Erin Schaff/The New York Times
Erin Schaff/The New York Times

Esportes no gelo estão ameaçados pelas mudanças climáticas no mundo

Esquiar, fazer caminhadas e andar de trenós puxados por cães nunca mais será a mesma coisa em Svalbard, na Noruega, região que esquentou duas vezes mais rápido que o resto do Ártico

Jeré Longman, The New York Times

30 de maio de 2022 | 20h00

Era início de abril e, embora o sol da meia-noite ainda não tivesse chegado ao remoto arquipélago de Svalbard, a escuridão havia começado seu retiro anual de quatro meses da cidade mais ao norte do mundo. Numa manhã fria e imaculada, cães de trenó com seus pelos grossos e pernas poderosas começaram a uivar e partiram para um vale nevado repleto de renas, pássaros e uma grandeza angustiada.

Svalbard, que fica entre a Noruega continental e o Polo Norte, oferece uma das regiões selvagens mais isoladas e impressionantes do planeta. As luzes do norte dançam numa rave eletromagnética. As montanhas mergulham nos fiordes como se fossem nadar com imensas patas de ursos polares. As raposas do Ártico deslizam com aquele movimento curioso dos filmes mudos.

"Lindo, extremo, vulnerável", disse Nico Mookhoek, 34 anos, guia da Green Dog Svalbard, numa viagem de trenó de seis horas pelo Vale Bolter para visitar uma geleira derretida e uma caverna de gelo.

A melancolia é a base da beleza em Svalbard, onde a indústria do carvão está dando lugar ao turismo e à pesquisa sobre as mudanças climáticas causadas pela emissão de dióxido de carbono e outros gases que retêm calor. Desde o início da década de 1990, essas ilhas próximas ao topo do mundo aqueceram duas vezes mais rápido que o resto do Ártico e cerca de sete vezes mais que a média global, de acordo com o Instituto Polar Norueguês.

Todos os aspectos do esporte e da recreação em Svalbard sentem o impacto de um clima mais quente, desde os trenós puxados por cães até as motos de neve, o esqui, a pesca, a caça e a escalada em geleiras. A neve está derretendo duas ou três semanas mais cedo do que trinta anos atrás. Uma colina de esqui planejada para o ano que vem em Longyearbyen usará neve artificial para deixar o curso mais confiável.

A cauda da Corrente do Golfo atinge a costa oeste de Svalbard e derrete o gelo marinho, os óculos escuros do Ártico. Com a perda dessa proteção reflexiva, mais calor do sol é absorvido pelo oceano. E o oceano, por sua vez, libera mais calor no ar circundante. O aquecimento em Svalbard está ocorrendo a um ritmo mais rápido no inverno - quando por meses há pouca ou nenhuma luz solar - do que no verão. De acordo com algumas previsões, o gelo marinho desaparecerá completamente durante os verões antes de meados do século.

O derretimento das camadas de gelo e das geleiras no Ártico contribui para o aumento do nível do mar e influencia a circulação oceânica. O encolhimento do gelo marinho afeta a caça às focas e os hábitos de parto dos ursos polares. Algumas pesquisas em andamento associam o aquecimento do Ártico a eventos climáticos extremos, como a intensidade das monções de verão na Índia e o frio inesperado na América do Norte.

“Para onde quer que eu olhe, vejo sinais óbvios de aquecimento climático, de mudanças climáticas induzidas pelo homem”, disse Kim Holmen, consultor especial e ex-diretor internacional do Instituto Polar Norueguês que trabalha em Svalbard há mais de trinta anos.

Enquanto Mookhoek - alto, magro, barbudo e engraçado, mas sem perder a autoridade - preparava seus trenós com nove huskies do Alasca e cães-da-Groenlândia, ele carregava uma mochila com um rifle Mauser M98 e uma pistola sinalizadora. A proteção contra ursos polares é necessária fora dos assentamentos em Svalbard.

“Se você vir um urso”, disse Mookhoek aos ocupantes dos quatro trenós do seu tour, “não tente correr até ele para tirar a selfie do ano."

Por toda parte, a ruptura e a transitoriedade eram evidentes no que é essencialmente um deserto do Ártico.

