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Esperanças abandonadas

Milhares de africanos vão à Europa com o sonho de se tornar craques, são largados e vivem ilegalmente

Jamil Chade / PARIS, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Samuel tinha 14 anos quando se viu sem visto para permanecer na França e sem time que o aceitasse. Transformou-se em mais um dos milhares de africanos ilegais na Europa, ao lado de seus irmãos David e Etienne. Correu não por uma bola. Mas para não ser pego pelos agentes de força da França que o expulsariam se descobrissem que não tinha visto. Anos depois, conseguiu reverter seu destino e se tornar um dos africanos mais conhecidos mundo.

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Samuel, ou Eto"o, escapou das ruas. Voltou para a África e aguardou o dia em que de fato conseguiu visto e uma real oportunidade num clube. Mas milhares de outros africanos que desembarcam na Europa sonhando ser craque acabam abandonados nas periferias de Paris, Lyon, Milão ou Madri. De esperança de astros, viram problema social e passam a ser vítimas do tráfico de seres humanos.

O Estado teve acesso a documentos e fichas da ONG Foot Solidaire, no bairro de Saint-Denis, o mesmo onde está o Stade de France. Preparados em cooperação com a polícia local, eles mostram uma triste realidade. Para garotos do continente mais pobre do planeta, o futebol é uma das raras oportunidades de sucesso e representa mais do que ganhar na loteria em seus países de origem. A situação é desesperadora: 65% dos jovens com menos de 24 anos na África vivem ainda hoje em miséria extrema, com menos de US$ 2,00 por dia. A taxa de má nutrição chega a 39,9%. Para alguns traficantes que são falsos empresários do futebol, esses garotos são bilhetes premiados.

Os casos registrados pela ONG mostram dois tipos de êxodo de crianças da África para a Europa. O primeiro é chamado de "oficial". Clubes como PSG, Monaco, Ajax e Feyenoord abriram escolinhas em vários locais da África para conseguir ter acesso aos atletas antes mesmo de eles terem idade para ser negociados. O Manchester United chegou até a comprar um time da 2.ª Divisão da África do Sul.

Ainda que preocupantes, não são esses esquemas os que mais assustam. O real problema é a proliferação de falsos agentes que prometem transformar jovens em craques e os levam para a Europa em troca de um montante de dinheiro. O problema, segundo a investigação, é que esses agentes não passam de traficantes de seres humanos.

Oficialmente, as federações africanas exigem que todas as escolinhas em seus países sejam registradas. Mas dezenas delas operam na clandestinidade. Só em Acra, capital de Gana, são quase 100 escolas sem registros operando normalmente. Nesses locais, os supostos agentes formam jogadores e, depois, lhes prometem levar para passar pela peneira de grandes clubes europeus. Pelo serviço, cobram entre US$ 700 e US$ 6 mil. Desesperadas para sair da pobreza, famílias não sabem que estão pondo seus filhos em um esquema do crime organizado e aceitam pagar o alto preço.

A primeira surpresa vem na fabricação do passaporte. A nacionalidade de muitos é mudada para facilitar a entrada nos países europeus. Vários jogadores hoje na França e na Europa que se dizem da Costa do Marfim são, na realidade, de Burkina Fasso. A segunda surpresa é a mudança na idade das crianças. Alguns, já perto dos 18 anos, se tornam mais jovens, com a elaboração de novas certidões de nascimento. A muito jovens - alguns de 7 anos -, a ordem é elevar um pouco a idade para não levantar suspeitas.

Mas isso não é o pior. Muitos descobrem que a própria viagem também ocorrerá na clandestinidade. Alguns chegam a pegar botes entre a costa africana e as ilhas espanholas. Em 2008, um caso se tornou famoso, com um barco com 15 jovens sendo pego pela polícia no mar. Ao serem questionados por que estavam indo para a Europa, disseram que tinham testes marcados com o Real e o Olympique de Marselha. Os clubes afirmaram que os testes nem existiam.

Outra forma de chegar à Europa são os vistos de turismo de 30 dias. Os falsos olheiros e recrutas garantem que os testes nos clubes ocorrerão nesse prazo. Mas, assim que o jovem desembarca, muitas vezes acaba abandonado e descobre que alguns testes não existiam. Quando eles são realizados, uma reprovação também é sinônimo de crise. Isso porque o acordo com o suposto agente não inclui na maioria das vezes a passagem de volta.

De um lado, famílias que gastaram grande parte de suas economias para enviar o futuro craque para a Europa acabam arruinadas. De outro, garotos se veem de um dia para o outro nas ruas de grandes cidades, abandonados. Para a entidade que passou a se ocupar desses meninos, a estimativa é de que cerca de mil vivem na Europa em situação de marginalização. "Esse é um número com o qual trabalhamos pela experiência que temos. Mas sabemos que há centenas de outros em situações críticas na Rússia e no Leste Europeu", alerta o presidente da ONG Foot Solidaire, Jean-Claude Mbvoumin, ao Estado.

Há seis anos nesse trabalho, Mbvoumin conta que os relatos dos garotos abandonados são fortes. "Tivemos garotos da Costa do Marfim que foram obrigados a buscar comida no lixo para sobreviver, depois que descobriram que não passaram nas peneiras", diz. "Há ainda muitos que estão abandonados e suas famílias nos ligam para saber o paradeiro. Temo que nunca encontraremos", prossegue. "Para cada Eto"o que a África cria e leva ao céu como estrela, dezenas de crianças são abandonados e veem suas vidas se transformarem em inferno."

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