Está chegando gente nova

Não estou entendendo nada do que acontece nesse imbróglio do Clube dos Treze. Duvido, aliás, que alguém esteja, dada a treva que cerca as ações dos clubes brasileiros. Mas embora sem entender tudo, certas coisas parecem muito claras. Está chegando um novo tipo de dirigente no Brasil. Uma nova geração completamente diferente de todas que as antecederam. Esse novo tipo de dirigente é bem exemplificado pelos presidentes do Corinthians e do Flamengo. Ambos jovens, impetuosos, falantes. Duas características os diferenciam. A primeira é uma dose de audácia que chega às raias da imprudência. A outra é que procedem como se títulos e conquistas não fossem mais o único alvo a ser perseguido.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

O alvo maior é, através de lances espetaculares, de grande efeito dramático, colocar seus clubes em evidência na mídia de modo a atrair ou a satisfazer os patrocinadores. Para isso contam com audácia pessoal suficiente para correr todos os riscos e confiam na sorte para tudo dar certo.

O caso dos dois Ronaldos é típico. Em termos de conquistas a passagem de Ronaldo Fenômeno pelo Corinthians pode ser classificada como modesta. Todos sabem o que houve em termos de títulos e, principalmente, em decepções quanto a esses mesmos títulos. Mas como ação de marquetingue junto aos patrocinadores, que são quem realmente mandam no futebol brasileiro, foi um sucesso absoluto. Correu-se um enorme risco. Ronaldo poderia talvez nem conseguir entrar em campo.

Mas, audacioso até o limite, o presidente corintiano arriscou e se deu bem. Essa ação apagou até fracassos. As reações da torcida pelo fiasco na Libertadores foram aplacadas não por uma vitória sem brilho sobre o Palmeiras, mas pelo espetáculo público gigantesco que foram as celebrações pelo encerramento da carreira de Ronaldo. É nesse sentido que sustento que os dirigentes que virão não mais darão toda importância a títulos ou conquistas.

Outras atrações. O Campeonato Brasileiro é duríssimo. Ganhá-lo ou mesmo classificar-se para a Taça Libertadores da América é uma coisa duvidosa para qualquer um. Por isso é preciso pensar em outros lances, em outras atrações. Ao patrocinador interessa que sua marca apareça, não exatamente ganhar campeonatos. Vejam o caso do Fluminense, que ganhou recentemente o Brasileiro e hoje está virtualmente extinto das manchetes. Aqui nem se fala dele, e mesmo no Rio está soterrado pelo "evento" Ronaldinho Gaúcho. Só se fala disso, e no Flamengo estão concentradas as atenções.

Foram-se os velhos dirigentes que queriam ganhar jogos, títulos e campeonatos, como se só isso bastasse. Bastam para o torcedor, mas o dirigente hoje não é mais torcedor. É um empreendedor e precisa dar satisfações a patrocinadores.

Amor ao clube. Até dirigentes diferenciados como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo fazem parte do passado. Belluzzo, antes de tudo é um torcedor. Intelectualmente privilegiado, mas torcedor. Suas ações visavam, sobretudo, que o Palmeiras ganhasse o campeonato. Talvez tenha sido seu erro. Com seu conhecimento de marquentingue, com seu preparo e experiência, deveria ter pensado em algum "evento" espetacular, invulgar, "impactante" , inclusive para se proteger de eventuais desastres.

Mas ele amava demais seu clube para isso: estava pensando só no título. Ele não veio e o professor não tinha nenhum espetáculo para substituir a decepção de seus torcedores. Saiu, talvez como o último dirigente de um outro tempo. Agora tem gente nova chegando.

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