ENTREVISTA - Gustavo Kuerten: 'O que está acontecendo no tênis é inacreditável'

Dez anos depois do tri na França, Guga diz que o esporte é 'mais justo' hoje

VALÉRIA ZUKERAN - Enviada Especial, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

FLORIANÓPOLIS - O tênis mudou muito desde que Gustavo Kuerten erguia seu terceiro troféu em Roland Garros, há dez anos. Pior para Guga. “A quadra rápida não é mais tão rápida e o saibro não é tão lento. Hoje a disputa para ser o número 1 é mais justa porque, na minha época, um cara bom no saibro, para ser o número 1, tinha dificuldade”, diz.

Agora na arquibancada do Grand Slam francês (ele viajará a Paris para assistir ao torneio, que começa neste domingo), o maior tenista brasileiro da história se encanta com a evolução do tênis internacional mas ainda quer ser útil ao esporte no País. Depois de ajudar na formação de novos talentos, ele agora quer auxiliar o Brasil a ter mais treinadores de alto nível.

Se os anos colaboraram para o tênis mudar, não tiveram impacto algum no estilo de Guga, 34 anos, que concedeu entrevista ao Estado na sede de sua empresa (que administra seus direitos de imagem), na capital catarinense, com o uniforme habitual: o expediente, no sofisticado escritório, é cumprido de camiseta, moletom, bermuda e chinelos, trocados pelo tênis apenas quando é hora de entrar em ação. Leia a seguir a íntegra da entrevista.

Como você imaginava seu futuro quando ganhou Roland Garros pela terceira vez? Imaginava que, dez anos depois, sua vida estaria tal como está agora?

Bem diferente. Eu não sabia o momento quando ira parar de jogar. Achava que depois de terminada a carreira eu estaria totalmente descansando, viajando para surfar. Pensei que iria usar o tempo livre para alguns prazeres que eu tinha poucas possibilidades de fazer. E achei que eu ia me afastar mais do tênis. Eu estou muito ligado. Aliás não tem como estar mais ligado do que estou atualmente. Acredito que o distanciamento que tive, durante cinco ou seis meses, quando terminou a carreira, foi ótimo para mim mas, na hora que comecei a me perceber, me fez voltar a grudar no tênis de novo. E eu achei que não ia ser dessa forma. Talvez o fato de eu ter parado muito precocemente tenha ajudado nisso. Na minha cabeça, acho que ficou uma lacuna ainda do envolvimento com o tênis que deveria ter sido feito dentro da quadra se prolongada minha carreira por muito mais anos, e isso veio a se tornar um desafio em outras áreas e muitos deles vinculados ao tênis.

Você tinha projetos do tipo "daqui a X anos eu paro"? Sabemos que alguns atletas fazem esse tipo de planejamento: "Vou jogar mais uns cinco ou seis anos e depois vou parar"...

Não. Na minha cabeça aquilo ainda estava distante. Até mesmo porque eu estava no auge e não tinha nenhuma intenção (de parar). A minha vida sempre foi mais (conduzida) pela sensibilidade, pelo impulso instintivo, do que por um planejamento em longo prazo. As coisas sempre (aconteceram) mais pelo próprio sabor, (pelo) que eu ia distinguindo. E eu ia fazendo coisas mais planejadas a curto e médio prazo.

Passados estes dez anos, o que mais marcou naquela campanha do tri? Quais são suas recordações mais fortes?

