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Estatística muda estilo de atletas nas mais diferentes modalidades

Cada vez mais influentes, analistas de dados interferem na maneira como são praticados esportes tradicionais como vôlei, tênis e basquete

Felipe Rosa Mendes Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 04h30

Henrique Modenesi, Craig O’Shannessy e Daryl Morey não são atletas. Mas, por meio de análise de dados, estes especialistas em vôlei, tênis e basquete, respectivamente, trabalham nos bastidores para mudar a forma como são jogados os tradicionais esportes.

Australiano, O’Shannessy é formado em jornalismo, mas atuou como treinador de tênis por 20 anos, trabalhando com tenistas como o sul-africano Kevin Anderson, atual vice-campeão de Wimbledon. Intitulado analista de estratégia, presta serviços ao Aberto da Austrália e ao Grand Slam britânico.

No entanto, seu maior feito é mudar o estilo de jogo de Novak Djokovic. Contratado pelo sérvio em 2017, ele foi um dos responsáveis por levar o tenista ao topo do ranking novamente. Seu maior insight foi perceber que, segundo os seus próprios números, tenistas que vencem o maior número de pontos curtos numa partida acabam faturando a vitória em 85% dos casos.

“Não faz sentido ficar treinando pontos longos porque, na verdade, eles representam apenas 10% dos pontos disputados em uma partida”, explica o australiano. De acordo com sua análise, foi isso que fez a diferença para Djokovic na conquista do Aberto da Austrália deste ano. “Os dados vão criar uma mudança de paradigma e este novo aprendizado influenciará fortemente os treinos”, aposta.

A análise de dados também tem ajudado o Houston Rockets, na NBA. Graças ao trabalho do gerente-geral, o norte-americano Daryl Morey, um engenheiro da computação com MBA no Massachusetts Institute of Technology (MIT).

Nos Rockets desde 2007, ele foi o criador do “true shooting percentage” (porcentagem de chute verdadeiro). O sistema mostrou que arremessos de três pontos, apesar de terem um aproveitamento menor que os de dois, são mais efetivos se tentados em maior quantidade. Assim, a NBA passou por uma grande revolução. Até mesmo o lugar “perfeito” para a execução da jogada existe: o canto da quadra, onde a linha dos três pontos está mais perto da cesta.

Em 2012, James Harden foi contratado justamente para atender as necessidades apontadas pelos dados. A aposta deu certo. Ele registra médias de 35,9 pontos por jogo e corre atrás de seu segundo prêmio de melhor jogador da liga. Como efeito de comparação, a melhor temporada de Michel Jordan teve exatos 35 pontos de média.

Como resultado das apostas de Morey, os Rockets foram na última temporada a primeira equipe na história da NBA a terminar os 82 jogos da temporada regular tentando mais chutes de três (3.470) do que de dois pontos (3.436). No último domingo, eles converteram 27 cestas de três contra o Phoenix Suns e estabeleceram novo recorde na NBA. A marca anterior era do próprio Houston, que tinha convertido 26 cestas duas vezes na atual temporada.

Vôlei. No esporte no qual o Brasil é referência, o chamado “Big Data” se faz presente desde o início da década de 80. Henrique Modenesi, analista de desempenho da seleção brasileira masculina, usa os dados em treinos, análises pré-jogo, durante as partidas e no pós-jogo. E aponta o saque como o grande beneficiado pelo trabalho com os dados.

“De uns dez anos para a cá o saque evoluiu muito, tanto o ‘viagem’ como o ‘flutuante’. Existem trabalhos específicos que usam análise de dados para entender o efeito na recepção, a velocidade e a frequência que os jogadores devem sacar, o ritmo. Se é para colocar a bola em jogo ou forçar”, disse o especialista. Para garantir a precisão dos números, as equipes chegam até a usar radares de velocidade durante os treinamentos.

Atuando desde 2009 na área, ele explica que software mais difundido no vôlei atualmente é o “Data Volley”, criado na Itália, mas algumas comissões optam por desenvolver sistemas próprios. Foi o que aconteceu na troca de alguns membros da seleção brasileira com a saída de Bernardinho, em 2017.

Dados são a nova fronteira da evolução esportiva

A aposta de diversas modalidades esportivas em fórmulas matemáticas e análise de dados é um caminho sem volta, na avaliação de Arthur Igreja, especialista em tecnologia e inovação e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Na sua opinião, as modalidades já estão perto do seu ápice na preparação física e no desenvolvimento de material esportivo. E por isso buscam novos caminhos.

“Como no esporte de alto rendimento é tudo muito igual, se você conseguir melhorar 1% já é um salto gigante”, justifica. “Em qualquer modalidade, a distância entre o campeão e o segundo colocado é muito apertada. As receitas de treinos e dietas são todas muito conhecidas e parecidas, então a nova fronteira está na ciência de dados.”

Para tanto, a evolução da tecnologia está sendo fundamental. Hoje existem vários sistemas de captação de estatísticas. Muitos são exibidos em tempo real para o público nas transmissões, como acontece em lutas de boxe, onde é possível ver onde um pugilista está focando os seus golpes, e na Fórmula 1, com detalhes até sobre pontos de maior desgaste dos pneus.

Enquanto as emissoras usam os recursos estatísticos para exibir um produto melhor, nos bastidores, analistas travam uma guerra a parte, como afirma Igreja: “Começa ter uma briga extraquadra além dos dirigentes e dos técnicos. Agora existe uma luta para saber quem tem o melhor algoritmo, o melhor cientista de dados.”

A ascensão dos analistas de dados se deve, segundo o especialista, ao custo menor dos equipamentos. “O barateamento da tecnologia, dos equipamentos e sistemas de software, é que está permitindo o acesso fácil a esses dados.” E avisa que a evolução neste caminho é praticamente inevitável, apesar da resistência de profissionais de outras áreas. “Tem muitas equipes que sofrem com a resistência do treinador, que não acredita na parte científica. Alguns deles se sentem ameaçados. Essa chegada da tecnologia assusta. Vai contra algumas crenças.”

No entanto, Igreja pondera que nenhum software ou fórmula matemática vai substituir a habilidade dos atletas no esporte. “Estamos falando de lapidar algo que já é muito bom. No final do dia, é o talento de um ser humano que vai fazer a diferença”, diz.

 

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