Jefferson Bernardes/Divulgação
Jefferson Bernardes/Divulgação

ENTREVISTA - Falcão: 'Quero provar que tenho condições de triunfar'

Técnico do Internacional quer provar que tem condições de colecionar títulos

ELDER OGLIARI, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

PORTO ALEGRE - Uma das grandes novidades do Campeonato Brasileiro deste ano estará no banco do Internacional. Profissional bem-sucedido como jogador e comentarista esportivo, Paulo Roberto Falcão, 57 anos, volta ao torneio que conquistou três vezes como atleta. Agora técnico, após 14 anos analisando jogos de futebol na Rede Globo, quer provar para ele mesmo que tem condições de colecionar títulos como na época em que desfilava talento com a equipe gaúcha. Já ganhou o primeiro, o Estadual, no domingo passado.

Jogador consagrado, comentarista reconhecido, homem bem-sucedido nas duas profissões. Vale a pena trocar tudo isso pelas turbulências da vida de técnico?

Na televisão eu tinha uma responsabilidade enorme, mas era menos vidraça. Agora voltei porque acho que tinha que passar por isso de novo. Eu já tinha começado esse trabalho, estava me faltando, eu queria ver, voltar para ter condições de saber esse potencial. É claro que é um risco, mas quando eu assumi eu não pensei em correr um risco, eu pensei em conseguir ter sucesso nessa profissão de treinador, que era uma coisa que eu deveria ter vivido. Estou vivendo com esse objetivo, eu quero talvez comprovar para mim mesmo que tenho condições.

Depois de passar 14 anos como comentarista, o senhor volta ao vestiário. Dá para notar diferenças no relacionamento entre técnicos, jogadores e dirigentes por conta da presença do empresário no futebol?

Ainda não notei isso. O que eu noto é que o Internacional hoje é um clube diferente, completamente organizado. O vestiário, de um modo geral, não mudou muito. O jogador está um pouco diferente, argumenta mais e eu gosto disso. Porque quando há conversa, você também vai argumentar e se o seu argumento tiver justificativa, ele (o jogador) vai para o campo fazer (o que for combinado).

É um projeto de longo prazo? Inclui uma volta à seleção no futuro?

Meu objetivo é ficar muito tempo treinando o Internacional e ganhando títulos. Não todos, porque não dá para ganhar todos, mas ter um trabalho que me possibilite ficar bastante tempo. No Brasil isso é um grande desafio. Seleção eu não penso, penso em continuar aqui no Internacional.

O senhor fala muito em compactar o time. O que é isso, exatamente?

Antes de qualquer esquema, é importante que os jogadores estejam próximos um do outro, tanto quando o time estiver atacando como quando estiver defendendo. Minha ideia é ter uma distância entre meu centroavante e meu zagueiro de no máximo 30 metros.

Eu chamo isso de compactação.

Mas isso não dá muito espaço às costas da defesa, para atacantes adversários velozes?

Depende muito da primeira linha de marcação. Você não pode deixar o jogador com a bola no pé ter visão de jogo. O ideal é que os dois ou três atacantes façam a primeira marcação, que atrás deles estejam dois, três ou quatro jogadores de meio-campo. Isso requer muito treino.

Alguém já consegue fazer isso?

A Holanda faz isso muito bem, o Milan do (Arrigo) Sacchi fazia. O futebol inglês compacta muito. Você olha o futebol inglês e vê que tem duas linhas de quatro lá na frente. Por isso é que às vezes os times ingleses usam só um volante de contenção e outros três que tenham condições de chegar, porque eles estão muito perto um do outro. Mas o meu xodó de marcação por pressão é a seleção holandesa. E quem faz isso muito bem é o Barcelona, até porque tem uma história holandesa, construiu um esquema tático pensado em 30 anos, passou pelo Rinus Michels, pelo (Johan) Cruijff, pelo (Frank) Rijkaard, vem vindo nessa cultura. Acho que o Barcelona tem isso. Mesmo com três atacantes, aperta muito o adversário.

O senhor está iniciando isso no Brasil, com o Internacional?

Não sei. Acho que o Internacional em 1974 e 1975, quando o (Rubens) Minelli era treinador, fazia marcação individual. Mas era homem a homem, é um pouco diferente.

A Holanda de 1974 parece ser sempre a sua referência...

Aquele time encantou o mundo. Eu gosto de time que aperta o adversário e se impõe. Mas o que digo que gosto não significa que vá conseguir, porque entre o que se pretende e o que se consegue há diferenças que não são fáceis de superar. O objetivo é criar um time que se impõe independentemente de jogar em casa ou fora de casa.

Há uma expectativa quanto ao desempenho do Internacional no campeonato brasileiro, até pela sua presença e pelas suas idéias. Como será o seu time no campeonato nacional?

Desde que entrei (dia 11 de abril) ficamos jogando decisão em cima de decisão, duas vezes por semana. Agora teremos um pouco mais de tempo para organizar alguma coisa que possa ficar automatizada no jogador, organizar um time para todo o campeonato e não só visando o jogo de domingo.