Naquele ano, sem dúvida foi minha partida com o (Michael) Russell. Na realidade, naquele jogo, e até agora considero, eu estava fora do campeonato. Ele estava me ganhando por 2 sets a 0, 5 a 2 no terceiro set. Naquela situação, já tinha desistido. Foi algo muito mais do acaso do que da persistência porque, se (bem) me lembro, no match point, eu estava tão desinteressado que cheguei a jogar duas ou três bolas boas as quais não me importava mais se iriam dentro ou fora. Já contava como perdido aquele jogo. Neste lado, o tênis - o esporte como um todo, mas o tênis especificamente - é capcioso ao extremo: um centímetro, às vezes meio... Acertei duas bolas na linha no match point que se fossem fora, eu estaria casa hoje e teria dois troféus só. Em outro ponto (do jogo) a sensação já foi completamente oposta: eu estava com reais chances de vencer a partida, em questão de, no máximo, 30 segundos. Ou seja, (o que eu vivi) foi o oposto dos sentimentos. É um pouco do tênis. Por isso que aquela partida foi, sem dúvida, o maior envolvimento emocional que eu já tive dentro de um jogo de tênis, mesmo a Copa Davis sendo mais importante afetivamente para mim e eu já ter tido momentos incríveis. Ali tudo aconteceu na minha cabeça - frustração por completo e depois a peripécia de passar para satisfação por completo - em um período de duas horas. Conseguir viver tudo isso e depois de dois sets comecei a jogar cada vez melhor, melhor, melhor... Saí daquele jogo com a convicção de que seria o campeão do torneio. Então passei de um resultado frustrante, em qualquer tipo de perspectiva minha para o evento, para já me credenciar literalmente como o campeão. E tudo (aconteceu) em matéria de sensações porque não é palpável isso. Não existe como um objeto. É só na parte abstrata mesmo. Foi muito forte aquilo ali, sem dúvida (vencer aquele jogo) foi mais emotivo para mim, mais valoroso, do que na hora que eu estava levantando o troféu, que eu ganhei o último ponto da final. Para mim, já estava levantando o troféu no momento que eu virei aquela partida. Depois foi uma consequência natural. Tanto é que (foi) desta forma que tentei transmitir: a minha primeira reação de desenhar um coração (depois do jogo Guga desenhou um coração com a raquete no saibro da quadra) foi muito mais no sentido de demonstrar a entrega por completo que eu realmente tenho com o tênis, minha relação com o tênis e com o público, porque eles me ajudaram muito a ir encontrando uma solução (para sair do momento adverso). Aí, na final, eu fiz questão de fazer novamente (o coração) e deixar bem claro que foi uma resultante da situação primária, do jogo contra o Russell. Então, se (alguém me) perguntar sobre aquilo na minha carreira inteira, (qual) foi o (momento) emocional de maior relevância, foi sem dúvida esse jogo.

E a final? Como você estava mentalmente em comparação aos outros anos? Afinal, em 1997 (ano da primeira vitória) você era um azarão e já na terceira decisão de título você estava defendendo a vitória do ano anterior, com uma responsabilidade. Não sei se foi mais difícil ou mais fácil...

Eu progredi na escala. Na segunda final, eu praticamente entrei meio a meio (em termos de chances de ganhar) - não era considerado o favorito naquele jogo, era completamente neutro - e na terceira (final) eu já era um favorito absoluto. Acho que já havia dois ou três anos que eu não perdia para o (Alex) Corretja (adversário da final). Eu havia ganhado dele diversas vezes nos últimos meses. Como fator que poderia me ajudar ou atrapalhar, me atrapalhou mais e ajudou muito mais a ele (Corretja), que conseguiu se erguer e jogar bem, melhor do que em outros jogos que ele disputou comigo. Eu realmente senti essa dificuldade - de não estar enfrentando o mesmo cara que há três semanas ou quatro atrás eu tinha vencido com facilidade. Eu acho que eu já tinha bastante experiência em conviver com esse lance do favoritismo, pois eu havia sido o número 1 do mundo o ano inteiro até chegar em Roland Garros e no ano anterior (2000) já havia vencido muito também. Então, sabia lidar muito com isso, mas Corretja me surpreendeu bastante. Então, neste aspecto, os dois primeiros sets foram completamente iguais, eu diria até com certa vantagem para ele. Acho que demonstrei que eu era realmente mais favorito, que eu tinha capacidade, a partir do momento em que ele desperdiçou a primeira oportunidade e meu jogo foi crescendo, crescendo... Ele baixou um pouco da intensidade que ele estava, o que é natural, e abriu-se um gap (uma diferença) muito grande. Ele me surpreendeu e conseguiu levar o jogo me incomodando o tempo inteiro. E eu me lembro bem: 5 a 5, eu sacando e vantagem dele, que arriscou uma devolução que não costumava fazer, mas estava fazendo e dando certo. Errou de alguma forma por uma questão de centímetros. Se bobear, não chega a um centímetro. Ali vem uma sensação que a chance dele passou para mim. Então começou a entrar um questionamento na cabeça do adversário (enquanto) eu (fiquei) totalmente seguro do outro lado, tanto que no próximo game eu quebrei (o saque de Corretja) e fiz 7/5. A partir daí as coisas se igualaram e eu passei a soltar o braço e acertar, acertar, acertar. Foi interessante porque eu ganhei 6/1 e 6/0 e fiquei, durante uma hora, desfrutando do prazer que é ganhar Roland Garros, coisa que não é natural. No jogo anterior, desde o meu primeiro match point até o último, foi uma hora de sofrimento porque eu conseguia o match point, depois voltava (a vantagem). Foi um parto praticamente. Com o Corretja foi diferente porque pude saborear (a vitória) por um tempo imenso sabendo que aquele jogo eu já tinha conquistado - ele já não estava fazendo força suficiente para resistir. Então isso também foi bacana porque é um privilégio. Normalmente os jogos são acirrados que não dá para ter sensação de vitória (durante a partida). É mais no pós (jogo).

