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Paulo Calçade
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Espelho, espelho meu

No auge da crise, da maior sequência de derrotas da história do São Paulo, é difícil imaginar a arquibancada serena e controlada. Torcedor é paixão incendiária, é incontrolável. Nesses momentos, é natural que o fracasso seja dividido e distribuído até com certa dose de injustiça. Do goleiro ao atacante, do roupeiro ao presidente caricato, todos têm culpa.

PAULO CALÇADE, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2013 | 02h12

Mas curioso mesmo é ver torcedores organizados, que não deveriam poupar ninguém, manipulados para excluir Juvenal Juvêncio da lista de responsáveis. Nos piores momentos, cartolas são cartolas, são sempre culpados, pelo menos na visão da torcida. Não é o caso do São Paulo.

O vilão, para esse segmento da torcida, está do lado de fora, em quem sonha com o poder. Caso específico do médico Marco Aurélio Cunha, vereador paulistano, uma das poucas pessoas capazes de mergulhar na crise e puxar a tampa do bueiro. Tem ótimos serviços prestados à instituição, mas os "racionais" da arquibancada o encaram como uma ameaça. Que ameaça, de dar certo, de funcionar?

O clube da fé, que se autodenomina soberano, foi parar num buraco que nunca imaginou. Colocou o pé na mesma lama que tantos outros pisaram, especialmente o Corinthians, o grande rival, hoje no melhor momento dos seus 102 anos, agora identificado com a organização e a estabilidade ensinadas pelo próprio São Paulo.

O tempo passa rápido demais, inclusive no futebol. As vitórias de ontem não garantem o sucesso de amanhã. O Soberano ensina isso também. Definir os jogadores como mercenários é simplista demais. Mesmo num campeonato em que o Botafogo desafia o atraso constante de salários com vitórias.

Isso deixa o são-paulino louco. Como seu hotel seis estrelas e a infraestrutura exemplar poderiam falhar? Há uma série de explicações para o desmantelamento da antiga comissão técnica, mas é fato que o clube não conseguiu recuperar o padrão anterior, principalmente no plano diretivo, onde são tomadas as decisões estratégicas.

Atacar apenas os jogadores e poupar a direção das cobranças vai na contramão do manual do torcedor. O chamado "comum", que ainda carece de uma definição melhor, enxerga o momento sem travas ou interesses. Já os "organizados" são bastante seletivos. É muito estranho.

Não é difícil entender o motivo de Rogério Ceni enxergar o clube parado no tempo. Aos 40 anos, mais de mil jogos com a camisa tricolor, não fez um simples desabafo. É o peso da autoridade de 20 anos no gol do time.

O problema maior está no campo, pois somente ele será capaz de estancar a crise, mas quem está do lado de fora não ajuda. Com apenas nove partidas realizadas, quase uma quarta parte do campeonato, é cedo para pintar uma tragédia, embora o principal elemento do caos esteja bem claro e reluzente na equipe: um profundo desequilíbrio psicológico.

Jogar mal é apenas uma fração do problema, é a cabeça ou o rabo da crise. A confiança abalada dificulta a percepção de quem é quem nos momentos mais difíceis. Por onde começa a recuperação? Pelos treinamentos ou pelo divã? Quem escalar no momento em que o gol adversário fica pequenininho? Difícil responder. E o pior é que o campeonato não dá trégua. O Cruzeiro usou a fragilidade emocional do São Paulo para marcar três vezes com Luan.

O herói da vitória cruzeirense é o mesmo jogador que, injustamente, boa parte da torcida do Palmeiras queria ver longe após o rebaixamento. Ficou marcado como um dos responsáveis pela queda. Na divisão de competências e responsabilidades, a questão emocional tem uma parcela gigantesca no resultado. Voltamos ao exemplo do rival que tanto incomoda. Para o bem e para o mal, para cima e para baixo, o Corinthians mostra a força do seu momento, de sua organização. Enquanto isso, parado no tempo, o São Paulo pergunta ao espelho o que está acontecendo.

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