Blake Leeper / Instagram
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Esperanças olímpicas de um duplo amputado estão em perigo. Conheça a história de Blake Leeper

Atleta dos EUA se classificou para o Campeonato Mundial de Atletismo em 2019, mas as autoridades dizem que suas próteses de corrida o deixam alto demais

Matthew Futterman, The New York Times

29 de abril de 2021 | 15h00

Blake Leeper, um dos atletas amputados mais rápidos do mundo, terá de correr com um conjunto significativamente menor de lâminas de corrida se quiser competir por uma vaga na equipe olímpica dos Estados Unidos, decidiu a World Athletics na segunda-feira.

Leeper, que terminou em quinto lugar nos 400 metros nos campeonatos de atletismo dos Estados Unidos em 2019, estava na disputa para competir no Campeonato Mundial de Atletismo daquele ano, mas o órgão regulador mundial do esporte determinou que as lâminas que ele usava o deixaram “anormalmente alto”.

Leeper nasceu sem ambas as pernas abaixo do joelho e, aos 4 anos, foi submetido a uma cirurgia de amputação para permitir um ajuste ideal para as próteses. Ele ganhou duas medalhas nas Paraolimpíadas de Londres em 2012, mas decidiu competir também contra atletas sem deficiência.

Usou lâminas do mesmo tamanho em competições por cinco anos antes de elas serem proibidas. Foi então que ele passou a usar um conjunto que o deixou cerca de 5 centímetros mais baixo, na esperança de participar das eliminatórias olímpicas em junho. Ele disse que um conjunto significativamente menor de lâminas basicamente o forçaria a reaprender a correr.

Na decisão de segunda-feira, um painel de especialistas da World Athletics, órgão que rege o esporte, concluiu que mesmo as lâminas que o deixaram 5 centímetros mais baixo lhe dariam uma vantagem injusta sobre os corredores sem deficiência.

“Os relatórios enviados provaram ao Painel que há uma relação direta entre o comprimento da perna e a velocidade de corrida e que, portanto, a altura das próteses específicas de corrida do sr. Leeper resulta em ele correr mais rápido na prova de 400 metros”, a World Athletics disse em comunicado divulgado na segunda-feira.

A decisão significa que a última esperança de Leeper para competir nas Olimpíadas está nas mãos de um tribunal federal na Suíça.

Em outubro, o Tribunal de Arbitragem do Esporte, a mais alta corte esportiva do mundo, decidiu que os padrões estabelecidos pelo Comitê Paraolímpico Internacional apoiavam o argumento da World Athletics de que as lâminas de corrida de Leeper o deixavam mais alto do que ele teria sido se tivesse nascido com pernas totalmente funcionais.

Leeper apelou dessa decisão ao Supremo Tribunal da Suíça e disse que também apelaria da decisão de segunda-feira. Ele argumentou que, ao estabelecer padrões para a altura provável de duplamente amputados que competem no atletismo, as autoridades não conduziram um estudo suficientemente amplo, o que resultou em um ato de discriminação contra Leeper.

Ao estabelecer os padrões, as organizações de atletismo citaram pesquisas que envolveram apenas atletas caucasianos e asiáticos. Leeper é negro. No apelo de Leeper, os advogados citaram estudos que sugerem que pessoas de ascendência africana podem ter pernas mais longas do que pessoas com outra genealogia. O painel da World Athletics negou que sua decisão tenha sido de alguma forma discriminatória e questionou os dados citados pelos cientistas que Leeper consultou.

“Não é certo que a World Athletics continue a discriminar atletas negros deficientes e que o painel que eles nomearam tenha novamente sancionado esse tratamento discriminatório”, disse Leeper em comunicado na segunda-feira. “Basear esta decisão em padrões e estudos que excluíram completamente os atletas negros vai contra o bom senso e não tem base científica, como as declarações de meus especialistas à World Athletics deixaram claro. Mas, apesar desse revés, vou apelar para continuar lutando pelos atletas de todo o mundo que são discriminados - seja por causa de raça, deficiência ou ambos”.