Você acha que ser número do mundo 1 hoje é mais difícil do que na sua época? Acredita que hoje as características do tênis tornaram mais difícil que um atleta como você, que sempre teve saibro como sua melhor superfície, possa prevalecer? A impressão que tenho é de que os tenistas de quadras rápidas estão prevalecendo mais. Você concorda? Como você avalia?

Eu avalio que mudou bastante, mas no sentido de que hoje as superfícies são mais homogêneas: a quadra rápida já não é mais tão rápida e o saibro (também) não é tão lento. Tudo é mais o meio termo. Isso corresponde, em fatos reais, que o (Rafael) Nadal tem condições de ganhar Roland Garros e Wimbledon, assim como o (Roger) Federer já o fez, e o (Novak) Djokovic tem a possibilidade. Acho que desde o período no qual eu comecei como profissional, até um pouco antes, já começaram a puxar a vertente do jogo para um equilíbrio maior, para que o melhor jogador tivesse mais condições de vencer em situações equilibradas. Hoje eles (dirigentes da Associação de Tenistas Profissionais, ATP) chegaram muito próximo a isso. Não sei se fez bem ou mal ao tênis porque que o Federer não perdia nenhum jogo, e se perdia era para o Nadal, e o Nadal não perdia para ninguém. E se tornou até um pouco chato: era sempre Nadal e Federer, Nadal e Federer. Hoje está muito mais interessante com o Djokovic, que vem rompendo (barreiras), e o (Andy) Murray, que é um jogador atraente. Para mim essa mobilidade é mais interessante. Mas o tênis, sem dúvida nenhuma, hoje está (adotando) uma linha, de que (se preparar para) Roland Garros e Wimbledon (os extremos em quadras lentas e rápidas) é (questão) de alguns tipos de ajuste. Não tem nenhum jogador que jogue saque e voleio o tempo inteiro como era antes. As (trocas de) bolas aumentaram. Então a dificuldade de fazer com que o jogo fique tão ligeiro como era antes, de pequenas trocas de bola... (tudo) é muito mais complicado. Consequentemente, os jogadores estão mais velozes, principalmente na parte física. No deslocamento, dá para ver que, cada vez os jogadores são maiores e mais ágeis. Hoje a disputa para ser o número 1 é mais justa porque, na minha época, um cara que era bom no saibro para ser o número 1 tinha muita dificuldade. Eu só fui número 1 porque ganhei uma Masters Cup em uma superfície completamente distinta, que é no carpete e ganhei em quadra dura naquele ano. Só não ganhei na grama porque não joguei - não fui a Wimbledon nem a nenhum outro torneio (de grama) naquele ano. Naquela época, jogar bem realmente em todas as superfícies era mais complexo. Não era fácil de se adaptar à diferentes superfícies. Hoje realmente o melhor tem mais chance de vencer em qualquer tipo de quadra, o que é interessante mas a zebra pode ser ao mesmo tempo desagradável. Depende um pouco de quem está assistindo.

Como você está vendo a ascensão do Djokovic?

É praticamente inacreditável as coisas que vem acontecendo no tênis. É de difícil compreensão porque não se via isso há muito, muito tempo. (As coisas estão voltando para) a época que não era nem Open e ainda não era nem Aberto, como eles chamavam. O cara está ficando 40 partidas, 50 sem perder. O Federer fez isso durante alguns anos, o Nadal ainda faz muito no saibro, até que perdeu para o Djokovic. O que (para mim) é estranho é a diferença que existe hoje entre uns poucos jogadores e a maioria dos outros. Nos últimos 20 anos não tinha tanto isso. O Sampras ficou diversos anos, seis, sete anos como o número um, mas era difícil para ele ficar como número um. Era acirrado. No saibro ele nunca ganhava e tinha (os momentos) de baixa também. Este ano, (a disputa) é (da) largada e até o final. Acho que muito se deve a isso: à similaridade do circuito. O circuito buscou ser mais similar para dar mais condições aos melhores de vencer. E isto está acontecendo. Começam a surgir possibilidades de alguém que possa vencer o Nadal, (coisa) difícil de encontrar no saibro. Aí aparece o Djokovic. Aí o Nadal não perde para ninguém, só para o Djokovic realmente. E ele (Djokovic), consequentemente, não perdeu para ninguém: está 39 partidas invicto, quase rompendo o recorde que era do Villas (na verdade é do americano John McEnroe, 42 vitórias). Eu achei que nos tempos atuais isso não ia acontecer mais. Mas está acontecendo. Os recordes estão sendo quebrados de uma forma constante, todos eles. Se (a gente) for ver os recordes do tênis, quase todos são de jogadores atuais.

