Estreante Brawn dá espetáculo

O inglês Jenson Button e o brasileiro Rubens Barrichello fazem dobradinha na estreia da escuderia no Mundial

Livio Oricchio, MELBOURNE, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2009 | 00h00

Jenson Button comentou, ontem, enquanto ria pela extraordinária vitória no GP da Austrália: "Logo depois da quarta volta no primeiro teste com o novo carro da Brawn GP, em Silverstone, compreendi que se tratava de um vencedor." Seu companheiro, Rubens Barrichello, disse o mesmo ao deixar o cockpit do modelo BGP 001, em Barcelona. Ontem, a dobradinha Button-Barrichello na etapa de abertura do Mundial, em Melbourne, comprovou o que ambos e todos na Fórmula 1 imaginavam: neste momento, a Brawn GP não tem adversários.Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a realidade da nova escuderia, comandada pelo competente engenheiro inglês Ross Brawn, o desempenho de Button e Barrichello ao longo das 58 voltas da corrida no circuito Albert Park certamente as desfizeram. Tudo bem que Rubinho percorreu um caminho bem mais longo para conquistar o segundo lugar, por enfrentar problemas na largada e envolver-se num acidente. Mas Ferrari e McLaren, por exemplo, tradicionais campeãs na F- 1, sequer se aproximaram do líder absoluto da prova, Button, que obteve para a Inglaterra a vitória de número 200 na Fórmula 1, a segunda da carreira."Eu pedi a meu engenheiro, pelo rádio, que me beliscasse. Isso foi logo na quinta volta da corrida, quando eu já havia aberto uma vantagem de cinco segundos. Que momento especial", falou Button, que abraçava todo mundo. O surpreendente e talentoso Sebastian Vettel, da Red Bull, estava em segundo lugar. "Rubens facilitou a minha vida ao me permitir ir embora no início", comentou Button, enquanto olhava Rubinho, que demonstrou não gostar muito do comentário. Não ficou esclarecido se a queda da segunda posição no grid para a sétima no final da primeira volta decorreu de um erro de Rubinho no procedimento de largada ou uma falha do equipamento."Eu controlava os tempos de Vettel para saber o que ele poderia fazer", explicou o vencedor da primeira etapa da 60ª temporada da Fórmula 1. Como os demais pilotos, Button descreveu em detalhes as imensas dificuldades com os pneus no GP da Austrália. Os moles se degradavam depois de cinco voltas e os duros não atingiam a temperatura correta para oferecer boa aderência. "Quem me viu liderar a prova não tem ideia do que foi administrar o uso dos pneus e os sérios problemas da falta de visibilidade." A reta dos boxes e a seguinte, depois da curva 1, apontam para o Oeste. "Iniciar a corrida nesse horário (17 horas) tornou as coisas muito difíceis para nós que tínhamos o sol de frente, na nossa cara, além de a queda brusca da temperatura no fim de tarde afetar o aquecimento dos pneus." Mas nada disso tirou o ânimo de Button e do festivo público nas arquibancadas: "Vamos desenvolver nosso carro com os poucos recursos de que dispomos para nos mantermos nesse nível, mas sei que não será possível", previu. A possibilidade de o Tribunal de Apelações da Federação Internacional de rever o resultado final, em Paris, não preocupa Button: "Estamos aqui para dar espetáculo, tirar o máximo do equipamento, e foi o que fizemos no fim de semana e faremos no seguinte. Só nos cabe esperar a decisão da FIA."Ferrari, Red Bull e Renault protestaram contra o difusor (componente do conjunto aerodinâmico) da Brawn e o recurso será julgado no dia 14. Por mais otimista que fosse a previsão de Lewis Hamilton, da McLaren, como ele mesmo contou, ontem, em nenhum instante supôs que terminaria a competição no pódio. "Eu estava tentando obter um ponto e de repente ganhei seis. Disputei uma das minhas melhores corridas." Como Rubinho, reconheceu que os vários acidentes o ajudaram muito a crescer na classificação. A McLaren demonstrou estar ainda mais distante que a Ferrari das melhores equipes neste início de ano: Brawn GP, Red Bull, Toyota e Williams. A próxima etapa do Mundial, será domingo, no circuito de Sepang, na Malásia. Ninguém retira, desde já, o favoritismo do sensacional carro da Brawn. ACELERADAS A direção da Toyota decidiu apelar da decisão dos comissários desportivos que impuseram a punição de 25 segundos ao tempo de prova de Jarno Trulli. Ele teria ultrapassado Lewis Hamilton, da McLaren, para assumir o terceiro lugar, sob bandeira amarela, quando o safety car estava ainda na pista, na 57.ª volta, a uma da bandeirada. O resultado da corrida pode, portanto, mudar de novo se o protesto for acatado. Não há data de julgamento. A última vez que uma equipe estreou na F-1 e venceu com dobradinha ocorreu no dia 4 de julho de 1954, no GP da França, disputado em Reims. A Mercedes entrou na competição com o argentino Juan Manuel Fangio e o alemão Karl Kling, que pilotaram o modelo W196. Fangio foi primeiro e Kling cruzou um décimo de segundo atrás. O francês Robert Manzon, da Ferrari, completou o pódio, com uma volta a menos. Em 1977, a equipe do milionário canadense Walter Wolf disputou seu primeiro GP na Argentina, no dia 9 de janeiro. O sul-africano Jody Scheckter venceu com o modelo WR1-Cosworth, depois que José Carlos Pace, com Brabham BT45-Alfa Romeo, não suportou o esforço físico nas voltas finais, sob calor intenso, e perdeu rendimento. Carlos Reuteman, com Ferrari 312T2, foi 3.º. Ross Brawn impressionou os que conversavam com ele depois corrida: "Vamos começar a trabalhar em breve no programa do carro de 2010 porque com o fim do reabastecimento de combustível a sua concepção terá de ser bem distinta da do modelo atual." Richard Branson, do grupo Virgin, confirmou negociações no sentido de adquirir a Brawn e, se todos os demais times concordarem, substituir o nome Brawn GP por Virgin. Sebastian Vettel, da Red Bul, chegou no paddock louco da vida com Robert Kubica, da BMW. Na 55.ª volta, os dois lutavam pelo 2.º lugar e bateram. "Ele estava com os pneus duros, bem mais rápido. Tinha o carro já na minha frente (na curva 3), mas não me sobrou espaço." Os comissários, no entanto, julgaram Vettel culpado pelo acidente e lhe puniram com a perda de 10 colocações no grid no GP da Malásia. Robert Kubica , autor de corrida excelente, como a de Vettel, comentou sobre o acidente que tirou os dois do pódio: "Se fosse a última curva da última volta, ok, mas é a primeira corrida, o mais importante é somar pontos." O polonês tinha planos ambiciosos: "Meus pneus duros me davam bem mais velocidade que Vettel e Button (líder), os dois com o mole. Tinha chance de ganhar a corrida." Button possuía apenas 4s398 milésimos de vantagem àquela altura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.