Escândalos mancham imagem do sumô, símbolo milenar da cultura japonesa

TÓQUIO - O sumô, um dos símbolos milenares da cultura do Japão, enfrenta uma séria crise por um escândalo de combates combinados, que pôs no olho do furacão seus corpulentos lutadores, considerados guardiães da tradição.

MARIBEL IZCUE, Efe

07 de fevereiro de 2011 | 10h11

O caso levou ao cancelamento do Grande Torneio de Sumô, que estava previsto para começar em 13 de março em Osaka, em uma decisão sem precedentes anunciada no domingo pela Associação de Sumô do Japão (JSA).

O escândalo veio à tona na última quarta-feira, quando uma investigação policial descobriu que vários lutadores, inclusive alguns de categorias superiores, estavam combinando o resultado de vários combates.

A notícia logo foi parar na capa dos principais jornais japoneses e abalou a reputação do esporte, que nos últimos anos passou por algumas turbulências depois da divulgação de casos de envolvimento de lutadores com drogas, violência e até mesmo corrupção.

A disciplina é a base fundamental do código de conduta dos lutadores de sumô, de quem é exigido um comportamento exemplar dentro e fora do ringue.

Por isso, milhões de torcedores japoneses reagiram com indignação diante deste novo escândalo, revelado graças às mensagens interceptadas de telefones celulares de um lutador e um treinador de sumô, que, aparentemente, combinavam os resultados dos combates.

A Polícia apreendeu os celulares no ano passado, no marco de outra investigação sobre uma rede de apostas irregulares controlada por grupos criminosos.

Após a revelação do caso, dois lutadores, Chiyohakuho e Enatsukasa, admitiram à JSA ter combinado o resultado de combates e ofereceram sua retirada, enquanto um painel independente abriu uma investigação sobre outros 12 lutadores e treinadores.

Esta é a primeira vez que um Grande Torneio de Sumô é suspenso desde 1946, porém, na ocasião, o motivo para o cancelamento foi o atraso nas obras de restauração do estádio de Tóquio, danificado pelos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

A investigação, que segundo a televisão NHK poderia prolongar-se por até dois meses, abriu uma nova rachadura na imagem de respeitabilidade do sumô, uma prática que combina esporte com ritos tradicionais e xintoístas.

Suas origens remontam a cerca de 1,5 mil anos atrás. Os primeiros combates eram realizados em templos, como um ritual dedicado aos deuses que mistura danças e orações para uma colheita abundante.

No século VIII, o sumô passou a fazer parte de cerimônias da Corte Imperial e, a partir do século XII, se estendeu ao campo militar para melhorar a capacidade dos guerreiros.

No entanto, foi no período Edo (séculos XVII a XIX) que os combates tornaram-se populares entre as massas, e atualmente existem cerca de 800 lutadores profissionais no Japão.

Apesar de sua corpulência - costumam pesar entre 120 e 280 quilos - os lutadores de sumô mostram grande agilidade, fruto de anos de treinamento pesado.

Cada combate é precedido por um solene ritual que inclui movimentos como aplausos para chamar a atenção dos deuses. Além disso, eles costumam estender os braços para mostrar que estão desarmados ou lançar sal sobre o ringue.

Embora esta seja a primeira vez que um torneio foi suspenso, o mundo do sumô enfrentou outras polêmicas nos últimos anos.

Um dos casos mais famosos ocorreu no ano passado, quando o mongol Asashoryu - um célebre campeão de sumô - se viu obrigado a se aposentar após se envolver em uma briga em Tóquio.

Nesse mesmo ano alguns lutadores foram suspensos ou rebaixados de categoria por um caso de apostas ilegais, enquanto em 2009 vários foram expulsos por fumar maconha.

Em 2007 houve outra polêmica suscitada após a morte de um jovem lutador durante um treinamento, o que provocou questionamentos sobre as técnicas utilizadas no treino dessa luta.

As acusações de combates combinados já tinham circulado no passado no Japão, mas a JSA sempre as qualificou como "calúnias".

Tudo o que sabemos sobre:
sumôJapãoescândalos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.