Você acha que o Djokovic vem para ficar?

Sem dúvida.

Mas para fazer um trio com Nadal e Federer para disputar os principais torneios ou ele está só em uma fase boa?

Ele (Djokovic) está (há) três anos chegando, chegando, chegando. E é um momento de maturidade porque ele tem 23, 24 anos. É o momento de ele ter essa sensação. Tecnicamente, ele já competia de igual para igual com o Nadal e o Federer, mas mentalmente ele não tinha essa convicção. Esta é uma geração brilhante, eu considero. Alguns ainda são garotos - o Federer um pouco mais velho - só que o que eles estão fazendo e a diferença que eles têm sobre os outros jogadores é admirável porque é uma constância de resultados surpreendente.

Falando em ascensão, e o Bellucci? Ele vem conseguindo um bom progresso ultimamente...

Minha análise sempre foi em termos técnicos e possibilidades que ele tem no futuro. Porque dentro de suas características dá para pensar nas coisas que ele pode conquistar com o tempo. Já não é de hoje que venho dizendo que ele tem grandes chances de ser um dos 20 do mundo. É natural, o jogo dele, bloqueou. Se percebe que ele tem muitos subsídios a mais do que outros jogadores que eu vejo. Também fui questionado quando ele se aproximou do Larri (Passos, seu ex-técnico e técnico de Bellucci) e achei isso a melhor decisão para ambos e o melhor que poderia acontecer para o Brasil. É bom para todo mundo isso, até porque repercutiu três dias seguidos no Jornal Nacional: "o tênis novamente..." Imagino a inspiração para as crianças e, com toda a minha história embutida, vêm tudo à tona. Acho que foi fundamental. E para ele, (o progresso) dá para tirar pelo exemplo particular que foi em Madri: ele não receou para ganhar do Murray e para ganhar do (Thomas) Berdych - dois jogadores entre os 10 do mundo. Na verdade, ele dominou (o confronto) contra os dois jogadores e dominou contra o Djokovic (que eliminou Bellucci na semifinal) até certo ponto. A partir de alguns detalhes ele começou a duvidar, o que é natural também, porque é a primeira experiência dele neste tipo de evento. Mas o que eu considero de maior valor, além do que eu falei, são as possibilidades que tem no jogo dele para enfrentar jogadores bons. Sendo assim, é questão de aprimoramento e aprender a lidar oscilações como a de sair do Torneio de Madri e chegar em Roma na primeira rodada, com uma motivação baixa. Sair de uma semifinal e entrar em uma primeira rodada contra um cara desconhecido em uma quadra lá no final...

E depois pegar o Nadal...

É, teoricamente pega um jogo duro... Mas sair das adversidades que o tênis propõe o tempo inteiro é a lapidação final do tenista. (A forma) como cada um lida com isso (é o) que é definitivo: ela vai dizer se ele vai chegar entre os dez, se ele pode ir mais além ainda. São todos esses detalhes. Mas o jogo dele (Bellucci) é evidente. Eu acho que este ano ele belisca para estar - e já está aí - entre os 20 do mundo. Ele tem chances reais de ser um possível top 10 daqui alguns anos porque eu vejo outros jogadores que foram top 10 recentemente e considero que o jogo dele tem mais potencial do que de outros caras.

Por exemplo...

O (Mikhail): Youzhny: o Bellucci é um cara que saca melhor, tem uma bola mais pesada. Não se mexe tão bem quanto o Youzhny mas também se mexe bem para o tamanho dele. É só aprender um pouco a tornar as jogadas mais ágeis. Outros jogadores: o (Fernando) Verdasco, que há pouco ganhou do Murray e ganhou do Berdych. Eu acho que ainda ele (Bellucci) não está no nível de um Murray e um Berdych ou um Verdasco, mas para estar entre os 20. O tênis é muito uma escala. Ele ganhou do primeiro top 10, que foi o Murray, e agora? Agora foi mais um degrau que ele avançou. No tênis quando se é 100 do mundo não se pode pensar lá na frente, em ser um top 10. É a cada momento "eu estou confortável com essa situação". Primeiro eu avancei, depois eu tenho de estar confortável para avançar para a próxima (etapa). Ou acontecem fatos isolados, como o que me aconteceu depois do meu primeiro (título) em Roland Garros. Eu fui campeão e em uma semana o meu ranking estava em 15 (do mundo). Até eu me adaptar com aquilo demorou um ano. Eu não era um jogador que estava condicionado para ser 15 do mundo. Eu deveria estar a 30, 40 do mundo...