No passado, Leeper e outros atletas deficientes já tiveram de provar que qualquer equipamento que usassem não oferecia uma vantagem, o que é um grande desafio, já que provar uma negativa é difícil em quase todos os domínios.

Nos últimos anos, a World Athletics tem lutado para equilibrar a inclusão com o que considera uma competição justa, mas os críticos argumentam que suas regras discriminam pessoas que são biologicamente discrepantes.

No caso de Leeper e, antes dele, de Oscar Pistorius, da África do Sul, que em 2012 se tornou o primeiro amputado duplo a correr nas Olimpíadas, a World Athletics se concentrava em saber se o equipamento que eles usavam para correr lhes dava vantagem sobre os corredores sem deficiência. Para Caster Semenya, da África do Sul, e outras atletas nascidas com níveis elevados de testosterona, a organização lutou durante anos para proibi-las de competir em provas de atletismo de meia distância, a menos que tomassem medicamentos para alterar seus hormônios.

“Eles têm uma visão arcaica das pessoas e não gostam de diferenças”, Jeffrey Kessler, advogado que representou Leeper, Pistorius e Semenya, disse sobre a World Athletics durante uma entrevista recente. “Nós somos pessoas. Nenhum de nós é perfeito. Estamos todos dentro de um espectro”.

Como todas as próteses de alto desempenho, as lâminas de corrida de Leeper e o mecanismo que as conecta a suas pernas foram feitos sob medida para ele, com uma altura que permite que seu corpo se mova da maneira mais eficiente. Os especialistas dizem que é impossível determinar se a altura em que Leeper se sente mais confortável para correr aponta para a altura que ele teria se tivesse nascido com as pernas totalmente funcionais. Sob os padrões de altura mais recentes, suas lâminas atuais também não seriam permitidas nas corridas paralímpicas.

Em processos junto ao tribunal suíço, Ross Wenzel, advogado da World Athletics, reconheceu que a conclusão da organização sobre a altura de Leeper se ele tivesse nascido com as pernas funcionais “não era uma ciência exata, mas uma estimativa bem informada”.

Na última década, as autoridades do atletismo mudaram continuamente os métodos usados para determinar a altura que um duplo amputado deve ter ao usar lâminas de corrida.

Por um tempo, os regulamentos se concentraram na distância da ponta do dedo de uma pessoa até o meio do torso. O foco incluía medir o comprimento da ulna, osso que faz parte do antebraço. Mais recentemente, o foco se voltou para a chamada altura ao sentar, ou seja, a altura do atleta quando sentado em uma caixa.

Mas alguns dos maiores especialistas mundiais em próteses dizem que não está claro se o método pode valer para todo o espectro da população humana. Além disso, alguns para-atletas podem ter doenças congênitas que afetam o tamanho de certos ossos, o que torna a extrapolação da altura do comprimento de determinado osso um exercício duvidoso.

Além disso, os apoiadores de Leeper e de outros atletas com amputação dupla dizem que qualquer vantagem que as lâminas possam fornecer nas retas é perdida tanto na largada, porque leva mais tempo para um corredor que usa lâminas atingir a velocidade máxima, quanto nas curvas, que são mais difíceis de percorrer em pernas artificiais.

A World Athletics argumentou que alguém com um torso do tamanho do de Leeper teria 1,75 metros de altura, segundo as métricas padrão, e que suas lâminas o faziam correr como se tivesse 2 metros. Na verdade, Leeper tinha cerca de 1,87 metros sobre suas lâminas antigas. As lâminas que a World Athletics rejeitou na segunda-feira o fazem chegar a cerca de 1,82 metros, aproximadamente a altura média de outros corredores de 400 metros, muitos dos quais têm torsos curtos e pernas longas. As lâminas de Leeper se comprimem quando ele corre, assim como as pernas de um corredor sem deficiência. / Tradução de Renato Prelorentzou

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