Empate técnico

Quando vi o carro de Rosberg parado no grid de Cingapura, senti que a sorte, de fato, havia mudado de lado. O caso era muito mais grave do que os dois erros cometidos na chicane de Monza, que o tiraram da liderança, mas não da corrida. Em Cingapura, já a partir daquele momento era praticamente certo que ele perderia a liderança que vinha ocupando desde o GP de Mônaco, a sexta etapa do ano, em maio. Momento complicado de perder a posição que ocupou da primeira à quarta corrida, perdeu momentaneamente na quinta (Espanha) e voltou a ocupar nas últimas oito etapas. Cingapura foi a 14.ª prova de um total de 19, sendo que a última, em Abu Dabi, conta pontos em dobro. Portanto, no mínimo, Rosberg deixou pra trás uma vantagem que havia conseguido construir em cima de um rival reconhecidamente mais técnico e talentoso do que ele.

Reginaldo Leme, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2014 | 02h01

Muita coisa me surpreendeu em Rosberg este ano. Ele tem sido veloz, demonstrado notável equilíbrio emocional e pontuou 12 vezes em 14, com apenas uma fora do pódio e sendo 1.º ou 2.º em todas as outras. Hamilton pontuou 11 vezes, mas foi ao pódio em todas elas e venceu mais vezes. Apesar das sete vitórias, contra quatro de Nico, Hamilton ainda não conseguiu ser constante. Basta ver como foram conseguidas as suas sete vitórias: enquanto tentava descontar o zero na abertura do campeonato (aconteceu com o carro dele na Austrália algo muito parecido com o que aconteceu agora com o do alemão) e se viu obrigado a vencer a qualquer custo para buscar a liderança mesmo com o companheiro sempre em segundo, ele somou quatro vitórias seguidas e mudou um placar de 0 a 25 para 100 a 97. Depois pareceu dar uma das suas habituais desligadas. Ficou bastante abalado com o desentendimento entre os dois em Mônaco, quando acusou Rosberg de ter errado deliberadamente na última volta da classificação de sábado para atrapalhar a provável pole position dele. Fez três corridas sem brilho, nas quais marcou 36 pontos, enquanto o rival marcava 68 com duas vitórias e um segundo. Neste ponto do campeonato (8.ª etapa), o alemão conseguiu abrir a maior vantagem: 29 pontos.

Hamilton só voltou a vencer em casa (Silverstone), quando Rosberg zerou pela primeira vez na temporada. Aquela vantagem toda caiu para quatro pontos e, na opinião de muita gente, parecia o fim da linha para o alemão. A tendência, dali em diante, seria o inglês fazer valer seu talento, além da experiência de já ter participado de outras disputas de título. Mas não foi o que se viu. Rosberg deu o troco na Alemanha, vencendo pela primeira vez diante de sua torcida. Na corrida seguinte, Hamilton largou do box por não ter participado da classificação, os planos de Rosberg foram atrapalhados por um safety car e os dois acabaram se encontraram nas últimas voltas da prova lutando pelo terceiro lugar. Antes disso, como Rosberg teria um pit stop a mais, a equipe pediu para Hamilton deixá-lo passar, mas a ordem não foi obedecida. Inteligente, o inglês percebeu que, mesmo com a parada de box a mais, o companheiro voltaria muito veloz e em condições de chegar à frente dele. Isso aconteceu na Hungria, onde a Mercedes foi vencida pela Red Bull de Ricciardo e a Ferrari de Alonso.

A desobediência de Hamilton reacendeu a guerra. Veio a corrida de Spa e Rosberg tocou no companheiro ainda na segunda volta furando o pneu do inglês. A diferença entre os dois voltou aos 29 pontos e a equipe teve que tomar decisões para evitar uma crise mais séria. Rosberg foi considerado culpado, mas a disputa entre os dois estaria liberada, sem ordens. Coincidência ou não, daí em diante o alemão passou reto na chicane de Monza e ficou sem carro na largada de Cingapura. A vantagem virou pó e agora quem está três pontos à frente é, de novo, Hamilton. Há um empate técnico entre eles e nenhum dos dois tem bom retrospecto em quatro das cinco pistas pela frente, sem contar a da Rússia, que é nova. Nem mesmo em Interlagos, onde conquistou seu único título mundial, mas com um 5.º lugar, Hamilton acumula bons resultados. Se empate técnico é o tema atual, remetendo às pesquisas eleitorais, a comparação adequada é com um playoff de cinco etapas com a última valendo o dobro. Nós bem que merecemos uma decisão como esta!

Mais conteúdo sobre:
Reginaldo Leme Fórmula 1

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.