Enfim, futebol

Tenho visto tanta coisa errada no Esporte que pensei não fosse mais escrever sobre o prazer que uma partida de futebol proporciona. A noite de anteontem me deu motivos para gastar tutano e tinta com o joguinho de bola. Santos 4 x Flamengo 5 e Coritiba 3 x São Paulo 4 foram duelos com altas doses de adrenalina, de cabo a rabo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2011 | 00h00

Num ritmo de deixar torcedores com o coração na mão e com definição no apito final - como manda o figurino de jogos antológicos, daqueles discutidos até em reunião ministerial.

Incluí a vitória tricolor menos pelo espetáculo e mais pelo contorno dramático dos últimos minutos. O São Paulo abriu 3 a 0 no primeiro tempo e marcou mais um gol no início do segundo. Caso clássico da missão cumprida, com direito a relaxamento e despreocupada troca de passes só para gastar o tempo.

Tanto que nem se abalou com o gol de Rafinha. Ok, não seria vitória de zero, como se falava nas grandes peladas de rua. Depois, Bill fez mais um, que serviu para honrar o esforço do anfitrião. O frio no estômago veio com outro gol de Bill, aos 41! Depois, foram mais 7 minutos de respiração presa, antes do alívio para são-paulinos e tristeza paranaense.

Imagino a cara de Adilson Batista, se a equipe cedesse dois pontos daquela forma. Seria o segundo vacilo em poucos dias, a começar com os 2 a 2 com o Atlético-GO em casa. Uma constatação: depois que Rivaldo saiu, o meio-campo do São Paulo murchou. E pensar que o veterano foi esnobado por Carpegiani...

Mas jogo bom, no duro, foi na Vila Belmiro. Tão extraordinário que se estendeu pelas ruas e dominou noticiário de ontem em rádios e tevês. Gols, detalhes, lances importantes foram esmiuçados. Com justiça, porque se tratou de uma homenagem ao futebol, esse esporte que anda tão pão-duro de emoções.

Não vou posar de hipócrita e falar que pressentia reação do Flamengo, quando perdia por 3 a 0. O time de Luxemburgo jogava bem, é verdade, e o resultado soava injusto e pesado demais. Mas, com aquela desvantagem, esperava assistir a uma goleada histórica. Já antevia o profexô a ser espinafrado e os gritos de "Fora, Ronaldinho!" Era o quadro lógico.

Graças a Deus, ao talento e aos gols, o futebol é imprevisível. O Gaúcho foi tomado pelo espírito de Pelé e outros astros que desfilaram na Vila famosa e reviveu momentos gloriosos de Barcelona. O rapaz virou bicho, ainda mais que, do outro lado, Neymar, moleque petulante e talentoso, fazia das suas.

Virou embate de monstros - e quem ganhou foram os 13 mil que estiveram no estádio e os milhões que acompanharam pela televisão. Jogo lindo, e pouco me importa aqui se Rafael falhou em algum lance, se Felipe fechou o gol. Não quero saber se Ganso perdeu bola fatal no meio-campo ou se Deivid bateu de canela com o gol à disposição. Tudo foi espetáculo, até o pênalti perdido por Elano que Felipe defendeu com gaiatice e ainda ficou a fazer embaixadinhas.

Para mim valeu a mudança alucinante de placar - 3 a 0, 3 a 3, 4 a 3 para o Santos até o 5 a 4 definitivo para o Flamengo. O que se procura num jogo de futebol? Dribles, gols, empolgação, viradas no resultado. Teve tudo isso, com exagero. Vi santista perplexo pelo resultado, porém satisfeito com o jogo.

Mesmo assim, teve gente a perguntar para Luxemburgo se não preocupava o fato de ter levado quatro gols! Ora, o certo era exaltar o momento épico. Deixemos os erros para mais tarde, em conversas dos treinadores com seus elencos. Anuladas as falhas, quem sabe no próximo jogo não ficam num retumbante 0 a 0 ou, quem sabe, num magnífico 1 a 0. Ah, mas taticamente perfeito. Eu, heim!

Siga o mestre. Faz tempo que desconfio de jornalistas, a raça mais sem graça que conheço. Principalmente quando estão a serviço. Preocupam-se com a notícia, gastam horas e horas em vigílias, à espera de uma entrevista e desperdiçam bons momentos.

Já não tenho dúvidas de que meus colegas não sabem viver. Quem lhes abriu os olhos foi herr Joseph Blatter. O presidente da Fifa ficou compungido de ver tantos repórteres preocupados com escândalos e suspeitas que abalaram a casa que comanda o futebol no mundo. Por isso, depois de dar-lhes respostas tranquilizadoras, sugeriu-lhes que curtissem o Rio, a praia de Copacabana, a vida!

Amigos, divirtam-se, relaxem e deixem coisas sérias para a Fifa.

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