'Entrei para a história na Espanha'

Marcos Senna. Está a caminho de sua segunda copa do mundo

Amanda Romanelli, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Dentre os vários brasileiros que adotaram outras bandeiras, poucos são tão bem-sucedidos quanto Marcos Senna. O paulista de 33 anos, volante do Villarreal, foi campeão europeu em 2008 com a Espanha e se prepara para a segunda Copa.

Como é estar perto de sua segunda Copa do Mundo?

Realizei o sonho de jogar uma Copa, mas todo bom profissional é ambicioso. Por isso, quero mais. Tive a oportunidade de jogar uma Eurocopa e ganhar... Imagina ganhar uma Copa? De toda maneira, já entrei para a história como um estrangeiro que jogou pela Espanha. Vou ter muita história para contar para os meus filhos.

O que é preciso fazer para incorporar uma pátria adotada?

Adaptar-se a outro país não é tão fácil assim. Mas quando penso em outros jogadores... Veja o exemplo do Marcos Aurélio, que joga na Turquia. A língua, o clima, é muito mais complicado. Eu já sonhava jogar na Espanha ? em clubes, claro ?, porque é o futebol que mais se assemelha ao brasileiro. Mas houve uma ansiedade, sim, quando aceitei jogar pela seleção. Não sabia como ia ser essa jornada, principalmente por ser do Brasil, o país do futebol, e negro. Um brasileiro e negro, qual seria a reação da torcida, dos jogadores? Mas foi tudo bem, uma experiência que me surpreendeu muito. Me trataram como um a mais.

O que te ajudou na adaptação?

Na época em que estreei encontrei muitos jogadores novos, que estavam praticamente estreando também. Não era uma seleção consagrada, com títulos. Todos queriam seu espaço e não tinham tempo de ficar pensando em um brasileiro... Isso me favoreceu. Mas o fundamental foi o treinador. O Luis Aragonés disse de cara: "Este é o Marcos. Para mim ele é igual aos que têm 100 jogos". Bastou. Até que veio a Eurocopa e foi a consagração. O povo na Espanha diz com todas as letras que sou um brasileiro que virou espanhol.

Ou seja: ninguém discute a sua presença na seleção.

Não, em qualquer lugar que eu vá o carinho é grande, as pessoas me reconhecem. Até me perguntam se no Brasil é esse assédio todo. Imagina, no Brasil passo despercebido.

E o que os espanhóis mais perguntam? Imagino que querem saber se a Espanha vai confirmar o favoritismo na Copa...

A gente transmitiu para a torcida o que antes não existia, que é confiança, o bom futebol. Eles não sonhavam, achavam que a seleção era fogo de palha. Agora todos estão acreditando, apesar de haver um pouco de medo porque alguns jogadores importantes estão machucados (como Torres, Fabregas, Iniesta e Raúl).

Muitos jogadores que vão a África do Sul nasceram em outros países. O que acha disso?

Acho que é uma oportunidade para quem quer crescer. Vestir a camisa de uma seleção, de qualquer país, significa um prêmio.

E sobre aqueles que acusam o estrangeiro de tirar da seleção um jogador nascido no país?

Eu entendo. E é óbvio que na Espanha ou em qualquer outro lugar do mundo vai ter alguém que pensa assim, mesmo que não fale. Eu nunca sofri este tipo de ataque, graças a Deus, porque sempre tentei ser uma referência. E, se não aconteceu até hoje, não vai acontecer mais. No máximo, vão falar: "Esse já está aí, então, que não venha outro (risos)."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.