Josh Haner The New York Times
Snowboarder suíço Iouri Podladtchikov não conta mais com patrocinador Josh Haner The New York Times

Esporte de inverno perde charme e enfrenta crise mundial

Snowboarding tem sido abandonado por praticantes e anunciantes

Matt Higgins, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2016 | 07h00

Enquanto o snowboarder suíço Iouri Podladtchikov dava piruetas, saltava e girava sobre o halfpipe nos X Games de Oslo antes de receber a medalha de prata, o fundo de sua prancha - uma das áreas mais disputadas para propagandas no evento - não exibia o logo de uma empresa. Na verdade, a prancha estava enfeitada com um projeto artístico que ele mesmo criou para uma matéria na faculdade.

A razão para o triunfo da arte em detrimento do comércio: Podladtchikov, de 27 anos, campeão do halfpipe na Olimpíada de Inverno de 2014, não conta mais com um patrocinador.

O snowboarding - que praticamente não existia há 30 anos e tomou conta dos resorts de esqui do mundo todo, ganhando cinco milhões de adeptos ao longo de apenas duas décadas - parece ter perdido o charme nos últimos anos. À medida que o esporte foi abandonado por praticantes e anunciantes, as vendas de equipamentos e as oportunidades de patrocínio para os atletas despencaram, desde que atingiram o auge há cinco anos.

"O cenário é realmente desafiador. Temos algumas pessoas endinheiradas no snowboarding, mas o resto luta para conseguir uns trocados", afirmou a agente de Podladtchikov, Circe Wallace, ex-atleta profissional.

No Aberto dos EUA em Vail, Colorado, um dos últimos eventos competitivos da temporada, o norte-americano Louie Vito foi eliminado nas semifinais do halfpipe. Participante dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 e duas vezes medalhista nos X Games de inverno, Vito era um dos cerca de 10 atletas patrocinados pela Nike. Quando a empresa deixou de fabricar a linha de snowboarding em 2014, diversos outros esportistas se depararam com um futuro incerto, uma vez que outras empresas - muitas das quais em meio a cortes generalizados - também não têm mais dinheiro para patrocinar todos eles, mudando drasticamente a cara do mercado.

"Alguns invernos ruins e a saída da Nike do mercado levou muitos bons atletas a perderem seus patrocínios de botas e roupas. É um problema", afirmou Vito, que também não tem patrocinadores para a prancha e anda com suas iniciais pintadas no fundo.

Nos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, Podladtchikov usou uma prancha com o logo da Quiksilver, uma fabricante bilionária de acessórios para esportes com pranchas. A empresa declarou falência em setembro do ano passado.

Marie Case, diretora-executiva da Board-Trac, empresa de pesquisa de marketing e estilo de vida focada em esportes radicais, afirmou que a rede de distribuição que levava a cultura dos esportes com pranchas pelo país se mostrou grande demais. "O mercado ficou saturado" afirmou Marie.

Uma economia global enfraquecida, padrões climáticos em plena transformação e uma mudança nos gostos e nas tecnologias ajudaram a estabelecer uma atmosfera desafiadora para o snowboarding.

De acordo com o grupo comercial SnowSports Industries America, o snowboarding chegou ao auge de popularidade com quase 8,2 milhões de praticantes o inverno de 2010-11, perdendo espaço nos três anos seguintes.

No ano passado, houve um pequeno aumento, voltando à casa dos 7,7 milhões de praticantes, em função do crescimento do esporte entre o público de homens com menos de 17 anos e mulheres com mais de 18.

As vendas de equipamentos também caíram. De acordo com a Associação Nacional de Acessórios Esportivos, que acompanha o varejo, as vendas de equipamentos de snowboarding sofreram uma queda anual de US$60 milhões desde 2007. A SnowSports Industries America também fala em vendas constantes ou em queda nas linhas de esqui e snowboarding nos últimos cinco anos. Dados preliminares da última estação indicam que embora as vendas de equipamentos de snowboarding tenham aumentado 25 por cento no oeste dos EUA, houve uma queda de 4 por cento no país como um todo.

"Quando se trata do varejo, existem muitos fatores a favor e contra", afirmou Nick Sargent, presidente da SnowSports Industries, que citou o pronunciamento da Sports Authority, que abriu falência e fechou mais de 100 lojas no país. "Isso terá um efeito considerável sobre as nossas vendas".

O volume variável de neve também não tem ajudado. Vinte e cinco por cento dos snowboarders vivem na Costa Oeste dos EUA, e a Califórnia enfrentou uma seca histórica que durou quatro anos até o El Niño deste ano. A neve também foi escassa nos estados do noroeste americano durante boa parte do último inverno.

"Nosso maior desafio é a forma como dependemos do clima. Como não tivemos neve em boa parte da Costa Leste no inverno deste ano, sofremos um impacto considerável, já que as pessoas não tinham motivos para ir à montanha", afirmou John Lacy, presidente da Burton Snowboards, pioneira no setor.

A passagem do snowboarding de um esporte proibido em boa parte dos resorts, para uma modalidade popular nos Jogos Olímpicos de Inverno, ocorreu em detrimento do esqui alpino. A prática do esporte está em queda livre, com 2 milhões de praticamente a menos em relação a 20 anos atrás. Com os velhos antagonismos entre esquiadores e snowboarders se tornando uma coisa do passado, o esqui pode cooptar boa parte da tecnologia, do estilo e da atitude do snowboarding. O freeskiing conta com inúmeros movimentos similares ao do snowboarding e ganhou quase um milhão de praticantes entre 2010 e 2015.

O snowboarding e o freeskiing já fazem parte dos Jogos Olímpicos de Inverno, e o evento de 2014 viu Podladtchikov frustrar Shaun White, que era considerado o favorito ao ouro nos Jogos de Sochi. Outra disciplina do snowboarding, o "big air", na qual os atletas saltam a 12 metros de altura enquanto fazem movimentos para impressionar os juízes, será adicionada aos Jogos Olímpicos de Inverno de 2018 em Pyeongchang, na Coreia do Sul.

Além disso, a TV já não é mais o meio dominante de transmissão de eventos ao vivo como o snowboarding. Opções que permitem o streaming ao vivo afetaram o número de telespectadores e o faturamento com marketing, tornando o custo de realização dos eventos proibitivo em boa parte dos casos, afirmou Chris Stiepock, vice-presidente da NBC Sports Ventures que, por duas décadas, teve um cargo em produção e marketing no X Games realizados pela ESPN.

"Na ESPN, os X Games eram considerados um gasto de marketing fenomenal para atrair um público jovem à ESPN, ESPN2 e ESPN.com. Atualmente, não dá mais para aceitar prejuízo apenas para atrair público", afirmou Stiepock.

O número de telespectadores dos X Games de inverno caiu em comparação com o ano passado, ao passo que o volume de espectadores do streaming ao vivo aumentou 58 por cento este ano, de acordo com Danny Chi, porta-voz da ESPN. A NBC também anunciou em fevereiro que não iria mais realizar a Dew Tour, uma competição esportiva de inverno com destaque para o snowboarding, e que contava atualmente com apenas um evento, ao invés de três.

Mesmo que a TV tenha ajudado a tornar o snowboarding uma categoria conhecida, isso não representou necessariamente um aumento nas vendas de equipamentos, de acordo com Pat Bridges, diretor criativo da Snowboarder Magazine.

Uma vez que os X Games geralmente são realizados no fim de janeiro e os Jogos Olímpicos em fevereiro, ou seja, depois do auge das vendas de equipamentos na estação, de acordo com Bridges "nunca faturamos muito com vendas depois de grandes eventos".

 

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