Reprodução/ Instagram l39ion
Reprodução/ Instagram l39ion

Esta equipe de Los Angeles quer diversificar o ciclismo. E está começando pelo pódio

Como ciclista negro do sul de Los Angeles, Justin Williams diz que muitas vezes é descartado pelos gerentes. Isso não o impediu de diversificar o esporte

Andy Cochrane, The New York Times

02 de dezembro de 2020 | 16h00

Justin Williams é um ciclista profissional americano, célebre campeão nacional e destaque por outro motivo pelo qual ele não gostaria de se destacar: é um dos poucos competidores pretos no esporte. Agora ele está decidido a mudar essa realidade.

Depois de contratempos e de uma longa jornada pelo ciclismo profissional, em 2019 Williams formou sua própria equipe de ciclistas profissionais em Los Angeles, com seu irmão mais novo Cory. A equipe, chamada L39ION (pronuncia-se legião), conta com 14 corredores, entre eles 10 profissionais, que disputam toda a gama de provas - criteriums, estrada, cascalho e cross.

“A L39ION não força os ciclistas a se conformarem às normas brancas” ou às expectativas de como os ciclistas profissionais devem se parecer, agir ou falar, disse Williams. Ele reuniu antigos rivais, ex-companheiros e amigos para formar a equipe sediada em Los Angeles, uma lista que inclui ciclistas pretos, latinos, brancos e das ilhas do Pacífico. “Queríamos vencer corridas e, ao mesmo tempo, deixar o esporte mais inclusivo”.

Neste mês a L39ION anunciou planos para formar uma equipe que competirá numa das três categorias de corridas supervisionadas pela Union Cycliste Internationale, o órgão regulador do ciclismo.

Williams disse que pretende trazer diversidade a um esporte no qual poucos pretos conseguiram entrar. Ele está liderando uma nova geração que está muito longe das tradições de longa data do Tour de France, circuitos que historicamente foram preenchidos por atletas europeus predominantemente brancos.

“Venho lutando por toda a minha vida, por que eu iria parar agora?”, disse Williams, de 31 anos.

Como um dos ciclistas mais bem-sucedidos do país, Williams se concentra na modalidade criteriums, ou crits, que são corridas em asfalto curtas, que geralmente acontecem numa só cidade ou bairro.

Não foi fácil chegar onde ele está hoje. Williams traçou uma carreira tortuosa, na qual repetidamente se recusou a seguir os costumes do ciclismo profissional.

Williams, que é do sul de Los Angeles, ganhou sua primeira bicicleta aos 13 anos e aprendeu a pedalar com seu pai, Calman, ciclista amador. O ciclismo era uma de suas poucas fugas de um bairro violento.

Perto do fim do ensino médio, a carreira de ciclista de Williams começou a tomar forma. Ele se concentrou nas corridas de estrada, de olho nas icônicas corridas europeias, com o sonho de se tornar o próximo Lance Armstrong. “Mas era diferente para mim”, disse ele.

“Eu estava isolado, não tinha apoio e tudo parecia estranho”, disse Williams. “Era impossível tentar se desenvolver como jovem e atleta. Era uma coisa muito distante da maneira como cresci”.

Os números são eloquentes. Apenas 5 dos 743 ciclistas da elite do circuito mundial de ciclismo são pretos. Nenhum dos 113 profissionais licenciados pela USA Cycling é preto. (Em 2020, a L39ION não era licenciada pela USA Cycling). Este ano, havia um único atleta preto, o ciclista francês Kévin Reza, entre os 176 competidores na linha de partida do Tour de France.

Williams começou como amador nas corridas locais e, em 2006, venceu o Campeonato Nacional de Pista Júnior.

Apesar de ser uma promessa no cenário das corridas em circuito fechado, Williams continuou a se dedicar a um misto de modalidades, desde provas de velocidade até corridas de vários dias, uma anomalia para a maioria dos ciclistas, que tendem a se especializar num único estilo.

Com a melhoria dos resultados nas corridas, Williams se mudou para a Europa em 2009, seguindo o modelo de jovens talentosos que sonham em ser o próximo grande ciclista americano. Mas, mesmo com certo sucesso, Williams muitas se sentia condenado ao ostracismo. “Na Europa, eu era chamado de ‘difícil’”, disse Williams. “Me chamavam de caso de caridade e me estereotipavam como um preto raivoso”.

“Eu era descartado mais rápido do que outros ciclistas e vi muitos caras que nunca ganharam uma corrida entrando em equipes. Como preto, eu era estigmatizado antes mesmo que os gerentes me conhecessem”, continuou ele.

Williams voltou aos Estados Unidos em 2010 depois de passar um ano no exterior, deixando suas ambições no ciclismo em segundo plano para estudar design gráfico no Moorpark College, perto de Los Angeles. Voltaria a correr quando estivesse pronto, imaginou ele.

Quando esse dia chegou em 2016, ele explodiu de volta na cena como integrante da equipe Cylance Pro Cycling, vencendo 15 corridas no mais alto escalão do esporte em corridas de estrada e crits.

Apesar de sua ascensão meteórica, Williams ficou frustrado com os contratos que pagavam um salário mínimo e não permitiam que ele opinasse sobre seu calendário de corridas ou funções dentro da equipe. “Queria uma voz que não fosse moderada por ninguém”, disse ele. Sem um salário previsível, ele apostou em seu próprio treinamento, esperando que rendesse algum prêmio em dinheiro. Ele conquistou campeonatos nacionais consecutivos em 2018 e 2019, feito que poucos conseguiram.

Williams acredita que a falta de diversidade no ciclismo e a inação começam no topo, nas mãos de gerentes de equipe, organizadores de corridas e dirigentes do ciclismo. “Ninguém falou sobre o movimento de justiça racial porque não é necessário”, disse Williams.

Com a L39ION servindo como termômetro, isso pode estar começando a mudar.

Em abril, a Saint Augustine University se tornou a primeira faculdade historicamente negra a ter uma equipe de ciclismo. A EF Pro Cycling, equipe sediada no Colorado e conhecida por seus uniformes cor de rosa e seu sucesso constante no World Tour, recentemente iniciou dois programas de ciclismo em faculdades e universidades historicamente negras, com o apoio da Cannondale e da USA Cycling.

Num momento semelhante, surgiram duas organizações na esteira de protestos por justiça social em todo o mundo. A Bike Rides for Black Lives organiza passeios em massa em todo o país, e a Ride for Racial Justice cria acesso a recursos de ciclismo e educação.

“Queremos que todos se sintam seguros numa bicicleta. O fato é que muitos não se sentem”, disse Massimo Alpian, membro do conselho da Ride for Racial Justice. “A mudança só acontece quando fazemos um trabalho de base com as comunidades e também de cima para baixo, com marcas e governos locais. Para deixar o ciclismo mais inclusivo, temos que mudar as normas sociais, oferecer educação e criar mais representação”.

Os movimentos ecoam o trabalho de Williams com a L39ION. A equipe tem uma parceria com a Outride, uma organização sem fins lucrativos que visa colocar as crianças em bicicletas por meio de programas escolares e apoiar jovens ciclistas que não conseguem pagar as despesas de viagem ou taxas de inscrição para corridas em todo o país.

Mas há mais a ser feito, disse Williams. “Quando criança, o ciclismo me libertou de muitas coisas. Isso me conectou com pessoas de todas as esferas da vida e me ajudou a crescer”, disse ele.

“Em termos de impacto, não estamos fazendo o suficiente, para ser honesto. Ainda não estamos no nível que queremos”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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