O topo de um cume próximo continha a presença fuliginosa da última mina de carvão em operação em Longyearbyen, programada para fechar no ano que vem. O leito do rio no Vale Bolter estava escorregadio com uma faixa de gelo. Em meados de março, normalmente o mês mais frio em Svalbard, uma chuva quente caiu e a temperatura atingiu 5 graus Celsius - mais de 15 graus acima da média. Rios locais, que no inverno servem como estradas congeladas para motos de neve e trenós puxados por cães, viraram correntezas.

Durante dois ou três dias na alta temporada turística, os passeios tiveram de ser cancelados. Algumas pessoas em motos de neve ficaram presos na neve derretida precisaram ser resgatadas de helicóptero, disseram guias de aventura, e alguns esquiadores que retornavam a Longyearbyen ficaram com água até a cintura. Três semanas antes, no final de fevereiro, uma dúzia de pessoas em motos de neve teve de abandonar seus veículos a leste de Longyearbyen e aguardar resgate por helicóptero quando as motos ficaram presas no gelo derretido.

Invernos mais quentes e úmidos estão ficando cada vez mais comuns em Svalbard. Quando a chuva congela em cima da neve, pode causar fome em massa nas renas, que não conseguem perfurar o gelo para alcançar a vegetação. Mas a recente e perturbadora chuva de março foi incomum em um mês que costumava trazer um clima bastante estável, disseram cientistas e guias.

“Acontece todos os anos com a chuva, mas nunca tinha visto isso no final da temporada”, disse Fredric Froberg, chefe dos guias da Svalbard Adventures, que está no arquipélago há dez anos.

Em 2019, o curso da maratona de esqui cross-country de Longyearbyen - o maior evento esportivo anual da cidade, que atrai até 1 mil participantes no final de abril - teve de ser alterado por causa de uma ameaça de avalanche e da pouca neve que deixou partes da trilha lamacenta ou inundada. A escassez de neve após o recente degelo de março também forçou outro ajuste de curso este ano.

O aquecimento do Ártico, dizem os cientistas, deve ser visto como um alerta para as autoridades esportivas de todo o mundo, que começam a enfrentar questões como o futuro dos Jogos Olímpicos de Inverno e do golfe, o golpe devastador dos furacões nas competições esportivas do ensino médio na Louisiana e a pegada de carbono de equipes e atletas que precisam viajar para treinar e competir.

“O que acontece lá em cima não é só uma coisa remota que afeta os pastores de renas”, disse Daniel Scott, professor de geografia e gestão ambiental da Universidade de Waterloo, em Ontário, que pesquisa as dimensões humanas das mudanças climáticas envolvendo esportes, recreação e turismo. “O que acontece lá reverbera em outras partes do mundo”.

“UMA IMENSA PINTURA”

Quatro invernos atrás, Mookhoek chegou a Svalbard vindo da Holanda para passar férias com sua noiva. Ele viu as luzes do norte, as formas arrebatadoras de uma caverna de gelo e o azul profundo e acolhedor do crepúsculo constante. A luz da lua refletia as montanhas e vales cobertos de neve. Ele ficou comovido. Meses depois, desistiu de sua carreira de designer de jardins e voltou para Svalbard para se tornar um guia de cães de trenó.

“Eu estava me mudando para dentro de uma imensa pintura”, disse ele.

Ele quer mostrar o esplendor de Svalbard ao maior número possível de visitantes, mas seu entusiasmo é temperado por um sentimento de insegurança. “Quando comecei”, disse Mookhoek, “já tinha a sensação de que isto aqui é uma coisa que tenho que fazer agora, porque não vai ficar aqui para sempre”.

Perto de Longyearbyen, os fiordes Ice e Advent não congelam mais no inverno, roubando às motos de neve seus atalhos pelo gelo. As geleiras na costa oeste de Svalbard derretem de 60 a 90 centímetros de espessura por ano. Em Longyearbyen, a montanha Sugar Top tem barreiras de neve logo acima de um aterro de pedra, para ajudar a proteger contra avalanches.

