Esporte fino

É impressionante como eu continuo a topar com pessoas que agem, em relação ao esporte, mais ou menos como o personagem desta pequena história que inventei agora. Imaginem Michelangelo, em plena Florença renascentista, esculpindo o seu célebre David, uma das obras de arte que justificam a raça humana. Agora imaginem que o ateliê do mestre está em um espaço que, por alguma razão, permite que curiosos o observem trabalhando. Imaginem ainda que um desses curiosos presencie o exato instante em que, concluindo a tarefa de três anos, o autor da obra-prima bate com o cinzel no joelho da figura e diz, desafiador: "Parla!". Por fim, tentem imaginar o seguinte comentário do tal curioso: "Mas que estatuazinha mixuruca, hein? Já vi um monte de estátuas melhores do que ela. Bons mesmo eram os escultores gregos...".

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2011 | 00h00

Parece ridícula essa historieta, certo? Mas é exatamente assim que se comportam aqueles - e não são poucos! - que menosprezam o futebol que o Barcelona vem jogando e tentam diminuir a genialidade de Messi.

Eu cresci acreditando que o Brasil era um país no qual o gosto futebolístico era indiscutivelmente pelo jogo bonito, o toque de bola, o drible, a arte. No entanto, me assusta um pouco a quantidade de pessoas que vejo por aí dizendo que o Barça está longe de merecer um lugar entre as melhores equipes de todos os tempos. Que Messi não chega aos pés do Zidane. Que ele só vai ser alguém na vida no dia em que ganhar um título com a seleção argentina. Que Mourinho é que sabe como armar uma equipe eficiente. Que Pep Guardiola treina uma equipe de maricas. E assim por diante. O que terá acontecido conosco nos últimos tempos? Será que estamos levando tão a sério essa história de sermos um país de Primeiro Mundo que, no processo, estamos nos tornar suíços no que se refere à estética do futebol? Ora, façam-me o favor. O Barcelona - que não tem só Messi, mas também o toque de bola mágico dos extraordinários Xavi e Iniesta, os avanços de Dani Alves, as arrancadas de David Villa, a raça de Puyol, a segurança de Piqué, entre outros atrativos - já é uma equipe que pode ser listada entre as grandes da história. Não precisamos esperar que os culés conquistem dúzias de títulos para constatar o óbvio. O mesmo pode ser dito de Messi, craque que já figura entre os grandes de todos os tempos, com apenas 23 anos de idade. Vou repetir: 23 anos de idade! Mesmo sem ser centroavante, o argentino baixinho e arisco tem média de um gol por jogo na temporada e já marcou cerca de 180 vezes como profissional. Apenas a título de comparação, Maradona, o grande jogador argentino da história, ao lado de Di Stéfano, marcou 352 gols em toda a carreira. Não quero dizer com isso que Messi já seja maior do que Maradona. Mas creiam-me: ele pode ser. Antes de brilhar na Copa de 1986, Diego foi um fiasco na Copa de 1982, da mesma maneira que não conseguiu se sagrar campeão em 1990 e 1994. Di Stéfano jogou pela Argentina e pela Espanha. Jamais ganhou uma Copa. Sempre foi um gênio.

Messi, como Di Stéfano, Puskas, Eusébio e Leônidas, pode ser considerado um gênio mesmo sem ganhar um Mundial com a sua seleção.

Eu é que não sou bobo de perder a chance de me encantar com a chance que estou tendo de testemunhar a história sendo escrita. Nessas horas, saudosismo é burrice. No futebol nós estamos, de certa forma, vendo Michelangelo esculpir Davi ou pintar o teto da Capela Sistina. E, sim, eu estou adorando ver isso.

Acho Mourinho um técnico muito competente, mas não me peçam para ter arrepios de felicidade ao ver Pepe distribuir botinadas por aí e gritar que "futebol é isso", como tenho ouvido de alguns colegas. Gosto de esporte - mas de "esporte fino", como diziam os convites das festas de antigamente. E enquanto eu puder preferir a beleza do jogo do Barça ao esquema ultradefensivo do Madrid, é exatamente isso que farei.

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