ronaldo no sábado à noite, teve sua compensação. Não pode queixar-se de arbitragem favorável aos paulistas.

Tanto no lance do Pacaembu quanto no do Engenhão, os juízes foram benevolentes com os anfitriões e severos com os visitantes. Se não tivessem dado os pênaltis, não seriam condenados à geladeira por seu chefe. Motivos para lamentar, no fim de semana, quem teve foi o Cruzeiro, agora mais atrás nessa corrida maluca.

Tudo definido, então? A Fiel pode encomendar o chope? Na verdade, não fará mal nenhum se fizer uma tomada de preços e ver quanto vão custar os barris. Só não recomendo selar a compra, pois ainda existe o risco de prejuízo. O Corinthians encorpou muito, desde que a poeira baixou com a chegada de Tite, e tem pela frente Vitória, Vasco e Goiás. Embalado como está, não desponta como desafio insuperável enfileirar mais três triunfos. O Flu pega só paulistas - São Paulo, Palmeiras e Guarani. Eis um enigma: como vão comportar-se sob a perspectiva de ajudarem um rival histórico? Espero que se guiem apenas pela honra e consciência.

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