Mas você não estava condicionado fisicamente ou mentalmente?

Totalmente, técnica... (Não estava) preparado para estar entre os 15 do mundo. Esta análise é difícil porque (só hoje) eu conheço o tênis para balancear todos os níveis de importância e botar tudo como se eu estivesse preparado. Mas é muito abstrato. Quando eu paro para analisar o Bellucci ou algum outro jogador é nesse aspecto. Às vezes tem um tenista que belisca um top 10, mas sai de lá e nunca mais vai chegar. E acontece de uma hora para outra. (Foi) o caso do (Martin) Verkerk , um holandês que foi vice de Roland Garros para (depois) ser um 100 do mundo. São coisas que acontecem. Então a gente tem uma análise mais criteriosa. No caso dele (Bellucci), ele é um jogador que há um ano entrou para 30, 30 e poucos do mundo, e ele está totalmente confortável. A tendência daí é estar subindo, porque ele vai aprimorar muitas coisas ainda no seu jogo dele e tem condições de melhorar porque as características dão margem para crescer em vários aspectos.

Mudando um pouco de assunto, sem sair totalmente do tênis, eu lembro que a atual gestão da CBT (Confederação Brasileira de Tênis) tinha muitos planos quando assumiu o comando e a impressão que dá para quem não acompanha o tênis tão de perto é de que as coisas estão andando na velocidade que deveriam. Como você avalia a preparação para aproveitar tudo aquilo que você conseguiu proporcionar, pensando em o Brasil formar no futuro uma escola, assim como, por exemplo, a Espanha?

Aquele momento (meu auge da carreira) foi uma explosão, o ápice, da antiga gestão que foi muito problemática na época. Até o boicote da Copa Davis, quando a gente ficou sem jogar... O tênis chegou, por incrível que pareça, ao melhor e ao pior momento contemporâneo (simultaneamente): os melhores resultados do tênis e o pior momento de gestão. Nos mesmos últimos dez anos e na mesma linha de tempo. Foi muito frustrante para todos que acompanham o tênis e principalmente para a gente, que vive do tênis. Pô, a gente lutou um monte para trazer um torneio aqui para o Brasil, que depois veio, e tudo que a gente podia fazer para ajudar, para tentar melhorar, a gente fazia. Também a minha preocupação maior era com a minha carreira naquele momento. O que ajudou muito hoje é que a gente tem capacidade de contribuir de muito mais formas para o tênis, apesar de não ter tanto impacto constante, como era um dia atrás do outro mexendo com a cabeça das pessoas nos torneios. Eu vejo que a atual gestão, ela vem trabalhando bem, apesar de que velocidade é algo de é quase impossível exigir porque a gente tem de pensar em formar o básico ainda. E isso demora. Para formar um cara capacitado em ser um treinador vai, no mínimo, uns quatro ou cinco anos. Eu vejo que eles estão fazendo alguns projetos pontuais que são bons, projetos com juvenis auxiliando inclusive alguns dos meninos que a gente acompanha aqui bem próximo e alguns que estão na academia do Larri também. Estão rodando o Brasil todo e identificando precocemente os garotos que têm mais qualidade para investir nesses rapazes. Estão investindo em treinadores, mas a gente ainda não tem nem um know how para poder capacitar entende? Então é difícil. O Brasil vive, em todas as esferas, essa dificuldade de mão de obra fundamental, alguém que saiba ensinar mão de obra. Se eu quiser hoje capacitar professores, eu preciso ter pelo menos uns 3 ou 4 grupos de capacitadores. Isso é o que a gente faz no Instituto. Fomentar foi um trabalho de dez anos até que a hoje gente tem um corpo que consegue fazer capacitação da metodologia. A (CBT) tem bons trabalhos e ela vem conseguindo de volta o prestígio de volta, o que é muito difícil. A Confederação foi praticamente incinerada há alguns anos. Hoje, conosco, a relação é super tranquila. A gente procura também facilitar e ajudar sempre a confederação. A intenção é crescer ainda mais. A gente tem até um projeto, que esperamos saia a qualquer momento, para vincular um grupo de juvenis - cerca de 14, 15 jogadores - ao acompanhamento do Larri, como um técnico supervisor da equipe. (Também teremos) alguns treinadores na parte mais de rotina, do dia a dia, para que esses caras também tenham a capacidade de ir aprendendo, aprimorando, e usando essa ferramenta como parâmetro. O vôlei dá muito embasamento. Pelo menos eu procuro enxergar a fórmula de eficiência que eles têm e adaptar à especificidade do tênis a estrutura do vôlei. A gente vem tentando, até com a confederação, bolar um projeto para esses juvenis e botar isso na prática mesmo, de forma pontual, de menor para maior de forma a , uma hora, a coisa realmente vingar. Mas, até tendo como parâmetro o próprio vôlei, isso é um processo: aquela primeira geração que teve resultados com o Bernard em 1984 resultou, quase dez anos depois (1992), (à conquista da) medalha de ouro. A partir daí (de uma medalha olímpica) a coisa anda porque o Brasil tem um potencial para o esporte imenso. Tem qualidade para muitos esportes fora a quantidade de pessoas (para praticar). É igual a China que botou o povo para fazer esportes. Com um bilhão de pessoas fazendo, vai ter gente fazendo bem. Então, construir isso é a grande complexidade na engrenagem. Mas às vezes as coisas não se percebem com tanta facilidade porque a gente quer ver o ótimo. Até dar o giro completo (sair do ostracismo para a vitória)... Depois de dez anos de excelência, o pessoal fala "é o vôlei, é o vôlei". Mas a partir do que surgiu 1992 já havia algo de espetacular acontecendo.