Em vez de montar para uma emergência, montar um time com a sua personalidade?

Não é mais pronto-socorro, né.

O senhor considera que o time tem boas chances? É um dos favoritos?

Não colocaria favorito. E nem acho que tenha que ser apontado como favorito. Mas o Internacional tem história nessa competição e é muito respeitado. Temos que fazer isso valer dentro do campo. E tenho expectativa de fazer um bom brasileiro, sim.

Quem são os favoritos?

Baseado pelos jogos que vi recentemente não dá para não apontar o Cruzeiro, o Flamengo, o Fluminense, o São Paulo, o Santos, o Coritiba, o Grêmio, que sempre faz boas competições, e certamente ainda estou esquecendo alguns.

Quais são os grandes jogadores do futebol atual?

No Brasil, Neymar e Ganso. No mundo, o Messi.

Seu estilo à beira do campo não obedece o do treinador que gesticula, esbraveja, briga com o juiz...

Isso não é novo. Tem outros treinadores que são assim, como o (Carlos Alberto) Parreira, o Paulo Autuori. Em nenhum momento tive necessidade de fazer isso no Internacional. Normalmente isso acontece no intervalo, quando se tem que mudar o jogo ou um resultado parcial, ou chamar a atenção do time por alguma negligência. Eu não tive essa necessidade porque o Internacional tem feito belíssimos primeiros tempos. A única coisa que não aceito é um time perder porque o adversário teve mais vontade. Para mim, isso não existe. Meu time vai perder porque o adversário foi melhor, não porque teve mais vontade, mais pegada.

Motivação ganha jogo?

Pode ganhar determinado jogo. Mas sozinha não dá resultados a longo prazo. O grande desafio é construir um time que jogue bem. Se você jogar bem estará mais perto do resultado.

Quem são seus mestres?

Eu tive grandes treinadores, como Ernesto Guedes nas categorias de base, Dino Sani, que me puxou para o time profissional, Rubens Minelli, que me colocou um pouco mais à frente no campo. Depois o Ênio Andrade, que sabia tudo de futebol e não esbravejava no banco. E o (Niels) Liedholm no Roma. Não sei se copio alguém, mas devo ter aprendido com todos eles algumas coisas.

O senhor falou que quer ver um time jogando feliz. Isso é possível com tantas exigências de marcação e disciplina tática que a necessidade de vitória impõe?

É no sentido de que os jogadores estejam tranqüilos dentro do campo. De um time que tenha a capacidade de saber o que tem que fazer, que não se sinta desconfortável ao jogar. Se cada um estiver confortável em suas funções, isso faz com que o time fique leve e aí se chega a um time feliz. Não é firula e nem brincadeira. É um time no qual a marcação não necessariamente tenha que ser feita com três volantes marcadores. Se você fechar os espaços você consegue os mesmos resultados, com a diferença que quando você tem a bola tem mais qualidade de chegada.

Depois de ganhar o campeonato gaúcho na decisão por pênaltis, o senhor foi visto consolando o Adilson, jogador do Grêmio que havia errado a cobrança decisiva. Também lembrou que o Grêmio é adversário e não inimigo. O senhor se propõe a levar atitudes mais civilizadas ao mundo do futebol?

Eu acho que o adversário tem que ser batido, qualquer que seja o adversário. Eu estava indo para o vestiário quando vi ele chorando, em meio a outros jogadores. Dei um abraço nele e disse que ele joga muita bola e que todo mundo erra pênalti um dia. Mas não fui falar com o jogador do Grêmio, fui falar com um ser humano que estava ali com o mundo caindo em cima dele. E vou fazer isso sempre que for possível.

Na sua visão, o que o futebol é para a sociedade?

O futebol sempre foi importante e hoje, felizmente, faz parte da cultura da gente. Jogos importantes, como os da seleção ou decisões como o recente Gre-Nal param o País e Estados como o Rio Grande do Sul. Mas isso não significa alienação. Terminado o jogo, vou tocar minha vida, eu sei que as coisas estão difíceis, que tem desemprego, o futebol não me deixa cego para as outras coisas. Já não existe mais isso.

Nos anos 70 havia quem dissesse que era...

O ópio do povo. Mas não é. É que na época estávamos sob uma ditadura. Eu saí da Copa do Mundo em 1978 por uma situação de ditadura. Eu tinha total condição de estar na Copa da Argentina.

Qual foi essa situação de ditadura?

Eu tive uma discussão com o treinador, o capitão Cláudio Coutinho. Eu não gosto de falar no assunto porque infelizmente ele (Coutinho) já morreu E havia um ranço de ditadura na época. O que se dizia quase como um consenso era que eu tinha que estar na seleção. Então isso foi marcante para mim, eu fiquei fora por causa de uma discussão. Talvez se entendeu que eu estava indo contra o sistema, mas não era isso, estava apenas achando que merecia mais oportunidades na seleção. Cinco meses depois da Copa ganhei a Bola de Ouro da revista Placar como melhor jogador do Campeonato Brasileiro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.