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Ugo Giorgetti
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Espertos e mais espertos

O senhor Joseph Blatter, presidente da Fifa, é uma personalidade curiosa. Parece esperto, mas talvez não seja. Fico sempre na incerteza quando me deparo com esse tipo de figura que pretende preencher todos os requisitos da esperteza. É quando me deparo com o esperto perfeito que alguma coisa me adverte que algo está errado. O verdadeiro esperto não exibe perfeição, nunca passa da conta ao representar seu papel, nunca perde o senso das medidas.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2014 | 02h06

Nesse sentido Blatter pode ser considerado um falso esperto, ou, um quase esperto. Está levando para além dos limites da esperteza sua performance de vítima de um país desorganizado, despreparado, com gente quase irresponsável em vários postos de comando, que só dá dores de cabeça à pobre Fifa, que confiou tanto nas promessas do Brasil. Faz cara de desiludido, triste com os atrasos nas obras, falta de gentileza, de compostura, e outros percalços que encontra em suas relações com o país.

No entanto Blatter, mais que qualquer pessoa, sabia perfeitamente com quem estava lidando quando elegeu o Brasil como sede da Copa. Sabia como era o Brasil, até porque na Fifa privou alegremente com brasileiros exemplares. Entrou numa jogada perigosa porque quis. Envolveu-se com políticos brasileiros porque quis: se não sabia, devia saber com quem lidava. Políticos brasileiros, de qualquer posição ideológica, estando na situação ou na oposição, tem uma característica que os diferencia de parte respeitável do mundo.

São de uma audácia incrível. Talvez porque nunca, ou quase nunca, tem que responder pelas jogadas que dão errado, atrevem-se e atrevem-se até o limite, em lances perigosos e imprudentes. Depois a conta fica para as gerações seguintes.

O Brasil moderno foi feito nesses arroubos de audácia que teriam paralisado de terror estadistas com mais senso de planejamento e prudência. Isso é o Brasil, um país em que o acaso, a crença cega de que tudo vai dar certo, e uma inegável vocação para o oportunismo, jogam papéis não desprezíveis nos negócios da nação. Blatter devia saber de tudo isso. Sabia perfeitamente que a Copa seria jogada num ano de eleições. Sabia, portanto, que estaria, querendo ou não, envolvido numa disputa eleitoral mortal pelo poder no país.

Nos bastidores a luta que se está travando pelos destinos do país é uma das mais ferozes dos últimos tempos. Nos subterrâneos, e já nem tanto, a guerra é aberta e sem quartel. A Copa sempre foi uma jogada política de alta envergadura e altíssimo risco. Resolveu-se apostar tudo nela, jogar alto, como reza a tradição de audácia da política brasileira. É possível que Blatter tenha sido cooptado pelo que há de festivo, de alegre, de francamente, ou falsamente, inocente na imagem que o Brasil apresenta ao mundo.

É possível que exibições como a da brasileira solar, feliz e sensual que sorteou as chaves da Copa tenham ofuscado a visão de velhos espertos como Blatter. É possível, mas não posso acreditar nisso.

Acho que conscientemente ele resolveu entrar no jogo, sentou-se á mesa e pediu cartas. Agora está preocupado e tenta empurrar a culpa para os políticos brasileiros. Ocorre que lançar a culpa de fracassos sobre outros é exatamente a especialidade de políticos brasileiros. No caso, Blatter está lidando com profissionais e pode ser que tenha despertado para isso. Pode ser que, subitamente, tenha se lembrado das palavras de Tom Jobim: "O Brasil não é um país para amadores".

De qualquer forma, noto no esperto presidente da Fifa sinais de que está um pouco apavorado. Em seu lugar eu também estaria. Mas, caro Joseph Blatter, sossegue. Nem tudo é tão feio. Este é também o país do incurável otimismo. O senhor fez o seu lance e a roleta gira. Agora não adianta espernear nem se lamentar. Resta entregar tudo nas mãos de Deus. Afinal, Deus é brasileiro, ou o senhor também não sabia disso?

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