Enfim, um museu para o futebol

Abrem-se definitivamente as portas da memória do esporte no Estádio do Pacaembu, dia 29, às 19 horas

Amanda Romanelli, O Estadao de S.Paulo

20 de setembro de 2008 | 00h00

Foram 33 meses de espera, entre idéia, concepção e realização. A partir de hoje, apenas uma semana separa o torcedor da inauguração de mais um local para a contemplação do jogo mais popular do mundo. No dia 29, às 19 horas, abrem-se as portas do Museu do Futebol, no Estádio do Pacaembu. Promessa de mais um espetáculo para o esporte que, no Brasil, nasceu em São Paulo pelas mãos - e pés - de Charles Miller há 114 anos.A idéia da construção de um museu que mostrasse a história da paixão esportiva nacional foi oficializada em novembro de 2005 pelo então prefeito José Serra (PSDB). O local não poderia ser mais apropriado: tombado pelo patrimônio arquitetônico, artístico e cultural do Estado e do município, o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho abriu seu pórtico monumental para receber as mais variadas formas de expressão do esporte. Para o fã do futebol, o sentimento é de estar em casa.Por trás da fachada do Pacaembu, 6.900 metros quadrados, divididos em três andares, receberam 15 ambientes para mostrar como uma modalidade de elite se transformou com a apropriação popular, permeando a história do Brasil. O visitante-torcedor será inserido nessa história, graças aos inúmeros recursos tecnológicos utilizados para contar a trajetória futebolística no País. A interatividade, assim como em um jogo de futebol, é parte essencial da experiência no novo museu. "É um lugar para incitar e excitar", define o jornalista Leonel Kaz, curador e diretor-executivo do memorial.O museu é dividido por três eixos - emoção, história e diversão - e tem como proposta central unir as ricas referências arquitetônicas do Pacaembu, o extenso conteúdo do futebol brasileiro e uma experiência museográfica que apela especialmente aos sentidos. É definido como um museu do terceiro milênio por propor uma narrativa linear com o uso de recursos multimídia. Muito além da exibição de troféus, camisas e afins.Na entrada, o torcedor já se vê em local de puro fetiche: a grande área - ou o grande hall - do museu. Idealizado pelos cenógrafos Daniela Thomas e Felipe Tassara, o espaço de pé-direito triplo reúne os mais variados símbolos que traduzem a idolatria por clubes e atletas: canecas, flâmulas, capas de revistas, botões. Pelé, o símbolo máximo da comunhão Brasil-futebol, dá as boas-vindas aos visitantes.Daí em diante, o torcedor vira parte do espetáculo: entra em campo para sua experiência museográfica. Sobe ao primeiro andar e, na Sala dos Anjos Barrocos, encontra imagens de 25 craques, como Pelé, Garrincha, Sócrates, Romário e Ronaldo, projetadas em 11 telas transparentes - eles flutuam entre os mortais, suspensos no ar. Nas Salas dos Gols e do Rádio, o momento mágico do futebol é lembrado e contado por personalidades como Armando Nogueira, Ruy Castro, Fiori Gigliotti e Osmar Santos, entre outros.Na transição do primeiro para o segundo andar, a Sala da Exaltação encerra uma mescla de arquitetura e conteúdo. As entranhas do Pacaembu são expostas - com vigas e colunas de sustentação da arquibancada emaranhadas em terra, pedras e concreto - e recebem, em telas, a projeção de imagens das principais torcidas do País.O eixo histórico, o mais parecido com um museu tradicional, mostra como o início e a evolução do esporte acompanharam a formação do País. Na Sala das Origens, 431 imagens do fim do século 19 ao fim da década de 20 do século passado são distribuídas do teto ao chão. Relembram a chegada de Charles Miller com um par de bolas e um livrinho de regras do futebol e apresentam, a muitos, Arthur Friedenreich, o primeiro ídolo mestiço, filho de mãe brasileira negra e pai alemão.A Sala dos Heróis, que abrange os anos 1930 e 40, é o ponto nevrálgico do museu, para o curador Leonel Kaz. "Este é o momento em que o jogador é entronizado e o futebol se torna, assim como qualquer outra forma de arte, uma expressão cultural do brasileiro." Mário de Andrade, Cândido Portinari, Monteiro Lobato, Leônidas da Silva e Domingos da Guia: todos, de alguma maneira, fizeram parte da construção da identidade nacional.DRAMA E GLÓRIASeis horas de vídeo estão disponíveis aos visitantes. Mas são os poucos minutos exibidos em um túnel escuro, com o som abafado de uma narração de Arnaldo Antunes, que trazem à tona um sentimento de tristeza insuperável. O Rito de Passagem lembra a derrota brasileira para o Uruguai, por 2 a 1, na decisão da Copa de 1950, no Maracanã. Para Kaz, um momento que transformou o Brasil no epicentro do futebol mundial, como explicita a Sala das Copas do Mundo. Fotos e monitores relembram as campanhas de todos os Mundiais, de 1930 até 2006, e mostram como a humanidade, em manifestações culturais, políticas e comportamentais, também mudou. A constante exclusiva nesse período: a seleção brasileira como a única equipe do mundo a participar de todas as Copas. Para encerrar o bloco histórico, Pelé e Garrincha desfilam genialidade em filmes que mostram seus gols e dribles. Uma certa exaustão emocional dá lugar ao estímulo físico na última parte do museu: o eixo da diversão. Antes de chegar ao local mais interativo do memorial, o visitante passa de uma ala a outra atravessando a passarela construída sobre o pórtico monumental - bancos de madeira convidam a observar a Praça Charles Miller.A Sala dos Números e o setor de Curiosidades formam um grande almanaque - e mesas de pebolim fazem o público experimentar toda a diversidade de esquemas táticos. Em grandes fichários, os 128 clubes que já participaram do Campeonato Brasileiro são contemplados - basta uma olhada para saber seus títulos, principais jogadores e um pouco da história de cada.No Jogo de Corpo, um filme 3D mostra as reações do corpo humano durante os mais variados movimentos do jogo. Ainda nessa sala, o maior desafio futebolístico do museu: testar a potência do chute diante de um goleiro virtual. "É um museu para sair suando a camisa", decreta Leonel Kaz. E, assim como em um bom jogo de futebol, com vontade de rever todos aqueles lances uma vez mais.

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