Entradas e saídas

Muricy Ramalho é um treinador especial. É o único, talvez até o último, dos treinadores de ponta no futebol brasileiro que foi um grande jogador. Não lembro outro. A maioria é composta de ex-cabeças de bagre ou mesmo de gente que pouco pisou num campo de futebol. Isso dá ao atual treinador do Santos, se não uma superioridade, pelo menos uma maior sensibilidade para certos aspectos do jogo. Recentemente ele fez uma declaração interessante: "Vamos ter de procurar na Argentina jogadores de meio-campo, capazes de lançar uma bola. Lá tem alguns jogadores que ainda pensam. Aqui não se lança, todo mundo só carrega a bola".

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h03

Me parece um diagnóstico perfeito do que aconteceu com o futebol brasileiro. É curioso ainda o Muricy falar claramente em jogadores "que pensam". Pensar é fundamental no jogo de bola e havia alguns jogadores que exerciam exatamente essa função em campo. Era frequente os outros procurarem o que "pensava" para entregar a bola. Eles sabiam mais do que todos o que fazer com ela, como iniciar uma jogada, como descobrir a melhor maneira de fazer o jogo andar. Eram os armadores.

Essas características foram ficando raras e hoje praticamente desapareceram, motivando o lamento de Muricy, que no seu tempo de jogador deve ter visto de perto muitos desses jogadores pensantes. Por isso creio que o São Paulo fez um grande negócio contratando o Ganso. Ou pelo menos fez uma grande aposta, que pode dar certo ou não, mas que é a correta. O São Paulo, honrando sua tradição de inteligência e astúcia quando contrata, colocou suas fichas na inteligência. Insistiu, trabalhou, fez de tudo para ficar com o Ganso.

Ainda lambendo as feridas do péssimo negócio com Oscar, o São Paulo desta vez saiu-se vitorioso. Ganso pode voltar a ser aquele jogador que nos remete a um passado glorioso do futebol, uma espécie de reencarnação de grandes e desaparecidos craques do meio-campo. Vale a pena correr o risco em nome da eficiência a também da beleza do jogo.

Curioso que, trazendo Oscar para a conversa, como o futebol mudou. Nos dois casos, tanto de Oscar como de Ganso, foi a vontade do jogador que prevaleceu. Os dois escolheram os times onde jogar, e o São Paulo, com todo seu poderio financeiro e de influências, só pode contar com o Ganso porque ele o escolheu.

Isso é muito importante. O Ganso pressente, por alguma misteriosa razão, que o seu lugar é no Morumbi. Essa atitude dos jogadores está ficando comum. São eles que agora escolhem seus destinos, os clubes que lhes parecem mais organizados e vitoriosos. Sabem exatamente para onde querem ir.

Acho que o grande perdedor nessa história toda é Muricy Ramalho. O jogador que "pensava", e que agora tanto procura, estava bem diante dele, com ele todos os dias e jogando no seu time. Deve ter sentido muito ao ver a inteligência saindo pelos portões da Vila Belmiro.

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