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Estamos avisados

Agora somos ruins. Depois da Copa, subitamente, todos acordaram. Somos ruins. Não jogamos nada, somos desorganizados, subdesenvolvidos, atrasados, estamos na Idade da Pedra.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2014 | 02h03

Estranho, porque até poucos dias atrás éramos os maiores, a caminho do hexa, com reportagens diárias, entrevistas, todos afirmando nosso favoritismo e nosso elenco de jogadores. Deu no que deu, agora somos ruins. E a televisão chamou os clubes para um pito. "Assim não é possível, gente. Não podemos continuar com esse nível de espetáculos, fazendo cair a audiência".

Foi um recado bem dado transmitido pela Globo, porém enviado pelos que realmente mandam, os anunciantes, as grandes corporações. "Assim não é possível, gente. Estamos perdendo dinheiro. As derrotas na Copa nos fizeram engavetar um sem número de comerciais prontos para alavancar ainda mais as nossas vendas. Vocês estão sendo prejudiciais para os negócios. A nós não importa nada a derrota do Brasil e a ruindade geral, nós não nos importamos com futebol. Somos homens de negócio. E o fato é que esse joguinho atrapalha negócios."

Essa foi a verdadeira mensagem que os clubes devem ter compreendido bem. Não acho difícil que os anunciantes, e consequentemente a televisão, abandonem o futebol, porque não haverá passe de mágica que faça o futebol melhorar de uma hora para a outra. Terão os patrocinadores, anunciantes e os que mandam nas corporações paciência para esperar a reestruturação das equipes, a volta aos bons tempos? Não creio. Não faz parte do mundo dos negócios a virtude da paciência. Os resultados têm de ser imediatos. Não se leva em conta nada senão o momento, e o momento tem de ser bom para dar audiência.

É só olhar o exemplo do Palmeiras. Faz não sei quanto tempo que o Palmeiras não tem patrocinador. O momento do clube não é dos melhores. Mas é um grande clube, de grande torcida e de grande tradição. Não interessa. O que vale é o hoje, e a falta de títulos, talvez a consequente diminuição de interesse da televisão, implica em que as ofertas de patrocínio não sejam compatíveis com a grandeza do clube. O presidente Paulo Nobre faz muito bem em recusar propostas que diminuem o clube. O Palmeiras está vivendo sem patrocínio e continua vivo.

Dei esse exemplo para mostrar o que aguarda os demais clubes. Noto desesperadas tentativas de suscitar algum interesse das tevês. Não é outra a razão da contratação de Kaká e Robinho, por exemplo, que chegam como atração midiática momentânea, com data de saída marcada. E os clubes terão de encontrar novas atrações.

O curioso é que não estamos, na verdade, perdendo público algum. Nunca tivemos esse grande público que parece hoje perdido. Havia público em alguns grandes clássicos, havia algumas rivalidades que eram, em si, atrações de um jogo. O resto dos jogos, não tão importantes, tinham públicos medíocres. Isso no tempo em que o nosso futebol não era encarado unicamente como negócio publicitário. Agora todas as partidas devem lotar ou, na falta disso, dar audiência na televisão.

Foram criadas para isso toda a sorte de competições, para haver o maior número de jogos possível. O resultado é que as rivalidades acabaram, de tão comum se tornaram os jogos que as sustentavam. Mal e mal, um ou dois grandes jogos com muita audiência e público ficam confinados nas finais dos torneios.

Isso parece se mostrar insuficiente para as grandes corporações. Querem espectadores grudados na tevê, seja o jogo que for. Só que não temos, nem nunca tivemos, jogadores para tanto. Contraditoriamente, ao se tornar um mau negócio, poderá ser a chance de recuperação do verdadeiro futebol. Quando finalmente perceberem que o futebol não lhes pode dar mais nada, pode ser que o abandonem à sua própria sorte. E talvez aí resida sua possibilidade de redenção.

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