Mas justamente esta é a questão que divide o vôlei e o tênis: o vôlei soube aproveitar os resultados e crescer, mas o tênis teve a Maria Ester Bueno e não progrediu e há o risco de que seu legado não dar frutos no futuro....

O que eu sempre digo: o Brasil no tênis tem de ter, pelo menos, 3 a 5 jogadores entre os 100 do mundo e dois entre os 50. É uma condição normal pela quantidade de jogadores que a gente tem, pela capacidade dos atletas, pelos juvenis. Só que isso dentro de uma estrutura ótima, que funcione bem. Tem coisas boas acontecendo, mas ainda não funcionam bem. E essa é a análise que é feita. Quem não está acompanhando muito faz essa análise: "Pô, não vejo uma estrutura montada boa, adequada."

É que, quando a atual gestão assumiu, eram muitos os planos: fazer um centro de treinamento, (eles contrataram) o Emílio Sanchez... Será que tudo isso está tendo o efeito desejado ou a gente está deixando o cavalo passar encilhado e não vamos montar? Vamos perder o bonde da história de novo?

Eu considero que o centro de treinamento não vai mudar nada. Atualmente, não é o principal. Aconselho sempre eles (dirigentes da CBT) a irem por outro tipo de caminho. Primeiro precisamos de treinadores adequados para gerir o centro de treinamento, senão não adianta: a gente vai colocar a coisa lá e vai produzir errado. Além do mais, a Olimpíada (do Rio, em 2016) teria de legar esse espaço (o centro de treinamento). Podemos ter um centro de treinamento, mas precisa ser só o básico do básico. (Antes,) precisamos ter outros cuidados que são ainda maiores.

Você se identifica com algum jogador da atualidade? Alguém em quadra faz lembrar você em algum momento da carreira?

Não. Atualmente não. Não tem porque nunca me identifiquei. Se for parar para analisar, acho que meu estilo, se for para comparar com esses três (principais) que estão em pauta - o Federer, o Nadal e o Djokovic - tá muito mais próximo do Federer do que do Djokovic e do Nadal: eu tenho a esquerda com uma mão, meus golpes são mais soltos. (Minha) forma de jogar é mais similar a do Federer. Mas, ao mesmo tempo, o interno, a maneira como eu competia, ela já está próxima do Djokovic ou do Nadal, (algo) entre os dois. Eu era um cara mais solto na quadra, ria mais, como o Djokovic. Talvez ele represente mais esta espontaneidade e o espírito com que eu jogava dentro da quadra. Mas foge um pouco de muitas similaridades. Cada um (dos top 2) tem um pouco da forma com que eu jogava.

Agora vamos falar um pouquinho de vida pessoal. Como está a vida de casado? (Guga se casou com Mariana Soncini em outubro do ano passado).

Está boa. Aliás casamento é o que mais tem acontecido na minha vida (conta que a maioria dos amigos também está se casando).

Mas interfere no seu planejamento de trabalho no que diz respeito ao tênis? Por que vai ter um momento que a família vai exigir um pouco mais...

Foi uma decisão própria no sentido de terminar toda a minha carreira para poder ter esse momento mais particular para a família. Eu tenho necessidade de estar próximo para iniciar esta etapa. Então, para mim, apesar de estar envolvido em projetos, eu estou muito mais presente (em família). É incomparável (com meu tempo de tenista). É bom estar com a minha cabeça desenvolvendo estratégias, ideias, e vinculado à família. Sempre estamos todos juntos, dia das mães com as duas famílias reunidas. Projeto para também futuramente ter filhos. Eu casei há pouco tempo.

