Estrangeiros são opção até para os clubes pequenos

Momento positivo da economia e real forte ajudam a atrair atletas de países vizinhos, mais baratos que os brasileiros

FERNANDO NAKAGAWA, EDUARDO RODRIGUES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2011 | 03h04

"No conocía Ribeirão Preto, tampoco el Comercial. Entonces, miré en Google.'' Foi assim que Esteban Giglio reagiu quando recebeu a inesperada proposta de trocar Buenos Aires pelo interior paulista. De olho no salário maior, o volante, que disputava a terceira divisão do Campeonato Argentino, aceitou - depois de dar uma pesquisada na internet - conversar com os dirigentes brasileiros. Semanas depois, em 25 de janeiro deste ano, vestia pela primeira vez a camisa branca e preta do Leão do Norte para disputar a série A2 do Campeonato Paulista.

Giglio não é o único atleta sul-americano que cruzou a fronteira para defender camisas brasileiras menos conhecidas. Com a economia pujante e o real forte, times pequenos e médios do Brasil têm conseguido atrair atletas internacionais pela primeira vez. Dados do Banco Central mostram que, de janeiro a setembro, o Brasil já gastou US$ 50,9 milhões (cerca de R$ 88,7 milhões) na contratação desses esportistas, novo recorde e mais que o dobro dos nove primeiros meses de 2010.

"Um jogador argentino ou uruguaio custa na média entre 30% e 40% menos que um brasileiro de igual qualidade'', diz o presidente do Comercial de Ribeirão Preto, Nelson Lacerda. "É uma ótima relação custo-benefício''. Giglio concorda.

Na série A2 do Estadual paulista, o salário do argentino é o dobro do que recebia no Nueva Chicago, time da zona oeste de Buenos Aires. "A economia do Brasil está muito forte. Na Argentina, as coisas não estão tão bem. Por isso, não ganharia o salário do Comercial lá'', arrisca o jogador, de 25 anos.

Ponte. A ponte entre os times do Brasil e os vizinhos acontece via agentes e empresas especializadas em jogadores que não estão nas equipes de ponta. Geralmente, dirigentes vão ao exterior ou veem jogos em vídeo para encontrar talentos e escolher exatamente o que o time precisa. Na Argentina, o objetivo do Comercial era encontrar um volante ágil: acharam Giglio.

Na apresentação em janeiro, o argentino foi bastante assediado pela imprensa - já que a presença de estrangeiros em times de Ribeirão Preto e região ainda é novidade. O interesse surpreendeu o volante.

Pouco depois, o Comercial se classificou para a primeira divisão do Campeonato Paulista depois de 25 anos amargando divisões menores - chegou a disputar a Série A3.

Em 2012, quando o time de Ribeirão volta à elite do estadual, o argentino prevê que seu salário vai aumentar. Se tudo der certo, Giglio deve ganhar quatro ou cinco vezes mais do que recebia na Argentina.

Além do salário, estrangeiros dizem que a vinda para o Brasil não anula completamente a visibilidade na terra natal. Atualmente, a maioria dos estrangeiros do futebol vem dos vizinhos Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai. Em todos esses países, a televisão a cabo acompanha as maiores equipes brasileiras. "A televisão passa resumos dos jogos de grandes como Corinthians e São Paulo. Por isso, quando o Comercial jogar contra eles no ano que vem, estarei na TV da Argentina.''

Novos planos. Nelson Lacerda, o presidente do Comercial, diz que está de olho na Argentina e Uruguai para, eventualmente, reforçar o Leão do Norte para o Paulista de 2012. Ao mesmo tempo, também acompanha atentamente as cotações do dólar porque, segundo ele, contratar um estrangeiro com a moeda acima de R$ 2 passa a ser "menos competitivo''.

Mas, enquanto o real segue forte, Giglio não pensa duas vezes e responde rápido aos colegas argentinos que perguntam se vale a pena jogar no Brasil: "Vengan!''

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