Enguiço nacional

A seleção virou um enrosco. O maior símbolo do futebol nacional transformou-se em instituição enjeitada. O torcedor fiel, do dia a dia - não o pacheco ocasional dos grandes eventos -, há tempos se incomoda com os compromissos da amarelinha, por entender que atrapalham a vida de seu clube. E com razão, porque estorvam mesmo. Agora, além de os resultados não aparecerem, também se faz associação de imagem, pra lá de negativa, com a cartolagem da CBF. Não tem como separar o time e os mandachuvas. Sabe quais, né? Os que se lixam de montão para o que falam a respeito deles.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2011 | 00h00

O povo que curte o joguinho de bola se divide entre indiferença e raiva com o Brasil. Em outros tempos, um duelo com a Alemanha, no meio da tarde e em dia de semana, era motivo para faltas na escola e uns perdidos no emprego. Sem contar gente com radinho colado ao ouvido ou multidões a se aglomerarem diante das vitrines das lojas de televisão. Eram fotos clássicas dos jornais do dia seguinte. A vida só voltava ao normal após o apito final. Seleção era sagrada, não se brincava com ela em campo.

Mas diga aí: você viu alguém a mudar rotina anteontem por causa da apresentação da turma de Mano Menezes em Stuttgart? As ruas ficaram vazias entre 4 e 6 da tarde? Algum rojão espocou nos gols brasileiros? Nada. A vida seguiu normalmente. O time negou fogo, e por aqui pipocaram protestos nas mídias sociais, fenômeno moderno de trocas de ideias que se propõe substituir as discussões de botequim. Feicebuque, tuíter e blogues foram inundados de críticas ao "time da CBF", consequência da decepção com a derrota e sinal de repulsa à imagem atrelada ao dono do poder.

Noves fora a crescente antipatia popular ao Inatacável, a bola da seleção anda bem murcha. Equipe historicamente possante, agora não faz mal a quase ninguém; só mexe com os nervos do torcedor que insiste em acompanhar seus jogos. Nem a justificativa da fase de transição cola mais. Mano completou um ano no comando e não deu cara nova ao time. A dose da boa vontade esgotou-se na Copa América. No torneio na Argentina se esperava o surgimento, de fato, do Brasil para o Mundial de 2014. Despontou um grupo vacilante, inseguro e ineficiente. Os quatro pênaltis perdidos contra o Paraguai estamparam um enorme ponto de interrogação a marcar a seleção e o seu treinador.

Não se trata de campanha para a degola de Mano - tarefa dos que se acostumaram a lobbies, a favor ou contra. Só não se pode mais afagar, apenas. Técnico de seleção como a do Brasil tem obrigação de mostrar serviço em pouco tempo. É o preço que paga por assumir a escola futebolística mais premiada do mundo - e, por extensão, a mais cobrada também. Desafio é fazer Liechtenstein jogar bem.

Nenhum colega de Mano tem o luxo de chamar o jogador que quiser, seja de onde for. E, salvo os Donestks da vida, a maior parte dos atletas brasileiros atua em equipes de ponta da Europa, nas mais badaladas e ricas. Supõe-se que sejam profissionais de alto nível. No entanto, muitos não correspondem na seleção. Acontece. Mas, justamente por ter o poder da escolha, a cobrança pesada vai para o técnico. (Uma dúvida: de onde vem o prestígio de clubes de Ucrânia e Rússia? Nos últimos anos, muitos brasucas que vão pra lá se tornam figuras carimbadas em convocações.)

Um ano após a estreia promissora diante dos Estados Unidos, a seleção não joga "à brasileira", conforme Mano havia acenado, e mostra brechas em todos os setores. Julio Cesar, goleiro experiente, já não é unanimidade. A lateral direita tem dois nomes fortes (Daniel Alves e Maicon) que oscilam. O miolo da zaga começou a ser renovado, com Thiago Silva e David Luiz, mas houve um retrocesso com Lúcio (nota 10 em dedicação, porém sem o senso de colocação anterior). André Santos não tem cacife para ser o dono da lateral esquerda.

O meio-campo teve em torno de duas dezenas escalados e não há nomes que se imponham. Ralf, Ramires e Fernandinho para pegar a Alemanha foi formação para segurar empate. No ataque, o Robinho de sempre, Neymar que é a maior aposta; depois, uma série de incógnitas, de Pato a Fred, passando por Hulk e André.

Não julgo a seleção por placares, mas por postura. E essa não entusiasma. Fosse o Mano, eu ficava esperto, não confiava em cantos de sereia e tratava de arrumar logo esse time. Pois está cheio de lobista por aí.

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