Dias antes do Natal de 2015, duas pessoas morreram em Longyearbyen, mais de vinte ficaram presas e onze casas foram arrancadas de suas fundações por uma avalanche que os cientistas atribuíram a mudanças nos padrões de vento, temperatura e precipitação. Outra avalanche veio em 2017, atingindo mais casas. No ano passado, algumas áreas da cidade enfrentaram evacuações prolongadas.

Está em andamento um projeto para mover ou demolir 144 casas ameaçadas por avalanches. Novos blocos de apartamentos cor de caramelo foram construídos em áreas estreitas e seguras, mais distantes da montanha e mais próximas da água. “Chamamos de cidade em movimento por causa do clima”, disse o prefeito Arild Olsen.

A camada superior de permafrost também está derretendo, o que quebrou as fundações de algumas casas e edifícios e deixou a cidade vulnerável a deslizamentos de terra. Em 2016, o degelo ocasionou inundações no túnel de entrada do Silo Global de Sementes. Ele está encravado na encosta de uma montanha nos arredores de Longyearbyen e armazena cerca de 1 milhão de amostras de sementes de todo o mundo como uma proteção contra desastres apocalípticos, sejam naturais ou causados pelo homem.

Em 2016, um deslizamento de terra por pouco não empurrou um cemitério para a estrada. Um novo cemitério será aberto num local menos vulnerável quando o financiamento for garantido, disse o reverendo Siv Limstrand, da Igreja de Svalbard.

O cemitério atual, agora fechado, “não é seguro nem para os vivos nem para os mortos”, disse Limstrand.

Em Longyearbyen, cerca de quarenta encanadores e eletricistas são necessários para ajudar os 2.500 moradores a lidar com o ambiente hostil em meses de escuridão incessante ou luz solar interminável. Os moradores sentem alguns benefícios com um clima mais quente. Águas abertas nos fiordes facilitam o acesso dos turistas em navios de cruzeiro. O pastoreio prolongado de verão pode mitigar a fome das renas no inverno. O saboroso bacalhau do Atlântico se mudou para as águas de pesca do Ártico. Avistamentos de baleias azuis e jubartes parecem mais frequentes.

“Podemos sentar na nossa sala de estar e observar as baleias no fiorde”, disse Jens Abild, guia e proprietário da Arctic Adventures, que vive em Svalbard há quase trinta anos. “Isso não era possível vinte anos atrás”.

Ao mesmo tempo, espécies de plânctons e pássaros do Ártico estão sofrendo com a mudança do clima. O tempo está menos previsível. Parece mais difícil e arriscado viajar pelo arquipélago. À medida que as geleiras derretem em Svalbard, muitas passam por um fenômeno chamado afluência ou pulsação, avançando pelo menos dez vezes mais rápido do que uma geleira normal. As fendas se multiplicam e podem aumentar o risco de caminhar ou viajar de moto de neve ou trenó puxado por cães.

“A rota que você fez no ano passado não está necessariamente segura este ano”, disse Olsen, que, além de prefeito, é um condutor de trenós puxados por cães.

No caso das caminhadas de verão nas geleiras minguantes, o acesso está mais desafiador. Começar uma caminhada com travas, cordas e machados de gelo pode ser “técnico demais” para aventureiros inexperientes, disse Erlend Kjorsvik, executivo-chefe do Backyard Svalbard. “Você quer caminhar, não escalar”, acrescentou ele.

Enfrentando o aquecimento global e regras mais rígidas para guias, Kjorsvik disse, aos 26 anos: “Tenho a filosofia de que meu tipo de trabalho é temporário. É um jeito difícil de administrar um negócio. As pessoas vão ficar mais preocupadas com o futuro. Esse tipo de esporte vai ficar ainda mais caro. Talvez não seja mais uma coisa tão legal de se fazer”.

CARRINHOS DE RODAS EM VEZ DE TRENÓS

Depois de viajar por dez quilômetros, os cães de Mookhoek chegaram à geleira Scott Turner, batizada em homenagem a um geólogo americano. Os cães foram soltos e em seguida presos a correntes ancoradas por postes de madeira. A cada inverno, os buracos são perfurados mais um metro no gelo para prender os postes. “No final do verão, eles já caíram”, disse Mookhoek, uma indicação da perda anual de espessura da geleira.

