Benoit Tessier/Reuters
Benoit Tessier/Reuters

Atletas precisam se posicionar sobre racismo e política? Especialistas analisam o assunto

Pressão das redes sociais chegou para ficar, mas devem ser compreensivas, já que 'nem todo atleta possui competência intelectual para falar sobre um determinado assunto'

Raul Vitor, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2020 | 10h00

As consecutivas manifestações antirracistas nos Estados Unidos em decorrência da morte de George Floyd, assassinado durante uma abordagem policial, desencadearam o posicionamento de diversos esportistas ao redor do mundo. A pressão proveniente das redes sociais por uma tomada de partido jogou luz a um debate sobre a necessidade de posicionamento de atletas. Neymar, por exemplo, não havia emitido sua opinião em relação ao movimento contrário ao racismo, até que o youtuber e digital influencer Felipe Neto tivesse chamado sua atenção.

Esse tipo de conduta, no entanto, é uma novidade. Apesar da necessidade dos fãs de saberem o que pensam seus ídolos sempre ter existido, a pressão e engajamento das redes para obter essas respostas é, de certa forma, recente. Por isso, o Estadão entrou em contato com especialistas da comunicação, com a intenção de entender como as empresas, que fazem essa ponte entre ídolo e fã, convivem com a nova realidade.

Pedro Corrêa, executivo da Triple Comunicação, agência que cuida da imagem de mais de 30 atletas, entre eles Alisson, Dudu, Rodrigo Caio e Diego Tardelli, afirma que a relação entre os esportistas e seus seguidores é construída diariamente e as pessoas que a acompanham sabem de seu histórico de engajamento. "No geral, a internet e as redes sociais colocaram os fãs e atletas quase que em contato direto. Então, quem acompanha mesmo uma determinada personalidade já sabe o que ela pensa, a sua linha de atuação, alguns de seus hábitos. O seu posicionamento é quase uma consequência da sua atuação no dia a dia. Quem observa esse histórico não fica refém de uma hashtag para saber como seu ídolo pensa, mas estará seguro e saberá avaliar se ele é ativo às causas humanitárias, se prefere ficar mais neutro ao que acontece no mundo, se faz parte de polêmicas ou se, simplesmente, nem liga para redes sociais", explicou.

O especialista reitera pela liberdade de expressão e pondera que a tomada de posicionamento de um atleta tem um peso grande para seus fãs, diferenciando-se de uma mera opinião. "Como profissionais de comunicação, orientamos os nossos clientes a postarem de maneira consciente e analisar os prós e contras do que cada uma de suas ações podem lhe causar, seja em dano de reputação de imagem, prejuízos financeiros e até dores de cabeça com seus empregadores. Lembramos sempre que, ao contrário de pessoas anônimas, a opinião deles tem um peso muito grande. Não representa apenas o que ele acha sobre um determinado assunto. Ela carrega o sentimento de fãs, cores de um time, respeito aos companheiros, interesses de dirigentes e patrocinadores. Nem sempre esse quebra-cabeça de ideias vai na mesma direção, mas, quando há um entendimento de que o atleta está sendo honesto à sua história e seus valores, o que é primordial, certamente, seu posicionamento será bem recebido por grande parte de seus fãs", disse Corrêa.

Outro fator que fez com que o debate em torno dessa temática se aflorasse nos últimos meses foi o silêncio de Michael Jordan em relação a apoiar ou não a candidatura de Harvey Gantt, em 1990. Isso porque o quinto episódio da série “The Last Dance”, lançado no início de maio, recordou o acontecimento do século passado.

Gantt, na época, tentava ser o primeiro senador negro da Carolina do Norte, pelo partido democrata, e tinha como seu adversário, Jesse Helms, favorável à segregação racial, pelo partido republicano. No documentário, Jordan alegou à sua mãe que não defenderia publicamente alguém que não conhece, embora tenha afirmado que ajudou candidato em sua campanha.

Além do caso de Jordan, outro episódio do passado, que ajuda a engrossar o caldo deste debate e está sendo resgatado nos últimos dias, é retomada de movimentos oriundos do futebol pela democracia. Movimentos estes, que surgiram com Sócrates, idealizador, ao lado de Casagrande e outros atletas, da chamada Democracia Corinthiana.  

Acaz Fellagger, jornalista formado e proprietário da assessoria Fellegger Und Fellegger há mais de 20 anos, que contempla atletas como Daniel Alves e treinadores como Luiz Felipe Scolari, afirma que no passado não havia uma cobrança exacerbada por um posicionamento, mas com advento das mídias sociais, iniciou-se um processo de patrulhamento dessas personalidades. "Nem sempre o atleta tem uma opinião formada ou possui competência intelectual para falar sobre um determinado assunto. Há casos, que ele simplesmente não quer se posicionar e ele tem esse direito. Porém, a internet e as mídias sociais fazem um patrulhamento em cima de todos. Você é obrigado a se manifestar, é chamado a se manifestar e, por vezes, há uma contradição, quando, mesmo se manifestando, o atleta está errado. Sempre haverá três lados, a favor, contra e neutro e por mais que você se posicione em qualquer um desses espectros você será cobrado", disse o especialista, que ainda alerta para a falta de profundidade dessas discussões.

"É uma discussão rasa, não tem nada de aprofundada. É diferente de um Afonsinho ou de um Sócrates nos anos 70. A internet obriga, mas deve-se respeitar todos. Se um atleta quer se posicionar, nós procuramos entender se ele possui conhecimento do assunto e alertamos que sua fala irá gerar consequências, mas a palavra final é do atleta. Sempre segui essa recomendação, mesmo quando não havia a pressão das redes", explica Fellegger.  

Corrêa acredita que a vontade dos atletas de emitirem suas opiniões seja positiva, já que são exemplos para milhares de fãs. O especialista afirma que o movimento de cobrança que presenciamos hoje não tem volta. "Acho muito positivo que o atleta tenha voz e queira emitir a sua opinião. É uma corrente crescente, puxada pelos grandes astros e que tem sido acompanhada pelo pessoal mais jovem, que possui mais força. Penso que seja um movimento sem volta e, hoje, está mais do que claro que o trabalho do esportista não se resume ao que faz em campo, mas, também, como se comporta fora dele”, disse e acrescentou: "Se olharmos para o cenário atual, 90% dos atletas que estão na ativa, já estão completamente inseridos no mundo digital, os demais 10% já vivem conectados há um bom tempo".

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