Falando em filhos, faz planejamentos em relação a isso?

Faço, mas não faço. Tenho total interesse em ter filhos, mas não sou de "ah, (vai ser) no ano que vem, então vou me planejar para aproveitar agora..." Vai vir naturalmente. Eu não gostaria é de ter um filho antes de ter me casado, ter encontrado alguém para compartilhar dessa experiência e (quero) fazer parte da vivência com meu filho. Então, agora que estou mais próximo (da família), estou avançando nesse caminho (da paternidade) e é até a pergunta que eu mais escuto. Antes era quando que eu ia casar, agora é quando que vou ter filho. Eu diria que estou pronto para passar para o próximo estágio. Avançar e passar para a próxima pergunta.

Já que você falamos sobre filhos, você pensa em ter um filho seguindo a sua carreira? Afinal tem o lado duro (de ser tenista) e você conhece outros esportes, como o surfe, e teve a oportunidade de viajar o mundo inteiro... Se um filho seu dissesse "eu quero ser tenista", o que você faria?

Eu me preocupo muito mais em estar presente, eu estar de acordo com as expectativas dele, ter um relacionamento legal. O tipo de esporte...Bem, eu vou tentar incentivar para o esporte sem sombra de dúvida. Eu acho que o esporte é um aprendizado para a vida espetacular. Tentarei criar (meu filho) da forma que eu tive a oportunidade de ser criado. Eu aprecio muito a maneira como minha mãe conseguiu proporcionar para a gente a infância, passar pelas etapas da vida e desfrutar desses momentos de ingenuidade, de alegria, sem compromisso. Vou tentar eu curtir a relação com meu filho. É difícil ter a noção, prever, se vai ser homem, ou mulher, se vai ser para o tênis... Eu considero muito a vida dele. Vai ser a vida de outra pessoa que vou ter a oportunidade de estar próximo e ter um envolvimento, uma responsabilidade, mas é (adotarei) o critério usado comigo. Sempre tive a oportunidade de estar tomando minhas próprias decisões. Vou fomentar informações para ele para que ele faça as coisas certas.

E se você tiver um filho tenista? Qual a primeira coisa que você faria para prepará-lo melhor?

Escolher um professor bom. Não está fácil... Mas acho que começa na base. A gente tem muitos casos nos quais o garoto desiste do tênis porque o tênis é um esporte individual e difícil. Ele vai contra as nossas necessidades iniciais: brincar, fazer coisas mais simples, mais fáceis. Hoje existem novos métodos que dão a possibilidade de uma criança aprender com quatro anos, com uma raquetinha e aprender direito já. Eu brinco (lembrando) que, com cinco anos, eu carregava uma raquete maior do que eu. Tinha de carregar com as duas mãos e jogar - era de qualquer jeito. Mas era divertido para mim, era gostoso e eu fiquei no tênis. O que eu aconselho para os pais é isso: um bom professor, não no sentido de já se preocupar com a direita do menino, com a parte técnica, mas (no sentido de) ser algo lúdico, que ele tenha um interesse e uma sociabilidade. Não precisa, com cinco, seis anos, ter um professor que fique uma hora só com aquele menino todos os dias. Tem de ser uma coisa mais em grupo, tem de ter um ambiente mais favorável. E tem a parte técnica obviamente - quanto melhor o professor, quanto mais apto ele estiver a estar condicionar o menino, já vamos ganhando tempo.

Isso tem a ver com a sua recente iniciativa de trabalhar com formação de atletas? (Há seis meses Guga abriu em Florianópolis uma academia para crianças). Esse sentimento gerou em você esta necessidade?

