Edgar Su/Reuters
Edgar Su/Reuters

Entidade World Rugby barra mulheres transgênero, desconcertando jogadores

Esta é a primeira federação esportiva internacional a barrar mulheres transgênero de competições globais, embora tenha passado um bom tempo pregando a inclusão

Gillian R. Brassil e Jeré Longman, The New York Times

28 de outubro de 2020 | 10h00

Grace McKenzie começou a jogar rúgbi em 2018. Durante uma conferência de tecnologia em São Francisco, ela foi abordada por algumas jogadoras que recomendaram que ela fizesse um teste para uma equipe amadora. Como atleta transgênero, McKenzie agarrou a chance de participar de um esporte cuja federação internacional promovia o lema “Rúgbi para Todos”.

“Antes de o rúgbi me encontrar, eu andava desanimada”, disse McKenzie, 26 anos, explicando que muitas vezes se deparava com pessoas que desrespeitavam sua identidade de gênero. “No rúgbi, encontrei pessoas que me aceitaram como eu sou”.

Num esporte que até então acolhera atletas de diferentes tamanhos, formas, habilidades e identidades de gênero, McKenzie e outros jogadores transgêneros se sentiram perdidos nos últimos meses, quando se espalhou a notícia de que a World Rugby planejava excluir mulheres transgênero de times femininos em eventos internacionais importantes, mesmo que ainda não se saiba de nenhuma mulher trans jogando nas categorias mais altas do esporte.

“Pode ter um impacto mínimo agora, mas com certeza estabelece um teto de cimento”, disse Joanna Harper, pesquisadora inglesa que é transgênero e há muitos anos estuda atletas trans.

Em 9 de outubro, a World Rugby se tornou o primeiro órgão internacional de esportes a proibir a participação de mulheres transgênero em competições internacionais como as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Rugby feminino. Cada país pode determinar se continuará permitindo que mulheres trans participem de competições nacionais de rúgbi.

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No rúgbi, encontrei pessoas que me aceitaram como eu sou
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Grace McKenzie, jogadora da rúgbi

Depois de nove meses de análises e deliberações, a World Rugby disse que, num esporte de alto contato físico, em que geralmente ocorre pelo menos uma lesão por partida, “a segurança e a concorrência justa atualmente não podem ser garantidas para as mulheres que competem contra mulheres trans no rúgbi”.

As autoridades do rúgbi disseram que temem que as mulheres trans possam causar ferimentos graves ao jogar contra mulheres cisgênero. (Pessoas cisgênero são aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído no seu nascimento).

Na puberdade, os atletas do sexo masculino geralmente ganham vantagens fisiológicas para muitos esportes, como uma estrutura esquelética maior e mais massa e força muscular. Como resultado, homens e mulheres competem sobretudo em divisões separadas.

Há pouca ou nenhuma pesquisa científica sobre o desempenho de atletas trans de elite, dizem os especialistas. Mas alguns estudos indicaram que as vantagens de força e massa muscular em grande medida continuam quando as pessoas designadas como homens ao nascer passam pela supressão de testosterona por um ano.

A proibição da World Rugby foi anunciada meses após um proeminente estudo sueco com 11 mulheres transexuais ter mostrado que, após um ano de inibição de testosterona, as mulheres mantiveram a força muscular em suas coxas e perderam apenas 5% da massa muscular.

“Se os esportes não cuidarem da questão da segurança, os esportes vão morrer”, disse Ross Tucker, fisiologista da África do Sul que aconselhou a World Rugby sobre a proibição. “As mães não colocam seus filhos nesses esportes de contato por causa do perigo”.

Mas jogadores e ativistas que se opõem à proibição dizem que é uma solução que acaba criando outros problemas.

Vários dos principais jogadores de rúgbi se opõem à proibição. E os atletas que estão a favor relutam em se manifestar por medo das reações. Esse ponto de vista, num momento de elevada polarização, geralmente vai de encontro à política de inclusão defendida pelos esportes internacionais, até mesmo nas Olimpíadas.

“É uma questão de policiamento dos corpos femininos”, disse Verity Smith, 39 anos, da Grã-Bretanha, homem trans que competiu em times femininos por 26 anos antes da transição e observou silenciosamente as deliberações da World Rugby. “Esses órgãos diretivos partem do pressuposto de que todos os atletas de corpo feminino não são tão fortes quanto os de corpo masculino, mas isso simplesmente não é verdade”.