Ele olhou para a geleira, outrora um platô, agora um cume arredondado, e disse: “Um dia tudo isso vai ser só um buraco”.

À primeira vista, a pequena geleira parecia ser uma das maravilhas do inverno. Mas a frente da geleira recuou 1,6 km desde meados da década de 1930, cerca de metade na última década, de acordo com Emily C. Geyman, estudante de doutorado do Instituto de Tecnologia da Califórnia que liderou um estudo recente sobre mais de 1.500 geleiras de Svalbard. A geleira também derreteu mais de 100 metros em espessura, o equivalente a um campo de futebol de pé. De 1936 a 2010, a geleira perdeu volume suficiente para encher 71 mil piscinas olímpicas.

De acordo com algumas estimativas, a camada de gelo remanescente que constitui a geleira Turner, com cerca de 3,5 quilômetros de comprimento, pode desaparecer até o final do século, talvez bem antes. Embora essas coisas sejam difíceis de prever, Geyman disse: “É um gelo morto. Está claro que está indo só numa direção, que é desaparecer”.

A trilha de GPS de Mookhoek de 2021 através da geleira até uma caverna de gelo em suas bordas agora passa por pedregulhos e cascalho. Nesta temporada era necessária uma rota diferente porque a antiga não estava mais segura para os cães.

As cavernas de gelo são esculpidas pelo degelo do verão. A caverna na geleira Turner parecia o interior de uma concha com seu teto em espiral e paredes brilhantes e lisas de neve comprimida, bolhas de ar, camadas de sedimentos e nervuras de gelo. Mas à medida que a geleira encolhe - ajudada pelo degelo de março - a caverna está se tornando mais baixa e mais curta e pode entrar em colapso na próxima temporada.

“Depende do verão”, disse Mookhoek. “Se tivermos outro recorde de calor, será super rápido”.

Dez anos atrás, a Green Dog Svalbard começava sua temporada de trenós no final de outubro. Agora é dezembro, às vezes tão tarde quanto o Natal. A temporada terminava por volta de 20 de junho. Agora termina três semanas antes. Depois disso, as empresas de trenós puxam os turistas em carrinhos de rodas.

“As viagens no vale eram muito emocionantes, agora é só uma poeira na estrada de cascalho”, disse Holmen, do Instituto Polar Norueguês.

No verão, é preciso dar atenção urgente à segurança dos cães, especialmente em junho, quando eles ainda estão com os pelos do inverno. Se a temperatura atingir 10 graus Celsius e não houver nuvens nem vento, as viagens muitas vezes são canceladas. No final do verão, quando os cães ficam com os pelos mais finos, 15 graus disparam um “alarme geral”, disse Mookhoek.

“Temos que olhar por eles, porque eles não conseguem cuidar de si mesmos”, disse Mookhoek. “Eles continuam correndo.”

Tem água disponível nas rotas de cada dia. A cada dez minutos, os cães têm um tempo para beber. A água que sobra é derramada sobre os cães. Ao primeiro sinal de sofrimento, como um andar vacilante, o cão é devolvido ao canil e colocado em água, que também é injetada sob a pele para hidratação, disse Martin Munck, dono da Green Dog Svalbard com sua esposa, Karina Bernlow. “Na hora não parece muito grave, mas sabemos por experiência que eles podem morrer três dias depois” de falência dos órgãos, disse Munck. “Perdemos alguns cães incríveis. Aconteceu duas vezes”.

Cinco anos atrás, a necessidade de tais precauções durante o verão “não era uma questão”, disse Munck. “Assim como as avalanches não eram uma questão dez anos atrás”.

Bernlow tem uma foto dos dois filhos mais novos no celular. Eles estão correndo por um vale, não nas suas habituais roupas pesadas de verão, mas de fraldas. Era 25 de julho de 2020, quando Svalbard atingiu uma temperatura recorde: 21 graus. “Não deveria estar acontecendo”, disse Bernlow. “É assustador”.

Ela disse que tem pensado muito no seu pai, já falecido, que morava na Groenlândia e dizia que um dia seria possível cultivar laranjas no Ártico. “Ele falou como piada”, disse Bernlow, “mas veja o que está acontecendo aqui”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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