Gerou. E é o que vai acontecer no tênis. A gente faz pesquisas e depois de alguns estudos detecta algum objetivo ou algum buraco do tênis e vê no que você pode ser útil - até mesmo junto com a confederação, fazendo algumas coisas paralelas. A gente iniciou a semana Guga aqui, um evento para resgatar um pouco mais o tênis juvenil no sentido da competição, para eles (os jovens atletas) terem novamente a ambição de estar ali e não pensar somente no profissional. Foi o que aconteceu quando eu comecei a me destacar: todos os meninos de 14 anos queriam ser profissionais. Existe um momento em que o juvenil precisa ser juvenil e desenvolver naturalmente as coisas naquele estágio. Fizemos aquele evento para buscar isso, foi bem legal. Deu super certo desde o início. Agora começamos com a escolinha. O que eu mais escutava (em termos de pedidos e reclamações)? Começou assim essa pesquisa de campo. "Onde é que eu boto meu filho para jogar tênis?" "De onde é que ele é?" (Eu respondia:) "Não sei, não sei." Não me sentia muito confortável para indicar para as pessoas, mesmo sabendo de diversos professores em locais diferentes. Temos diversos técnicos trabalhando, mas não tinha essa certeza (de indicar), porque, na época que eu aprendi a jogar tênis, os que trabalhavam com iniciantes eram muito bons professores. Ele era muito bom e dava aula para todo mundo, tinha 15 anos de tênis, 20 anos de tênis. Quando eu ganhei Roland Garros houve uma procura de milhares de jogadores de tênis e, consequentemente, inúmeros professores surgiram. Na escala, esses caras, esses novos professores, que teriam menor importância, foram dar aulas para os iniciantes. Onde era para preparar melhor, começou a preparar pior. Então (criou-se) uma grande deficiência e hoje há trabalho para tentar reverter isso - começar a trabalhar mais (o professor) com o clube novamente. O garoto que quer ser professor da escolinha tem muito valor, e assim como outras profissões, e específica a de professor, ela cada vez ela está mais desvalorizada. Todo mundo quer viajar com o profissional, estar em uma academia treinando e às vezes até financeiramente dá mais lucro dar aula social. O cara que sobrou tem espaço na escolinha para dar aula e aí ficou (para os iniciantes) uma mão de obra não capacitada. Hoje a confederação vem fazendo alguns projetos de capacitação e (criação de) critérios para a capacitação de alguns professores. Acho que ainda é preciso melhorar bastante esse projeto, aprofundar mais para ter um rigor ainda maior. Deveria ter (critérios) em todas as etapas, dividindo, assim, em iniciação, depois em formação e aí depois já vem para o juvenil e a transição para o profissional. Em todas as etapas, diferentes professores: este cara está credenciado nível A, para ser professor até 8 anos, no outro estágio ele é nível C, não é A... Mais aprofundada. Ainda acho que os critérios são muito "tem condição de ser professor, ainda não é bom, é muito bom, é médio" mas não diz se serve para trabalhar com pedagogia, que é uma questão (importante) para trabalhar em uma criança de oito anos, se é para trabalhar com lazer... Aí é que houve muita mistura. Isso tem de estar mais claro, mas, como eu já falei, isso é pedir o ideal. Mas tem de buscar, o objetivo é esse.

E quanto à programação para o tri de Roland Garros, a comemoração desses dez anos? Você vai para lá (Paris)? Vai ter alguma coisa lá? Vai ter alguma coisa por aqui?

Eu estou indo para lá dia 30 (de maio) ou dia 1º (de junho). Eu tenho um evento que eu vou participar lá o faz já fiz parte no ano passado, quando recebi aquela premiação da ITF (Prêmio Philippe Chatrier, da Federação Internacional de Tênis). Não sei se este ano eles vão me entregar alguma coisa ou eu é quem vou entregar - provavelmente é isso que deve acontecer. Lá com certeza vai ter alguma homenagem porque eles estavam sondando à respeito aos 10 anos, em relação à Lacoste. Eles estão organizando alguma coisa e querem que eu esteja disponível lá, se eu não me engano, no final da semana. E depois, aqui, eu sei que o banco (Banco do Brasil, seu patrocinador) está programando uma homenagem para fazer no próximo dia 10. Por enquanto é o que eu sei. Não terei tantas atividades. Deixa eu ver....O exército entrou em contato querendo fazer uma homenagem.

Vai ter os Jogos Mundiais Militares no Brasil.

Este ano?

É...

Talvez seja isso. Esse ano todo tem muita referência a esse negócio dos dez anos. Aí volta e meia pinta alguma coisa, atividades relacionadas a isso, mas agora em Roland Garros e com a data, com certeza vai pintar mais coisa.

E o Avaí, vai ser campeão da Copa do Brasil?

A gente fica na torcida. Depois que ganhou do São Paulo nossa esperança aumentou.

Tem promessa? Se ganhar você irá a todos os jogos da Libertadores? (O campeão da Copa do Brasil se classifica para a Taça Libertadores da América do ano seguinte)

A tendência é essa. Esse ano que passou quase fui ao Equador para assistir (o Avaí) em Guayaquil que é a cidade do Lapentti (Nicolas, ex-tenista). Ele me convidou e eu só não fui porque tinha um compromisso, acho que eu estava nos Estados Unidos na época da Sul-Americana. O Avaí já estreou na Sul-Americana. Estamos indo, devagarzinho. Se não pegarmos Libertadores este ano, pegamos no ano que vem.

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