Espírito natalino

Um dos primeiros traumas na vida é quando a criança descobre que Papai Noel não existe. Duro choque de realidade, e rito de passagem. Mas às vezes há gestos tão generosos, sobretudo na época das Festas, que parecem obras do Bom Velhinho. Torcedores do Corinthians e do Fluminense tiveram ontem essa sensação agradável, após as vitórias de suas equipes, na penúltima rodada do Brasileiro. Vasco e Palmeiras comportaram-se com docilidade no sacrifício a que se submeteram, diante dos líderes do campeonato, e deixaram no ar a certeza de que o espírito natalino começa a tomar conta de pessoas e instituições desde este finalzinho de novembro.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Seria leviano, até cruel, insinuar que vascaínos e palestrinos entregaram, para usar o odioso verbo que voltou à moda nos últimos dias. Os dois times não amoleceram, embora soubessem que a própria derrota atrapalharia os planos de rivais domésticos na corrida pelo título. Ambos comportaram-se no limite da dignidade, e só. Tanto no Pacaembu quanto em Barueri o que se viu, quase o tempo todo, foram duelos de ataques - do Corinthians e do Fluminense - contra as defesas de seus respectivos adversários. Como o esperado. Quem precisava do resultado foi à frente; os oponentes se resguardaram, em sentido amplo.

O Palmeiras provocou o único momento de anomalia nesse script imaginado durante a semana, pelo menos no começo do clássico contra o líder. O gol de Dinei - muito bonito, registre-se - aos 4 minutos do primeiro tempo colocou nuvenzinha cinza sobre as arquibancadas do estádio situado às margens da Castelo Branco e detonou explosão de alegria alvinegra no centro de São Paulo. O chute preciso do atacante punha em risco as pretensões do tricolor carioca e estimulava os corintianos, que resolveram avançar sobre o Vasco. O pobre do Dinei, que passou boa parte do ano em branco, foi xingado por muitos de seus torcedores e mal festejou.

A participação do Palmeiras terminou ali. O Fluminense absorveu o golpe e foi pra cima. O quarteto formado por Deco, Conca, Emerson e Fred, respaldado por Diguinho, Mariano e Carlinhos, se comportou como rolo compressor. Não demorou nada para eles acumularem oportunidades de empate. Os quatro atiravam a gol, assim que encontravam brecha, e jogavam como se estivessem em casa. E estavam, pois recebiam incentivo das duas torcidas. O empate veio aos 18, com o arremate bem colocado de Carlinhos.

O Flu só não disparou na frente, antes do intervalo, por causa de Deola. O goleiro do Palmeiras mostrou-se digno da história de seu clube, ao fazer uma infinidade de defesas difíceis. Espalmou, esticou-se, saiu para bloquear com os pés, trombou. Correu risco enorme ao desagradar a parcela extremista de palmeirenses que foi ao estádio só para exigir corpo mole. O substituto de Marcos entra para a galeria dos grandes números 1 moldados no Parque Antártica. Só teve um pecado no segundo tempo, ao rebater mal uma bola que sobrou para Tartá marcar o gol da vitória.

O Palestra destroçado pela eliminação na Sul-Americana não tinha lá aqueeeela disposição. Depois desse lance, então, se fingiu de morto - ou vai ver que está mesmo, nem precisava de encenação. Seus jogadores passaram a tocar a bola pra trás, como se estivesse a garantir o resultado, e mereceram reprimendas de Felipão. Broncas soltas no ar, porque seu time não avançou e o Fluminense ficou só a fazer cerco, bem de leve. E assim chega à última rodada a depender só de seu esforço contra o Guarani.

O cenário no Pacaembu foi diferente apenas nas cores dos uniformes. O Corinthians percebeu logo que o Vasco não iria se matar e nem estava para arrumar encrenca em fim de ano. Bruno César retomou seu papel de armador e de artilheiro, a ponto de iniciar as melhores jogadas e de abrir o placar aos 40 minutos da fase inicial - àquela altura seu time assumia a ponta da competição. Danilo fez o segundo só para tranquilizar, ainda mais com as viradas de Flu e Cruzeiro.

Ficou tudo para domingo. Alguém fará o papel de Papai Noel?

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