Estaduais são página virada

Sempre fui um defensor dos campeonatos regionais, a começar pelo Paulista. Talvez por razões sentimentais, pela antiga ligação afetiva com essas disputas, nunca pensei que pudesse modificar meu pensamento quanto a suas existências. Chegou a hora. O Campeonato Paulista em particular, e creio que os demais campeonatos regionais também, não se justificam mais. Não há nenhum motivo para que perdurem, sobretudo porque não representam mais nada para o torcedor. Um jogo aqui e outro ali terá alguma repercussão, principalmente quando times grandes se sentem em falta com sua torcida. Foi o caso do Palmeiras no ano passado, é o caso do Corinthians este ano. Haverá então algumas partidas que podem sacudir a torcida de sua indiferença. Só isso. O resto são os times grandes fazendo exibições pelo interior, para cidades que já não aparentam ter qualquer ligação com seus próprios times.É só olhar as imagens. Faz muito tempo que não vejo, nos estádios do interior, a torcida do time local ser superior à de qualquer um dos times grandes de São Paulo. E não são torcedores da capital que teriam penosamente se deslocado interior a dentro para acompanhar seus times. São visivelmente torcedores locais que abandonaram suas equipes. Sempre foi um pouco assim, devo admitir. Os grandes sempre tiveram contingentes respeitáveis de torcedores pelo interior. Mas nunca como agora. E o próprio torcedor da capital parece ter perdido muito do interesse pelos confrontos com equipes interioranas. Alguém acha que 25 mil pessoas se dirigiriam ao Parque Antártica para ver Palmeiras e qualquer equipe do interior de São Paulo, com o mesmo entusiasmo com que foram ver o jogo contra o Real Potosi? E o Real Potosi é pior do que a maioria dos times que disputam o campeonato paulista. O interesse, portanto, não era o time, mas a competição. O interesse do torcedor se desloca para outras disputas. Para o Brasileiro, para a Libertadores, sei lá. Essa é a dolorosa verdade para alguém, como eu, que sempre teve como uma de suas referências o Campeonato Paulista. Nem os dirigentes dos próprios clubes do interior acreditam mais em seus próprios times. Só interessa a eles os jogos contra os grandes quando podem aumentar absurdamente os ingressos, com a justificativa de salvar as finanças. É preciso aceitar as mudanças e principalmente julgar as que são inevitáveis, e inclusive necessárias, tratando de separá-las cuidadosamente das que são artificiais, apenas fascínio tolo pelo novo. Acho que num tempo de distâncias mais difíceis de percorrer, num tempo de regionalismos mais exacerbados e mesmo de aceitação de um certo tipo de vida provinciana, o paulista tinha por que existir. Agora não tem mais. Nenhum time do interior se fixou entre os grandes, ao contrário, naufragam cada vez mais. As revelações são escassas, quando existem, os times em grande maioria são montados artificialmente por razões políticas ou estão em mãos de empresários que os montam e desmontam segundo suas próprias conveniências. Ppara culminar os jogos são de lascar. Vi uns dois ou três, difíceis de aturar. Então para quê? Gostaria que acabasse também por uma questão pessoal, de dignidade. Esse velho torneio já foi grande, empolgante, vital. Prefiro que morra de uma vez do que vê-lo agonizando ingloriamente ano a ano. Ele não merece.

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