Esperança com raquete e peteca

Graças a um projeto social, jovens da favela da Chacrinha encontram no badminton o caminho para o esporte

Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Chacrinha é nome de três favelas no Rio. Uma delas, na zona oeste da cidade, recebeu ontem uma comitiva de canadenses que participam do Pan, deslumbrados com tudo o que viam: pequenas casas de alvenaria em construção, ruas estreitas de terra batida, mulheres com baldes d?água na cabeça. Não era um passeio turístico. A visita atendeu a um pedido de duas atletas de badminton, Fiona Mckee e Charmaine Reid. Elas conquistaram medalha de prata nos Jogos do Rio e queriam conhecer o projeto de inclusão social iniciado há nove anos na favela.O principal foco do trabalho é a criação de um centro de treinamento de badminton, que já funciona provisoriamente no local, com 80 crianças e adolescentes. McKee e Reid encantaram-se com a recepção e até disputaram algumas partidas com os novos admiradores. "Elas jogam muito bem", rendeu-se Fábio Soares, de 10 anos, convocado pelo técnico Sebastião Dias de Oliveira para um rápido duelo com Charmaine Reid. Como retribuição, levou para casa uma bandeira do Canadá, autografada."O esporte me ensinou muito na vida, a perder, a vencer; sempre foi uma experiência fantástica para mim", disse Reid, num discurso emocionado diante de jovens que achavam graça do inglês fluente da moça enquanto aguardavam a tradução. "Meu objetivo na vida é representar o Brasil no Pan-Americano de 2015 e disputar uma olimpíada", contou Ygor Coelho, de 10 anos. Descalços, o menino e seu irmão, Lucas, de 4 anos, deram uma exibição para os visitantes e arrancaram aplausos do presidente do Comitê Olímpico do Canadá, Michael Chambers. "Para nós, o Pan-Americano do Rio não seria o mesmo se não viéssemos aqui", declarou. "Somos privilegiados."Aos poucos, a rua esburacada e de acesso difícil do futuro centro de referência de badminton passou a ser ocupada por moradores e vizinhos. O pedreiro Valter de Souza, de 42 anos, elogiou a iniciativa de Sebastião, o precursor do projeto, e disse que o esporte na favela afastou muitas crianças de situações de risco. "Até cinco, seis anos atrás, a comunidade era violenta, havia um ou dois homicídios por semana", contou. "Agora vivemos em paz e o badminton ajudou bastante nessa mudança." Na verdade, a favela colheu os frutos do incentivo ao esporte ao mesmo tempo em que se curvou a um novo sistema de controle. Antes, era dominada por uma facção criminosa ligada ao tráfico de drogas e sempre em confronto com grupos rivais, das favelas vizinhas São José, Quiririm e Bateau Mouche. A partir de 2002, a Chacrinha virou um reduto de unidades paramilitares - conhecidas no Rio como Mineira.Antes da saída do comboio da Vila do Pan, houve até um certo receio de que a favela escolhida para a visita fosse a Chacrinha da Tijuca, próxima aos Morros da Formiga e Borel, uma região muito insegura no Rio. O motorista oficial da delegação canadense, Paulo Roberto Meira, estava preocupado. "Vamos para a Chacrinha. Lá, a chapa é quente." Depois, ao ser informado sobre o roteiro correto, ficou mais tranqüilo.Alguns jornalistas canadenses registraram a manhã alegre das duas atletas e das crianças. Eles queriam captar detalhes da reação dos anfitriões. E perguntavam a todo instante o que diziam entre si meninos e meninas. Fábio Soares botou no peito, orgulhoso, a medalha de Fiona Mckee. E não se preocupou com protocolos. "Você pode me dar?" O olhar e o gesto do garoto dispensavam tradução. Mas a resposta veio apenas num sorriso educado e gentil. Andrei Lobato, de 12 anos, também teve a chance de se sentir campeão por alguns segundos. Estufou o peito para uma foto e perguntou à Charmanie Reid se podia beijar sua medalha. Com a autorização, fez pose, ergueu os braços e festejou como se estivesse vendo um gol do time do coração. FUTEBOL EM SEGUNDO PLANOA analogia com o futebol, na verdade, não retrata o perfil de quem joga badminton na Favela da Chacrinha. "Sou Vasco, mas não ligo. Nem tenho bola em casa", comentou Lobato, sem largar a raquete. Fábio Soares segue a corrente. Ele disse que até já convenceu alguns colegas da escola a trocar a bola por uma raquete e peteca. Ygor Coelho, há seis anos envolvido com badminton, foi o mais direto de todos. "No futebol sou um perna-de-pau", escancarou. O badminton se assemelha com o jogo de tênis - dispõe de quadra com uma rede no meio e raquetes para os atletas. No lugar da bolinha, entram as petecas. O projeto da Chacrinha, idealizado por Sebastião Oliveira, ex-interno da extinta Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), conta com o apoio de empresas privadas e da promessa de ajuda do governo federal. "Em pouco tempo, o esporte na Chacrinha já afastou dezenas de crianças destinadas a outros caminhos, os que lemos todos os dias nas páginas policiais dos jornais. Nossa comunidade (de 15 mil pessoas) já identificou no badminton uma esperança", afirmou Sebastião, pai-coruja dos craques mirins Lucas e Ygor Coelho. "O próximo passo é sair da esperança para a realidade. E isso já está perto."

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