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Engenheiros de Uberlândia desenvolvem cadeira de rodas especializada para o esporte paralímpico

Projetado ao longo de uma década pelo Centro Brasileiro de Referência em Inovações Tecnológicas para Esportes Paralímpicos, trabalho beneficiará atletas e pessoas com deficiência no Brasil

Murillo César Alves, especial para o Estadão

12 de maio de 2022 | 05h00

Um grupo de pesquisadores de Minas Gerais resolveu enfrentar os obstáculos vividos por pessoas cadeirantes, dentro do campo paralímpico, para buscar novas ideias e soluções na construção de cadeiras de rodas. O projeto visou o esporte de alto rendimento. A ideia surgiu devido às necessidades dos paratletas e da atual disponibilidade desses equipamentos no mercado. Foi desenvolvida por Lucas Cardoso, um dos engenheiros responsáveis. 

"As cadeiras de rodas, às quais atletas e a população têm acesso, são modelos genéricos, prontos em larga escala e que não levam em consideração características e necessidades individuais”, diz.

A longo prazo, o engenheiro conta que essas cadeiras convencionais, se utilizadas sem uma orientação e acompanhamento médico, podem agravar o estado de saúde do usuário. “Por não levarem em consideração as características antropométricas, seu uso pode acentuar a gravidade física e gerar novas complicações, como fraquezas musculares”, observa. A antropometria estuda as medidas e dimensões do corpo humano.

A iniciativa é desenvolvida há mais de nove anos pelo grupo de engenheiros da Universidade Federal de Uberlândia. Quando comenta, analisa e expõe seu trabalho, Lucas se mostra entusiasmado. Apesar de falar pausadamente, suas expressões faciais evidenciam a alegria em trazer o projeto à vida, de “levar ao mercado opção acessível às pessoas, de uma cadeira feita sob medida."

Ele ressalta que o equipamento feito de acordo com as necessidades antropométricas colabora com a reabilitação física do paciente, assim como propicia a melhora da sua saúde. “Com uma cadeira própria para o seu uso, o paciente consegue se sentir incluído na sociedade, autônomo e capaz de realizar suas atividades da melhor maneira possível. É um retorno físico, mas também psicológico."

O projeto surge dentro do universo dos esportes paralímpicos para auxiliar as modalidades brasileiras. A lista das que serão atendidas é vasta e em constante expansão. Basquete, esgrima, handebol, parabadminton, rúgbi, tênis e tiro com arco são algumas delas.

Para o desenvolvimento, Lucas e equipe contam com o financiamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, do Ministério Público do Trabalho/Uberlândia, e apoio da prefeitura de Uberlândia. Além disso, possui outros apoiadores, como o Praia Clube, o Comitê Paralímpico Brasileiro e o SESI/Gravatás.

Também conta com a participação de atletas de alta performance, que realizam testes práticos e as validações das cadeiras, com uma efetiva participação em toda a metodologia de prescrição e criação. Nesta primeira fase, foram desenvolvidas cadeiras de rodas para o basquete, o rúgbi ataque, o tênis de quadra e a esgrima.

Jovane Guissone, da esgrima, segundo do ranking mundial, é um dos atletas de alta performance que participam do desenvolvimento. “É muito mais que somente uma cadeira, é uma parceria de projetos de pessoas empenhadas em fazer as coisas para nos ajudar”, afirmou o atleta.

INTEGRAÇÃO

Lucas conta que um dos diferenciais para o desenvolvimento do equipamento é a integração do paratleta à pesquisa. “Eu mostrei o esquema de desenvolvimento para eles e dei abertura para darem sugestões, de acordo com seus gostos. E eles tiveram a oportunidade de ver, antes de pronta, o resultado final da cadeira”. Para ele, foi essencial ter esses dados, acerca da melhor posição da coluna, largura e comprimento, para alcançar um “modelo perfeito”

Cleudmar de Araújo, coordenador do grupo na Universidade de Uberlândia, é outro que não esconde a alegria em ver o trabalho ganhando forma e sendo utilizado pelos atletas. “Imagine a alegria de mais de 40 pesquisadores ao ver os primeiros produtos ganhando vida, chegando à sociedade”, diz o professor. “Essas (cadeiras) serão uma vitrine de validação a nível nacional e internacional, e poderão contribuir para a melhoria da performance dos atletas. O Jovane pode ganhar uma medalha nesta cadeira, o que seria uma grande alegria para todos nós”, afirma.

“Quando é bem construída, bem modelada, adequada, ela pode favorecer o desempenho esportivo. Oferece melhor condição mecânica, de exercício, além de uma sensação de segurança e liberdade”, diz o engenheiro.

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