Jonathan Ernst/Reuters
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Esportes ajudaram a moldar Biden. Mas espere um fã mais tranquilo na Casa Branca

Jogar futebol americano no ensino médio ajudou o presidente eleito a superar uma gagueira. E embora seja conhecido por ser um fã, ele não demonstrou apreço por inserir política no mundo esportivo

Jonathan Abrams, The New York Times

17 de novembro de 2020 | 09h01

A Archmere Academy, uma escola particular católica em Delaware, chegou como um super azarão para iniciar sua temporada de futebol americano no outono de 1960. Seu adversário, a St. James High School, uma potência de Nova Jersey, havia derrotado a Archmere por 11 touchdowns em uma partida amistosa um ano antes. No entanto, a Archmere tinha uma arma improvável: o presidente eleito Joe Biden.

O técnico da Archmere preencheu seu time recrutando quase metade da equipe na fila do almoço e planejou um ataque que dependia de potência de corrida, erro de direcionamento e passes ocasionais. Em uma reversão nesse jogo, Biden correu 40 jardas sem ser tocado por ninguém para marcar um touchdown em uma virada de 12-0.

“Ele era halfback e marcou alguns touchdowns correndo também, mas foi o cara que foi o principal apanhador de passes”, lembrou um dos companheiros de equipe de Biden, Michael Fay. “Estávamos no último ano da escola, então jogar bola era quase um pecado mortal. Mas ele conseguiu sete ou oito passes para touchdown em oito jogos, o que era muito para aquela época.”

O presidente Donald Trump tem uma longa associação com os esportes, começando como jogador de beisebol na juventude e, mais recentemente, como um ávido jogador de golfe com algo a dizer, muitas vezes com tom incendiário, sobre atletas e ligas.

Embora Biden não tenha ressaltado a sua afinidade com os esportes, como muitos políticos fazem, esta afinidade aparece em vários momentos de sua vida, começando pela infância, quando os esportes forneciam uma linguagem universal de comunicação enquanto ele administrava a gagueira. Ele passou sua vice-presidência sob o comando de um famoso fã de esportes, o presidente Barack Obama, que aconselhou jogadores da NBA que boicotaram os playoffs em protesto contra os tiros dado contra Jacob Blake.

“Você vê essas duas coisas acontecendo na vida dele ao mesmo tempo”, disse Evan Osnos, autor de “Joe Biden: The Life, the Run, and What Matters Now” (Joe Biden: a vida, a disputa e o que importa agora, em tradução livre), referindo-se aos dias de ensino médio de Biden. "Uma, superar a parte mais difícil da gagueira, e dois, ele encontrando seu lugar no campo de futebol. Essas duas coisas convergiram para dar a ele esse senso alterado de si mesmo, e isso é realmente o começo do que era, naquele ponto, uma noção quase ridiculamente ambiciosa do que ele poderia ser capaz de fazer na vida."

Ainda assim, mesmo com atletas como LeBron James e Draymond Green comemorando sua vitória no Twitter, Biden, ao contrário de Trump, não mostrou apreço por mergulhar na política esportiva.

Trump consistentemente usou atletas como armas para apelar a seus principais apoiadores, atacando jogadores da NFL que se ajoelhavam durante o hino, desconvidando previamente os campeões da NBA para a Casa Branca e acusando falsamente o piloto da NASCAR Bubba Wallace de colocar a corda em formato de forca encontrada na garagem do piloto.

A relação antagônica ajudou a impulsionar muitos atletas para o ativismo social e político, incluindo vários que participaram das campanhas para votar. “Eu não acho que isso vá desaparecer quando Trump estiver fora de cena, mesmo que você não tenha aquele único ponto focal que eles tinham antes”, disse Eric Schickler, professor de ciência política da Universidade da Califórnia, Berkeley.

Para Biden, os esportes têm sido mais um bálsamo. Jogadores do Pittsburgh Steelers visitaram o leito hospitalar de seus filhos, Hunter e Beau, em 1972, após o acidente de carro que matou sua primeira esposa, Neilia Hunter, e sua filha, Amy.

Biden comemorou em campo quando o Philadelphia Eagles venceu o Super Bowl na temporada 2017 da NFL. O Washington Nationals já o convidou para lançar o primeiro arremesso na cerimônia de abertura. (A Casa Branca recusou o convite do Nationals para que Trump fizesse o mesmo na abertura da temporada de 2017, citando um conflito de agendas.)

Biden recentemente parabenizou a estrela do basquete Sue Bird e a estrela do futebol Megan Rapinoe pelo noivado. Ele se aliou a jogadoras da seleção feminina de futebol em sua disputa com o futebol masculino sobre igualdade de salário. Ele disse que desmantelaria o novo regulamento do Título IX da secretária de Educação, Betsy DeVos, que poderia ter um impacto no atletismo universitário e no relato de alegações de agressão sexual nos campi, e prometeu “restaurar o acesso de estudantes transgêneros a esportes, banheiros e vestiários de acordo com sua identidade de gênero.”

“Você vai ver muito claramente que Joe Biden encara os esportes como uma forma natural da comunidade americana, o que não significa necessariamente que seja silencioso”, disse Osnos. “Isso significa que é contestado. É um lugar para política. É um lugar onde vivemos nossas diferenças tanto quanto as coisas que nos unem. No sentido mais puro, acho que ele é um cara que acredita que você pode se ajoelhar.”

Biden fez campanha com o objetivo de controlar a pandemia do novo coronavírus e, portanto, ele pode ser chamado para decidir se as ligas podem ou devem ter espectadores nos jogos. Um defensor dos esportes mais quieto na Casa Branca não significa necessariamente um menos apaixonado. Biden relembrou seu tempo no campo de futebol como memorável e influente.

O time de futebol americano da Archmere tinha uma campanha de 8-0 no último ano de Biden, após um recorde de 1-6 um ano antes. Ele deu o crédito ao treinador, E. John Walsh, então recém-saído da faculdade, por energizar o programa e unificar a equipe. “Ele nos incentivou a jogar o jogo da mesma maneira que vivíamos nossas vidas - com paixão e integridade”, disse Biden na abertura da cerimônia para Walsh em 2012 no Hall da Fama do Museu de Esportes de Delaware. "Não importa o quão bom você seja, o treinador sempre enfatizou que você era um companheiro de equipe primeiro."

Em 2008, Walsh, que morreu no ano passado aos 83 anos, descreveu Biden como magrelo, “mas ele foi um dos melhores recebedores de passes que tive em 16 anos como técnico”.

Fay, companheiro de equipe de Biden, disse que aquela temporada fez todos os jogadores do time acreditarem mais em si mesmos e no que era possível. “Isso nos fez acreditar que éramos talvez um pouco mais do que pensávamos que éramos antes”, disse Fay. “Isso fez o impossível parecer possível.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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