Marta Lavandier / AP
Marta Lavandier / AP

Esportes nos EUA estão voltando ao normal. O mesmo acontece com seu papel nas lutas políticas

A sociedade americana está redesenhando normas culturais e proteções para os direitos dos cidadãos. Não deve ser um choque que os esportes sejam o campo de batalha mais visível

Kurt Streeter, The New York Times

18 de março de 2021 | 20h00

O fim da terrível pandemia do novo coronavírus parece, finalmente, ao nosso alcance. O presidente Donald Trump foi embora e os Estados Unidos acabaram de suportar um ano devastador de mortes e protestos. Em tempos como estes, os esportes podem ser um ponto de referência cultural do que se espera confortar e curar. Mas enquanto sonhamos com um retorno à normalidade, o que esperaremos dos jogos que amamos? Um retorno à noção mítica de que os esportes devem funcionar isolados, sem se posicionar quanto às questões importantes atuais?

Ou uma compreensão de que os esportes fornecem muito mais do que um fórum para entretenimento e exploração do potencial humano? Em busca de orientação, liguei para Harry Edwards na semana passada. Não há ninguém melhor para oferecer uma perspectiva. O sociólogo está na linha de frente dos protestos de atletas desde os anos 1960. Ele começou com um golpe amplo: “O esporte não reflete tanto a sociedade - ele é parte integrante do funcionamento da sociedade”, disse Edwards. Pura verdade.

Então ele se concentrou em um único alvo. Nós dois fizemos isso. Concordamos que os esportes se tornaram o principal campo de batalha cultural da sociedade para todas as questões sociais e políticas polêmicas. Não importa o assunto - raça, religião, sexualidade, patriotismo, o papel da polícia - o mundo dos esportes está mais poderoso do que nunca como um local para a discussão frequentemente dura de pontos de vista opostos.

Considere o recente impulso dos conservadores para abrir um novo lado do campo em nossas guerras pelo progresso social. O governador republicano do Mississippi acaba de assinar uma lei que proibirá atletas transgêneros que se identifiquem como mulheres de participarem de equipes esportivas femininas. Uma enxurrada de projetos de lei semelhantes, apoiados pelos republicanos, está passando por pelo menos 20 sedes de governos estaduais, todos com o pretexto de garantir os direitos de atletas que nasceram biologicamente mulheres.

Não importa que tal legislação seja desnecessária. Se ela anima uma base com medo da expansão dos direitos aos LGBTQI+, bem, o propósito será atendido. A busca por leis restritivas também mostra como os esportes continuarão a ser usados como prova de fogo para conservadores e progressistas.

Neste novo mundo, com seus laços sociais desgastados e falta de memória histórica, nada tem o poder do esporte como uma plataforma para batalhas pela mudança. Nem a música pop. Nem a influência que brota de nossas universidades. Nem Hollywood. “Não importa o quão grande seja o herói em um filme”, disse Edwards, “você não vai ver pessoas brigando por causa dos filmes”.

Trump proporcionou um poderoso catalisador. Ele atiçou as chamas entre seus apoiadores fervorosos, que veem o esporte como um último bastião para os bons e velhos tempos e seus mitos vagos. A pandemia nos forçou a ficar em casa e limitou nossas vidas - e também ajudou a dar aos atletas ativistas e seus apoiadores mais tempo para pensar e se organizar. (Então vieram as greves lideradas pela NBA e pela WNBA no verão passado.) Ao mesmo tempo, o poder onipresente e hiperbólico da internet e das mídias sociais continuou a crescer a uma velocidade vertiginosa.

Veja o caso de Greg McDermott, o treinador de basquete masculino da Creighton, que postou um pedido de desculpas no Twitter para se antecipar aos efeitos da notícia de que ele usou um linguajar reprovável ao falar com seus jogadores após uma derrota recente para Xavier. “Preciso que todos fiquem na plantation”, ele admitiu ter dito à sua equipe. “Eu não posso deixar ninguém sair da plantation.” Desnecessário dizer que palavras como essas foram um soco no estômago para seus jogadores negros, que produziram e compartilharam publicamente um vídeo para expressar sua dor.

O incidente rapidamente se tornou manchete e assunto de ampla discussão sobre o poder das palavras e a responsabilidade dos líderes brancos de compreender a experiência negra.

Enquanto tudo isso acontecia, um vídeo viral de um jogador reserva do Miami Heat, Meyers Leonard, despejava uma calúnia antissemita enquanto jogava um videogame em uma transmissão ao vivo pública. A crítica veio forte e rápida. A NBA suspendeu Leonard e multou-o em US$ 50.000. Treinadores e jogadores do Heat expressaram consternação. “Não podemos tolerar isso aqui”, disse Udonis Haslem, o atacante veterano do time, enviando um sinal claro de uma liga cheia de jogadores ativistas sobre os padrões de fala e erradicação do discurso de ódio. “Certo é certo e errado é errado”.

Amamos esportes não apenas pelo drama, mas também pela precisão e certeza. Os jogos quase sempre terminam com vencedores e perdedores claros. Podemos medir a velocidade de um velocista em milissegundos. Conhecemos a média de rebatidas exata do melhor rebatedor do beisebol e, atualmente, a velocidade do balanço e o ângulo com que a rebatida atinge o campo externo.

Mas quando misturado com a busca por mudanças e a demanda por novas proteções de direitos, nossos esportes tornam-se uma bagunça. As lutas pelo poder são sempre assim. Então, o que o futuro nos reserva? “A luta vai continuar”, disse Edwards. “E os esportes serão onde tudo se desenrolará.” Ele enumerou os nomes dos atletas ativistas mais conhecidos da atualidade - LeBron James, Maya Moore e Colin Kaepernick - e disse que eles e outros com caráter semelhante são mais astutos do que os jogadores de antigamente em “sonhar com os olhos abertos, trabalhar pela justiça, cultivar as ferramentas para fazer esses sonhos acontecerem”.

Então o sábio professor parou por um momento, antes de me lembrar que as batalhas não são travadas apenas por progressistas. “Lembre-se”, disse Edwards, “para cada ação, há uma reação. Espere que o outro lado opere em oposição direta ao que esses atletas estão pressionando”. O conflito é inevitável. A mudança também. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA  

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