Éramos os maiorais

O Brasil vivia um momento delicado em 1962. A tensão política e social crescia. João Goulart havia assumido a presidência, um ano antes, após renúncia de Jânio Quadros, e à boca pequena se falava em conspiração em andamento. Pairava no ar sensação de instabilidade, de nervosismo, de golpe. Revolução...

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2012 | 03h01

Sentimentos duros, dava pra perceber nas conversas na quitanda do Juá, na Tenente Pena, ou na padaria do sr. Domingos, ou na farmácia do sr. José. Até no açougue do sr. Osvaldo se falava que a "coisa tá feia". O tio que fazia entregas numa fábrica de móveis dos "três espanhóis", na rua dos Italianos, todo fim de tarde vinha com novidades que ouvia por aí. "O tempo vai fechar..."

Devia ser algo muito sério, porque alguns falavam que logo, logo, teriam de estocar comida, mas só perturbava os adultos. Os olhos e as preocupações de menino estavam voltados para a bola, para o scratch brasileiro, que, naquele domingo, 17 de junho, tentaria o bicampeonato de futebol. Isso era importante! A seleção estava mais uma vez perto de ganhar a Jules Rimet e as emissoras de rádio tocavam a toda hora: "A taça do mundo é nossa, com brasileiro não há quem possa. Ê-eta esquadrão de ouro, é bom no samba, é bom no couro." Musiquinha animada, de arrepiar.

A turminha da rua arrumou ripas, tocos de árvores, palha, jornal; amontoou tudo na calçada em frente ao Desinfetório (na Tenente Pena). Uns cataram batata doce e pinhão, outros providenciaram bombinhas, os mais atrevidos compraram rojões (de um tiro só) e morteiros de 200. Havia a promessa de algumas mães de fazerem pipoca e quentão! Sem cachaça, claro, só água, açúcar e gengibre. Em cima da hora, apareceram uns balões chinesinhos (do Corinthians e do Palmeiras, pra não dar briga), que o pessoal soltava aqui e pegava lá na esquina.

A festa estava armada, porque era certo que o Brasil ganharia da Checoslováquia. Os caras não são de nada, afirmavam os mais entendidos. São de fritar bolinho, é? Não é o que parecia, quando o Masopust (nome esquisito) fez 1 a 0 pra eles. O speaker do rádio até gritou meio sem graça o gol dos branquelos, pois eram muitos brancos, sim, dava para ver nas fotos dos jornais e pelo videoteipe que passava no dia seguinte.

O olhar cúmplice da turma dos sete amigos da Tenente Pena (na Record passava a Turma do Sete) era de apreensão, mas de acordo implícito de que a fogueira arderia de qualquer jeito, com ou sem a taça do mundo. A esperança renasceu logo depois com o gol do Amarildo, sujeito esquentado, que substituiu o Pelé, coitado, machucado e só na torcida.

Demorou uma eternidade, a turma andava impaciente, até que Zito fez 2 a 1, no segundo tempo, e Vavá, o terceiro. Não tinha mais jeito, dali em diante foi um foguetório só, o Brasil era demais! "Vocês vão ver como é Didi, Garrincha e Pelé, dando seu baile de bola..." A festa só não entrou noite a dentro, porque no dia seguinte tinha aula no Externato Santo Eduardo, era preciso acordar cedo.

Éramos os maiorais, éramos crianças. E não nada mais forte do que lembranças de infância. Por isso, 50 anos depois, não há como esquecer Gilmar, Djalma Santos, Mauro, Zózimo e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Amarildo, Vavá e Zagallo.

Cruzei com muitos deles, já como repórter. E sempre tive vontade de fazer uma reverência para cada um desses mitos. Que me encantaram quando era pequeno, que me deixam com olhos cheios de lágrimas, enquanto escrevo esta crônica.

A bênção grandes heróis.

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