Estádios de papel, rotina no Corinthians

Pelo menos sete projetos já foram feitos. Nenhum saiu da maquete

Milton Pazzi Jr., O Estadao de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 00h00

Um estádio para o Corinthians. Essa frase já foi dita centenas de vezes nas últimas décadas. Parece até conta de mentiroso, mas não é: pelo menos em sete oportunidades o projeto para a construção de uma casa para o time alvinegro foi lançado por seus presidentes. Já se vão quase 50 anos de promessas e tentativas não cumpridas. Fatos que fizeram o assunto se tornar um mito, um sonho para o torcedor e motivo de chacota por parte dos adversários.Essas tentativas, garantem os atuais dirigentes, não permitem que se deixe a atual discussão sobre o estádio corintiano transformar-se em um outro sonho. "Não vamos fazer gracinhas. Já maltrataram demais o torcedor. Só vamos fazer [O ESTÁDIO)]se estiver tudo, mas tudo mesmo, certo", discursa o vice-presidente de marketing, Luiz Paulo Rosenberg. "Esqueçam o estádio. Já fomos enganados demais", pede o presidente Andrés Sanchez, nos discursos da semana que passou. Mas o assunto segue em pauta no clube e todos esperam resolver ainda nesta gestão se vão ou não, enfim, construir um novo campo para o time alvinegro.COMEÇO DO SONHOO primeiro estádio corintiano existe até hoje. É o Alfredo Schürig, ou Fazendinha, cujo terreno foi comprado em 1926. Ele pertencia a Nagib Salem, que o vendeu a 700 contos de réis (moeda da época), em várias prestações, quando lá existia apenas um campo. O estádio foi construído aos poucos. Até os anos 50, foi até utilizado em jogos importantes. Depois, porém, começou-se a falar em ter uma "casa imponente, do tamanho da torcida e do clube??, seguindo o modelo do São Paulo, que já pensava no Estádio do Morumbi. Na época, tamanho era documento.O primeiro projeto efetivo foi apresentado em 1968. Seria construído no próprio Parque São Jorge, para 133.500 espectadores, num design considerado futurista. Teria cinema, pista de patinação, anfiteatros... Para ajudar na construção, que precisava de investidores, foi criado o Carnê Corintião, que dava prêmios. Quando Wadih Helu saiu da administração, o projeto foi esquecido.Com Vicente Matheus, a intenção de construir um estádio quase se tornou uma obsessão. A primeira tentativa foi em 1975, num projeto que envolveria todo o clube. Mas acabou abandonado quando Matheus passou a cogitar o maior de todos: o Coringão, para 200 mil pessoas. Seria o maior estádio do mundo - o Maracanã já estava encolhendo na época.O então presidente fez de tudo para obter a ajuda do poder público. Conseguiu em 1980, quando a prefeitura cedeu 197 mil m² em Itaquera, então um bairro em formação. Não era o local preferido dele - queria no bairro do Aricanduva -, mas seguiu adiante. Até o presidente da República Ernesto Geisel, numa visita ao Parque São Jorge, ele usou para conseguir a liberação do terreno. Quase brigou com Olavo Setúbal, então prefeito, mas estava obcecado pelo projeto e fez de tudo para que ele não emperrasse. Conseguiu a ajuda que queria do poder público e fez até uma grande festa de lançamento.O senhor vai mesmo construir o estádio? Essa era a pergunta mais comum a Matheus. "Mas é lógico", disparava, de imediato. Seu plano era fazer a obra com a venda de camarotes, que ocupariam 23.380 lugares do estádio (o Emirates Stadium, do Arsenal, um dos mais modernos do mundo, tem capacidade para 60.355 espectadores e apenas 9.361 lugares desta forma), e construir por etapas - primeiro as arquibancadas, aproveitando o desnível do solo, depois camarotes e tribunas e por fim a arquibancada, no anel superior. Seriam ainda 64.352 cadeiras numeradas e 104.022 lugares na arquibancada.Esse projeto foi o que mais recursos arrecadou. O Estado apurou que a conta utilizada para a compra dos carnês existe até hoje. Está inativa e o atual vice-presidente de finanças, Raul Corrêa, desconhecia sua existência. Ficou de investigar o caso. Marlene Matheus (mulher do presidente já falecido), atual vice-presidente social do Corinthians, não retornou os recados deixados em seus telefones.Só na gestão de Alberto Dualib o assunto estádio voltou para a pauta. E teve vários capítulos, todos via parceiros. O primeiro, com o extinto Banco Excel Econômico, o segundo com a Hicks Muse (ambos lançados com festa e discursos pomposos). Em ambos se falava em obras concluídas em dois ou três anos e conforto absoluto, com o que havia de mais moderno. O terreno até foi comprado, mas com o fim da parceria com a HMTF, tudo ficou para o passado. Depois, Dualib voltou a falar de reforma da Fazendinha com a ajuda da Federação Paulista, que lhe emprestaria o dinheiro necessário, e, por fim, e mais recentemente, até o investidor russo Boris Berezovski demonstrou interesse, por meio da MSI. Nenhum deles passou da promessa. Assim como já se pensou, até, em comprar o Pacaembu. Uma avaliação até foi feita nos anos 90, quando o Corinthians tinha o dinheiro de parceiros, mas chegou-se à conclusão de que, pelo custo da reforma e a burocracia para adquiri-lo, era mais fácil construir um novo.Quais (ou quem) foram os culpados dos projetos não realizados? Difícil de apontar. Os presidentes culpam as administrações seguintes de não dar continuidade às idéias. Alberto Dualib prefere não comentar o fato.O valor cogitado hoje, de cerca de R$ 500 milhões para se fazer um estádio, é algo que o clube admite conseguir apenas com a ajuda de parceiros. Porém, com a Copa de 2014 garantida no Brasil, quem sabe o Corinthians possa, enfim, alcançar seu objetivo, já que a cidade de São Paulo precisa de um local adequado para o Mundial? Até lá, ainda falta um bom tempo. E o endereço, por enquanto, fica na imaginação do torcedor.

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