Entre o orgulho e o constrangimento

"Como assim não está definido onde será o jogo de abertura da Copa do Mundo? Você está com piada para cima de mim. Trata-se de um grande evento que será importante para o Brasil e para toda a América do Sul." A frase, a reflexão e o espanto são de Marcello Madana, recepcionista de um hotel no centro de Buenos Aires. O tema Copa do Mundo do Brasil ainda não faz parte do cotidiano de nossos vizinhos. Porém, no caso de Marcello, é recorrente, pois, além de adorar futebol, ele trabalha em um hotel no qual a maioria dos hóspedes é brasileira.

Wagner Vilaron, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

A afirmação do argentino foi feita dois dias antes de o estádio do Corinthians, em Itaquera, ser confirmado como palco da festa inaugural. Mesmo assim, traz em sua essência pontos que devem - ou deveriam - ser analisados com mais cuidado. Confesso que a reação de Marcello fez reaparecer em mim um sentimento que surgiu logo após a confirmação do Brasil como sede do Mundial de 2014: o medo de passar por um constrangimento.

Quando era criança, havia um desenho animado protagonizado por carros e motos falantes. E uma motoca insuportável passava o tempo todo dizendo "mas eu te disse, eu te disse", lembrando sempre aos colegas do grupo que ele tinha previsto algum problema. Pois bem, nem mesmo isso posso fazer.

Sempre fui e continuo sendo favorável à realização de grandes eventos no País. Respeito muito argumentos contrários, mas não acho, por exemplo, que a solução de problemas emergenciais e mais importantes, como educação, saúde e segurança pública, tenha de ocorrer antes da postulação brasileira a palco de uma Copa ou Olimpíada (mesmo porque a solução de todos eles soa utópica).

O mesmo pensamento vale para o receio em relação a eventuais desvios de recursos públicos. Não devemos fugir do evento, mas sim aprimorar nosso poder de investigação e denúncia. Acredito que a questão sempre foi a seguinte: vamos admitir ao mundo inteiro que somos incapazes de evoluir ou vamos utilizar a oportunidade e a visibilidade de tais megaeventos para provar que somos, de fato, uma sociedade na qual se deve investir - e respeitar? Ainda quero apostar na segunda opção.

Mas toda a celeuma na qual se transformou a escolha do estádio paulistano mostra que os responsáveis pela organização da Copa parecem não compartilhar desses pensamentos e, sobretudo, desses medos e receios. Apesar da definição recente, mostramos para o mundo nossa dificuldade de planejar e de articular de forma coletiva em favor de um objetivo. Para piorar, expusemos nossas mazelas, com uma incrível capacidade de mobilização quando a missão é criar dificuldades para vender facilidades. Ou simplesmente atazanar a vida de um rival político ou pessoal.

A Copa do Mundo e a Olimpíada vão pôr desde já todos os olhos do mundo sobre o Brasil. E essas impressões não se referem exclusivamente ao cenário esportivo. Nosso País e nossa sociedade serão analisados pelos gringos por diversos aspectos, assim como fazemos quando os gringos somos nós: educação, saúde, segurança, rede hoteleira, qualificação da mão de obra, transporte, comunicação, IDH, economia, racismo, etc.

Um estádio bonito e confortável vai agradar aos torcedores. Mas um trâmite limpo e inteligente para sua construção, com regras claras de mercado, burocracia justa e transparência, certamente encantará investidores, que, talvez, ainda estejam com medo do Brasil.

Como se não bastasse, parece que nossos vizinhos também estão esperançosos de que esse País assuma sua condição de liderança sul-americana e os carregue nessa oportunidade excepcional de exposição global. Enfim, tomara que Marcello não fique decepcionado conosco.

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