Estorvo imperial

O Corinthians não sabe o que fazer com Adriano. Está perdidinho da silva com o moço que um dia levou ao pé da letra o apelido de Imperador e se julgou reencarnação dos destemidos ou doidos que comandavam a antiga Roma e adjacências. A concentração compulsória imposta ao atacante é demonstração definitiva de que o staff alvinegro tem um mico nas mãos e tenta a todo custo livrar-se dele. Ou recuperá-lo.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h03

A explicação para a clausura no hotel do clube inaugurado pouco tempo atrás soa tão precária quanto a condição física do rapaz. Os responsáveis por assisti-lo desde que atolou no Parque São Jorge, há quase um ano, acreditam que vigilância intensiva e integral basta para fazê-lo perder peso e garantir inscrição na Libertadores. A planilha oficial indica que o excedente não passa de 3 quilos. Quanto era, então, quando os jogadores voltaram das férias, há um mês?

O recurso à internação disfarçada parece ter bom propósito. O investimento não saiu barato e o torcedor corintiano deseja ver em campo o centroavante que já demoliu defesas com sua canhota potente. Mas essa atitude está mais para saída desesperada, de quem já tentou tudo para enquadrar um profissional experimentado, talentoso e cabeça-dura. Uma espécie de ultimato, de cartada definitiva, de chacoalhada física e moral.

Está bem, algo teria de ser feito. Só que restam dúvidas: vai funcionar a atenção redobrada? Será que Tite e colaboradores botam fé na força de vontade de Adriano, já que teria de partir dele a decisão de ajustar-se? Confiam na eficácia do regime de emergência? Ou melhor: quanto tempo durarão os efeitos dessa manobra? Uma semana, um mês?

Adriano passa uns dias a mofar no quarto do CT, come saladinha, peito de frango, toma água mineral e suco light. Café com adoçante. Tem à disposição a parafernália eletrônica indispensável para todo boleiro (tevê, celular, fones de ouvido, iPad, iPod, iDisso, iDaquilo). Provavelmente, dormirá em horários mais condizentes com as exigências de um atleta. Não tem como não ficar menos cheinho. Ufa, que alívio. Deu certo?

Pode ser. Como reagirá, assim que obtiver alforria, sem babás por perto e com a volta da turma da fuzarca? Incógnita, mas nem tanto, sobre a qual o Corinthians prefere nem falar. O preparador físico Fábio Mahseredjian deu dicas ao dizer que não há como manter controle absoluto, que tem outros jogadores com os quais se preocupar. Foi enfático ao afirmar que Adriano não suporta atuar nem meio tempo. Aliás, em quase dois anos o que menos se viu foi o "Imperador" nos gramados.

Imagino como deve ser frustrante para Fábio e colegas gastarem tutano pra colocar um gigante desses em forma e ver o trabalho desperdiçado. Devem estar cheios desse vaivém. Adriano também. Daqui a alguns dias completa 30 anos, balançou na gangorra do futebol, chutou o balde diversas vezes, deve odiar concentrações (e, nessa, estou com ele). Em resumo: é dono do nariz dele e deve preparar-se de vez para aguentar com as escolhas que faz. A vida cobra de todos.

Salve, Assunção. Felipão, Tirone e a imensa torcida do Palmeiras devem tratar Marcos Assunção a pão de ló e chá de camomila, além de pedir a San Gennaro e à Madonna da Achiropita que o guardem. Ele voltou a ter o pé mais calibrado do que nunca, é salvador e ídolo do time. Suas cobranças de falta e escanteio permanecem indispensáveis. Se bem que Daniel Carvalho coloca as manguinhas de fora, com futebol talentoso. Que bom.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.