Tasso Marcelo/Estadão
Tasso Marcelo/Estadão

ENTREVISTA - 'Eu realmente penso que posso correr sempre mais rápido', diz Bolt

Em passagem pelo Brasil, atleta jamaicano revela seus sonhos, desejos e como pretende encerrar a carreira

Leonardo Maia, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2013 | 08h06

RIO - Entre no site oficial de Usain Bolt. Está lá: "o atleta mais naturalmente talentoso que o mundo já viu". A frase resume bem quem é o jamaicano de 26 anos. Além de detentor de seis medalhas de ouro olímpicas e três recordes mundiais - nos 100m, 200m e 4x100m - Bolt é um personagem de carisma irresistível e que cativou o mundo igualmente com seu talento, sua descontração e uma soberba divertida. "Meu objetivo é ser um dos maiores atletas que já viveu, não apenas no atletismo, mas em todos os esportes", disse Bolt, em entrevista ao Estado, na manhã de sexta-feira, quando conheceu a pista montada sobre as areias de Copacabana, em que tentará bater o recorde mundial dos 150 metros, distância não olímpica.

É difícil argumentar contra o homem mais rápido do mundo. Poucos sabem que Bolt só começou a disputar os 100 metros em 2008. Em sua segunda corrida naquela temporada, cravou novo recorde mundial: 9s72. Naquele mesmo ano, os três ouros em Pequim com três novas marcas mundiais.

O Raio, que é nome e apelido ao mesmo tempo, reafirmou a decisão de encerrar a carreira na Olimpíada do Rio em 2016. A prova que disputará hoje em Copacabana, às 10 horas, contra o antiguano Daniel Bailey, o equatoriano Alex Quiñónez e um brasileiro que passou por uma eliminatória, é mais promocional do que preparação para a temporada. Mas será oportunidade única para o carioca presenciar de perto, de graça, um mito. É bom não piscar.

Está realmente decidido a se aposentar nos Jogos do Rio em 2016?

O Rio vai ser minha última Olimpíada. Tenho certeza disso. Muita gente quer que eu continue mais dois anos. Mas depois da próxima Olimpíada terei realizado todas as minhas metas, se tudo der certo até lá.

E a preparação para chegar ao Rio no auge da forma?

Vou controlar as próximas temporadas, não queimar muito minhas energias. Meu foco vai ser ir com cuidado, me manter saudável.

E como está o corpo?

Está tudo bem, nunca tive um problema grave. Só as minhas costas (que doem) como sempre, mas mantenho sob controle.

Acredita que vai se tornar tricampeão nas três provas (100m, 200m, e 4x100m) no Rio?

Com certeza. A chave é eu não forçar nessas temporadas até lá, não tentar fazer além do indicado e queimar meu corpo. Com trabalho duro e dedicação, isso pode acontecer.

Você acha que será capaz de baixar o seu recorde mundial dos 100m (9s58) antes de parar?

Eu realmente penso que posso correr mais rápido. É só uma questão de encaixar a temporada perfeita. O atletismo exige muito do corpo. Se conseguir encaixar uma temporada perfeita, é possível. Tenho trabalhado muito, forçado meus limites, tomara que tudo corra bem, não sofra nenhuma lesão e possa quebrar o recorde.

Como gostaria de ser lembrado quando se aposentar?

Meu objetivo é ser um dos maiores atletas que já viveu, não apenas no atletismo, mas em todos os esportes. Quero que quando as pessoas forem falar de Michael Jordan também falem de Usain Bolt. Esta é a minha meta para o fim da minha carreira.

E qual acha que será seu legado para o esporte olímpico?

Acho que vou ser lembrado não apenas como um dos grandes atletas, mas também como um que tentou interagir (com o público). Não quero apenas competir, mas me apresentar, que as pessoas tenham prazer em me ver.

Como é ser uma lenda viva?

É maravilhoso, comprova que o trabalho duro realmente compensa. Eu me lembro de ficar observando Michael Jordan, esses caras, durante os anos. Eu fico feliz de poder dizer que estou chegando lá, que estou lá, entre os maiores do mundo. É maravilhoso.

Dá para notar que você corre com o prazer de uma criança no parque.

Eu tenho prazer em fazer o que faço. Ninguém deveria fazer um trabalho que não tem prazer. Eu realmente adoro competir no atletismo.

Quais seus prazeres fora das pistas?

Eu gosto de me divertir. Jogo muito videogame com meus amigos, gosto de sair à noite. Tento aproveitar todos os aspectos da vida porque não quero ficar velho e me arrepender de não ter feito certas coisas. Eu tento me divertir o máximo possível.

Quais eram seus ídolos quando criança?

Don Quarrie, Michael Johnson, todos esses caras. Especialmente Don Quarrie (velocista jamaicano, ouro nos 200m e prata nos 100m em Montreal 1976), era um dos meus ídolos porque ele corria as curvas tão perfeitamente.

Você tem sonhos para depois da aposentadoria? Casar, ter filhos?

Sim. Eu já até quis ter filhos antes. Mas vai demorar um pouco.

Já conheceu a garota da sua vida?

Ainda não. Estou namorando por aí. Mas há candidatas (risos).

Há alguns meses testemunhamos o fim de Lance Armstrong e a verdade sobre seu uso de drogas. Como viu o caso e o que ele nos ensinou?

Na verdade não acompanhei muito. Eu ouvi sobre o assunto. Mas a lição é que a verdade sempre vem à tona. A trapaça nunca prospera.

Qual o segredo dos velocistas jamaicanos?

Cada país tem um esporte principal. No Brasil é futebol, na Jamaica é atletismo. Nós colocamos mais esforço em achar atletas do atletismo. Aqui vocês se preocupam mais com o futebol. Lá nós temos o "campeonato dos meninos e meninas", onde todo o talento se reúne. É lá que os técnicos podem perceber quem tem a possibilidade de se tornar um grande corredor.

Você tem acompanhado a preparação para as Olimpíadas no Rio, teme por alguma coisa?

É normal às vezes você ficar um pouco atrasado no planejamento, especialmente se você está sediando os Jogos pela primeira vez e está se esforçando para atingir o mesmo o padrão de outros Jogos e cumprir as expectativas. Mas acho que pelo tempo que ainda resta e pelo amor que os brasileiros têm pelo esporte, eles vão entregar tudo a tempo.

O que o carioca pode esperar de você em Copacabana?

Sempre o melhor. Eu sempre venho preparado. Eu gosto de entreter o público e me divertir. Já corri os 150m antes e espero poder baixar o meu tempo (14s35, em 2009, em Manchester).

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