Nenhum estudo científico foi conduzido especificamente com mulheres trans no rúgbi, disse Harper.

E não há exemplos de mulheres trans causando ferimentos graves em mulheres cisgênero, disse Anne Lieberman, diretora de políticas e programas da Athlete Ally, um grupo de defesa de mulheres e LGBTQs nos esportes.

A discussão no rúgbi aponta para uma questão mais ampla e complexa em todos os esportes: como equilibrar inclusão, segurança e equidade ao se pensar nas atletas que fazem a transição do sexo masculino para o feminino? O mundo dos esportes tende à inclusão, mas a questão continua controversa.

Um juiz federal de Idaho recentemente suspendeu a proibição de mulheres transexuais competirem em todos os esportes no estado. E, em New Hampshire, a Universidade Franklin Pierce mudou sua política de permissão para atletas trans para ajudar a resolver um caso com o Departamento de Educação dos Estados Unidos. Esse desafio veio à tona quando CeCe Telfer ganhou um campeonato de atletismo da NCAA, conquistando o primeiro lugar na corrida de 400 metros com barreiras feminina da Divisão II no ano passado.

As Olimpíadas de Tóquio, marcadas para julho e agosto do ano que vem, e a Copa do Mundo de Rúgbi de 2021 na Nova Zelândia, em setembro próximo, seriam as primeiras grandes competições internacionais sob a proibição a jogadores trans, caso ocorram como programado devido à pandemia do coronavírus.

No entanto, nenhuma mulher transgênero viria a competir no Rugby Sevens das Olimpíadas de Tóquio, nem na Copa do Mundo de Rúgbi feminino de 2021, independentemente da proibição.

O USA Powerlifting, que não supervisiona o esporte olímpico, impede as mulheres transexuais de competir. Mas os esportes olímpicos, exceto o rúgbi, não impedem completamente as mulheres transexuais de competir em times que combinam com sua identidade de gênero. O atletismo exige que as mulheres trans suprimam e mantenham seus níveis de testosterona abaixo de um certo limite para continuarem competindo em certos eventos.

Quatro potências femininas do rúgbi - Estados Unidos, Inglaterra, Canadá e Austrália - disseram que ignorariam a proibição nas competições domésticas. Espera-se que a Nova Zelândia faça o mesmo.

“Queremos ter certeza de encontrar o equilíbrio entre segurança e equidade, então não tomaremos nenhuma decisão precipitada”, disse Ken Quarrie, cientista-chefe do rúgbi da Nova Zelândia.

Mulheres transgênero do rúgbi disseram que nenhuma foi convidada para o debate pelas autoridades da World Rugby antes de a proibição ser implementada.

A pesquisadora Harper recomendou uma espécie de meio-termo entre a proibição e falta de restrições: as equipes podem ser autorizadas a ter uma jogadora trans por competição internacional. Porque há poucas mulheres trans no rúgbi - apenas quatro se identificam na Grã-Bretanha, por exemplo, onde o esporte é popular. Estabelecer esse limite não excluiria as atletas pelo menos por enquanto, disse ela.

Homens transgênero podem jogar em times masculinos, desde que assinem um termo de responsabilidade e passem por uma prova física de que têm segurança para jogar. Eles não são autorizados a competir em times femininos após iniciarem os tratamentos de aumento de testosterona. Mulheres transgênero podem jogar em times masculinos de elite, mas não há exemplos conhecidos de mulheres trans que queiram fazê-lo.

Mulheres transgênero ainda podem jogar rúgbi sem contato com gêneros mistos, anunciou a World Rugby, embora as diretrizes para o rúgbi de elite com gêneros mistos ainda estejam sendo formuladas. Mulheres transexuais que fizeram a transição antes da puberdade também podem jogar rúgbi feminino depois de confirmar que o tratamento médico evitou as mudanças biológicas que ocorrem principalmente por meio da testosterona durante a puberdade.

A recente proibição a mulheres trans não é considerada permanente. Mais pesquisas serão realizadas, disse a World Rugby, e as diretrizes serão revisadas formalmente a cada três anos.

“Os esportes querem ser um reflexo da sociedade, e a sociedade quer ser inclusiva”, disse Tucker, o cientista sul-africano. “É uma questão difícil e complexa - a questão mais complexa dos esportes de contato”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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